Essa semana, ao ler sobre o relatório da Associação Brasileira de Startups, alguns números saltaram aos olhos: mais de 60% das edtechs estão localizadas em SP e menos de 20% fora do eixo Sul Sudeste
Ao longo do tempo, tenho buscado sair das minhas zonas de conforto e explorado outras ecossistema: falamos do Tucuju Valley no Amapá, do Porto Digital no Recife, fizemos uma coluna falando dos desafios de quem empreende fora do eixo RJ-SP
Pensando nisso, comecei a explorar os demais centros de inovação para entender o valor de ecossistemas e contextualização
Essa semana, trago uma conversa com Nathalia Kelday, ela mesmo uma empreendedora com a EdStation além do EdTech Meetup, focada no ecossistema de Brasília
Falamos sobre o valor do ecossistema e também de sua própria jornada como empreendedora
1. Conte sobre a história do EdTech Meetup da EdStation e sobre a sua trajetória como empreendedor até aqui.
Minha trajetória empreendedora começou depois de três anos estudando para o concurso de diplomata. Minha primeira startup foi a Estudologia, uma plataforma que usava inteligência artificial para acelerar a aprendizagem de candidatos ao Instituto Rio Branco.
Ao empreender em educação, percebi que existia um problema maior. O ecossistema de edtechs de Brasília era muito fragmentado, e inovar em educação é especialmente difícil porque envolve escolas, famílias, governos e ciclos longos de adoção. Em 2017, fundei o Edtech Meetup para conectar esses empreendedores e fortalecer o ecossistema. O projeto cresceu, realizou grandes eventos, produziu o Censo das Edtechs do Distrito Federal e chegou a mapear 100 edtechs da região.
Em 2019, eu estava dedicado integralmente ao Edtech Meetup. Naquele ano realizamos um evento para cerca de 800 pessoas e o plano era dobrar esse número em 2020. A pandemia interrompeu esse crescimento e me obrigou a repensar o que fazia.
Eu já atuava como palestrante em inovação e educação e, ao mesmo tempo, tinha vivido de perto os desafios das escolas para desenvolver competências tecnológicas nos adolescentes. Resolvi reunir essas experiências e fundei a Edstation.
A Edstation nasceu para ensinar empreendedorismo de impacto por meio da criação de soluções reais com tecnologia e inteligência artificial. Em vez de ensinar empreendedorismo apenas como teoria, os estudantes identificam problemas, desenvolvem modelos de negócio, constroem protótipos e apresentam suas soluções.
A academia começou a atender clientes em 2021. Desde então, já formou mais de 20 turmas, envolveu cerca de 280 estudantes, deu origem a mais de 60 startups estudantis e estabeleceu parcerias com escolas no Brasil e no exterior.
Foi esse trabalho que me levou a Harvard, onde aprofundei minha pesquisa sobre inovação educacional. Desde então, a Edstation continua evoluindo, incorporando inteligência artificial e preparando estudantes para criar soluções para problemas reais, em vez de apenas consumir tecnologia.
2. Por que a capacidade de criar virou um foco para você?
A capacidade de criar virou um foco para mim porque acredito que ela está diretamente ligada à autonomia. Durante muito tempo, a educação foi baseada em transmitir conhecimento. Hoje, com a inteligência artificial, conhecimento ficou muito mais acessível. O desafio mudou.
A nova pergunta é: o que você faz com esse conhecimento? Você consegue formular um problema relevante? Criar uma solução? Tomar decisões que realmente são suas?
Eu acredito que criar é uma forma de exercer autoria. Quando um estudante identifica um problema, desenvolve uma solução, testa uma hipótese e constrói algo que não existia antes, ele deixa de ser apenas consumidor de tecnologia e passa a desenvolver agência sobre o próprio futuro.
É por isso que a Edstation não usa IA para substituir a criatividade dos estudantes. Ela usa IA para ampliar a capacidade deles de criar.
3. Conte sobre o ecossistema de edtechs de Brasília
O ecossistema de edtechs de Brasília passou por uma transformação muito interessante nos últimos anos, e o Edtech Meetup acompanhou essa evolução desde o início. Em 2017, quando realizamos o primeiro encontro, conhecíamos cerca de dez edtechs. O objetivo inicial era simples: fazer com que esses empreendedores se conhecessem e deixassem de inovar de forma isolada.
Com o tempo, percebemos que conectar pessoas não era suficiente. Começamos a produzir conhecimento sobre o próprio ecossistema. Foi assim que surgiu o Censo das Edtechs de Brasília, que passou a mapear anualmente as empresas, seu estágio de desenvolvimento, seus modelos de negócio e a evolução do setor. Isso permitiu acompanhar não apenas o crescimento do número de edtechs, mas também o amadurecimento do ecossistema ao longo dos anos.
Hoje, o Censo já mapeou 100 edtechs da região. Mais importante do que esse número é termos construído uma memória do ecossistema. Conseguimos entender quais iniciativas surgiram, quais cresceram, quais foram descontinuadas e quais tendências passaram a moldar a inovação em educação no Distrito Federal. Poucos ecossistemas no Brasil têm esse tipo de acompanhamento contínuo.
Acho que essa é a principal contribuição do Edtech Meetup. Além de promover encontros, ele ajudou a transformar um conjunto de startups independentes em um ecossistema que compartilha conhecimento, acompanha sua própria evolução e cria mais oportunidades de colaboração entre empreendedores, escolas, universidades e outras instituições.
4. Como ter um grupo de empreendedores locais te ajudou na trajetória?
Ter um grupo de empreendedores locais me ajudou de várias formas ao longo da minha trajetória.
A primeira foi o aprendizado. Empreender em educação traz desafios muito específicos, desde vendas para escolas até desenvolvimento de produto, formação de equipes e captação de recursos. Poder trocar experiências com outros fundadores reduziu bastante o tempo de aprendizado. Muitas vezes, eu conseguia evitar erros porque alguém já havia enfrentado aquele desafio antes.
A comunidade também gerou oportunidades concretas. Surgiram parcerias, indicações de clientes, conexões com investidores e projetos conjuntos que dificilmente aconteceriam se cada empresa atuasse de forma isolada. Isso acelerou o crescimento de muitas iniciativas, inclusive da Edstation.
Outro aspecto importante foi a visibilidade. O Edtech Meetup ajudou a mostrar que existia um ecossistema de inovação em educação em Brasília. À medida que as empresas passaram a aparecer juntas, o interesse de escolas, organizações, investidores e da imprensa também aumentou. Isso fortaleceu não apenas uma startup, mas o ecossistema como um todo.
Essa visibilidade também trouxe credibilidade. Em vez de cada empreendedor defender sozinho a relevância do seu trabalho, passamos a representar um movimento maior. Isso abriu portas e tornou as conversas com instituições públicas, universidades, empresas e potenciais parceiros muito mais produtivas.
Por fim, o Edtech Meetup passou a exercer um papel de representação do ecossistema. Ao longo dos anos, conseguimos produzir dados, mapear tendências e consolidar uma visão sobre a inovação em educação no Distrito Federal. Isso permitiu levar demandas e oportunidades do setor para diferentes instituições de forma muito mais consistente do que qualquer empresa conseguiria individualmente.
No fim das contas, acho que esse é o maior valor de um ecossistema empreendedor. Ele reduz o custo de aprender, acelera oportunidades de crescimento e dá aos empreendedores uma voz coletiva para fortalecer todo o setor.
5. Tem alguma crença forte que você tinha durante sua trajetória que a experiência provou errada?
No início da minha trajetória, eu acreditava que a educação poderia ser transformada rapidamente se combinássemos boas tecnologias com formação de professores. Imaginava que, se a solução fosse boa e todos estivessem dispostos a adotá-la, a mudança aconteceria naturalmente.
A experiência me mostrou que a educação é muito mais complexa. Escolas têm responsabilidades que vão além da inovação. Elas precisam equilibrar aprendizagem, desenvolvimento humano, segurança, equidade e previsibilidade. Isso faz com que a adoção de novas tecnologias aconteça em um ritmo diferente do que vemos em outros setores.
Hoje, continuo acreditando no potencial transformador da tecnologia, especialmente da inteligência artificial, mas entendo que inovação em educação depende menos da tecnologia em si e mais da forma como ela é integrada ao desenvolvimento de crianças e adolescentes e à realidade das escolas.
Edtechs
Edstation
Programa extracurricular de empreendedorismo para adolescentes
A Edstation oferece um programa de 16 semanas em que estudantes de 12 a 17 anos constroem uma startup do zero. A jornada tem seis etapas: escolha de um problema ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, modelagem do negócio pelo método Duplo Diamante, criação de identidade visual, construção de um protótipo digital com apoio de inteligência artificial, treino de pitch e um Demo Day final diante da família e de uma banca de investidores.
O formato é online e ao vivo, com turmas de no máximo 12 estudantes e uma facilitadora única em todos os encontros, Nathalia Kelday, mestre por Harvard e ex-consultora do MEC, do BID e do Banco Mundial. Isso aproxima o modelo de uma mentoria intensiva e limita a escala por desenho.
A empresa declara 280 estudantes formados em 20 turmas, 12 escolas parceiras e atuação em 4 países.
Metamaker
Trilhas maker de marcenaria, robótica e cerâmica para escolas
A Metamaker leva para dentro da escola trilhas de aprendizagem mão na massa em eletrônica, robótica, marcenaria e cerâmica, com atividades centradas no fazer e na exploração científica. O discurso pedagógico coloca o erro como parte constitutiva do processo, não como desvio a ser corrigido, e trata as habilidades socioemocionais que emergem do trabalho em grupo como resultado esperado, não como efeito colateral.
A operação tem três frentes que se sustentam mutuamente: o programa Metamaker na Escola, uma loja de invenções voltada ao consumidor final e serviços B2B de prototipagem, design de produto, corte a laser e impressão 3D. A inclusão entra como parte do desenho e não como adaptação posterior: as aulas são construídas a partir do perfil de cada turma, e a empresa apresenta Fernando, seu tutor, como o primeiro professor de robótica cego do país.
Br.ino
Robótica educacional com linguagem de programação em português
A Br.ino foi criada em Brasília em 2017 a partir de um diagnóstico bem delimitado: a barreira do inglês trava o primeiro contato do aluno brasileiro com código. A resposta foi construir um ambiente de desenvolvimento compatível com Arduino inteiramente em português, com uma linguagem própria que traduz as palavras-chave do wiring para termos mais diretos no idioma. A plataforma permite programar em blocos ou em linhas de texto, em português ou em inglês, para que a transição entre algoritmos básicos e complexos aconteça sem ruptura.
Hoje a empresa opera em três frentes. Programas para escolas em turno regular, contraturno, comitês de inovação e oficinas; formação de professores em cursos de 40 e 60 horas; e venda de kits, incluindo a distribuição do robô Edison no Brasil. A trilha para os anos iniciais está pronta, enquanto os programas de anos finais e ensino médio seguem em desenvolvimento.
A carteira é concentrada na rede privada do Distrito Federal, com Marista, Eleva, Escola Americana de Brasília, Maple Bear e Escola Canadense entre as parceiras, e a sede fica no Biotic, no Parque Tecnológico de Brasília.
Ideia Space
Missões espaciais reais como programa da educação básica
Fundada em 2022 em Brasília, a Ideia Space se descreve simultaneamente como edtech e spacetech, e desenvolve metodologias práticas que conectam a educação básica a missões espaciais reais, capacitando estudantes e professores a projetar, construir e operar pequenos satélites. O produto central são jornadas em que alunos montam e operam PocketQubes. O ciclo pedagógico não termina na sala: termina com o equipamento em órbita.
Em novembro de 2025, a empresa lançou o primeiro satélite de sua constelação educacional em missão operada pela SpaceX a bordo de um Falcon 9, com equipamentos construídos por estudantes do Brasil, da Arábia Saudita e do Azerbaijão, viabilizados por parcerias com a Azercosmos e com a Agência Espacial Saudita. Em janeiro de 2026 veio o segundo lançamento, a partir do Centro Espacial Satish Dhawan, na Índia, com cinco satélites e a participação de 30 alunos da rede pública do Distrito Federal, que atuaram do desenho inicial aos testes finais.
O programa brasileiro roda sob coordenação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, com apoio institucional da Agência Espacial Brasileira e parcerias com universidades federais. A demanda, portanto, não vem da secretaria de educação, e sim da infraestrutura federal de ciência e tecnologia. E os satélites cumprem funções aplicadas depois do lançamento, como monitoramento ambiental, segurança marítima e coleta de dados para o agronegócio, o que faz o projeto escolar produzir um ativo de uso real em vez de um exercício simulado.
Lekto
Plataforma de desenvolvimento socioemocional integrada ao currículo
A Lekto é usada pelos professores para planejar trilhas socioemocionais, conduzir a prática em sala, produzir documentação pedagógica e avaliar os alunos de forma contínua. O ponto de partida é a metodologia que a empresa chama de duplo foco, em que toda aula proposta se relaciona a atividades já previstas no plano de ensino da escola, o que responde à objeção mais comum a programas socioemocionais no Brasil, a de que disputam carga horária com o currículo.
O fluxo é circular: a plataforma define as atividades e os agrupamentos de alunos, o professor aplica e registra em áudio, texto e foto os comportamentos observados, avalia cada estudante, e essa avaliação atualiza o histórico que influencia a escolha das atividades seguintes. As práticas mudam por etapa, indo de contextos provocativos inspirados em Reggio Emilia na educação infantil a projetos de intervenção no ensino médio, passando por estações de aprendizagem nos anos iniciais. Os dados agregados viram painéis de acompanhamento por competência. A empresa dispensa material impresso e usa isso como argumento de custo frente a soluções concorrentes.
Velo Edu
Inteligência de dados para gestão de instituições de ensino
A Velo se posiciona na camada de gestão da instituição de ensino, combinando big data e inteligência artificial para transformar dados operacionais em apoio à decisão. A empresa foi constituída em novembro de 2024, a mais recente das sete e opera numa vertical que, no Brasil, costuma ser ocupada por módulos de grandes sistemas de gestão em vez de produtos independentes.
Raleduc
Educação corporativa digital para empresas, faculdades e governo
A Raleduc atua desde 2001 em Brasília produzindo cursos online customizados e operando plataformas de aprendizagem para empresas, faculdades e órgãos públicos. O trabalho central é de transposição didática: pegar conteúdo técnico denso, frequentemente normativo, e convertê-lo em formato que sustente atenção. A produção inclui vídeo, animação 2D e 3D, HTML interativo, audiocast, e-book, locução e quizzes, empacotados em SCORM para rodar no LMS do cliente.
A empresa é representante oficial da Udemy para Empresas no Brasil e também oferece Coursera corporativo, além de instalar e hospedar ambientes Moodle. Isso combina catálogo global pronto com produção sob medida na mesma conta. Declara 9,2 mil horas de conteúdo entregues, 640 cursos produzidos e 192 organizações atendidas.
A carteira é dominada pelo setor público e por organismos internacionais: Ministério da Saúde em parceria com a Unesco, Unicef, Sebrae Nacional, Infraero, PNUD e Petrobras, Justiça do Trabalho, Banco Central, o que diz algo sobre o ecossistema local. A proximidade com a máquina federal define o tipo de edtech que Brasília produz, muitas vezes mais voltada à compra pública e à capacitação de servidores do que ao produto escolar.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










