Este artigo para o educador21 traz uma análise do seminário e mostra como edtechs, conectividade e inteligência artificial impulsionam a transformação digital na educação pública
*Bruno Chagas
No dia 24 de março de 2026, o portal Tele.Síntese promoveu o seminário “EdTechs e as Escolas Públicas 2026” no Auditório ASA da Telebras, localizado em Brasília. O encontro reuniu os principais gestores públicos, executivos de tecnologia e especialistas do setor educacional com o propósito de avaliar o progresso da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) e debater os desafios da inteligência artificial nas salas de aula.
Por meio de painéis técnicos e apresentações estratégicas, o evento buscou consolidar parcerias multissetoriais para superar obstáculos históricos de infraestrutura e garantir que a tecnologia seja um instrumento efetivo de aprendizado e inclusão social na rede pública.
Desafios logísticos e o avanço da conectividade nacional
O cenário educacional brasileiro em 2026 é pautado pela implementação obrigatória da BNCC Computação, exigindo que as escolas integrem a cultura digital de maneira transversal. Durante o seminário, diferentes entidades apresentaram o balanço das ações de infraestrutura que sustentam essa transição:
- Eace e o projeto Aprender Conectado: A organização já conectou mais de 20.500 escolas de uma meta de 40 mil, com foco em áreas rurais, quilombolas e ribeirinhas, utilizando 7 mil quilômetros de fibra óptica.
- Telebras: A estatal atua como integradora de soluções satelitais e terrestres, oferecendo conectividade por meio do SGDC e monitoramento de obras em regiões de difícil acesso.
- Anatel: A agência reguladora foca na conversão de sanções em obrigações de conectividade, destinando recursos para o ensino superior e técnico.
- MegaEdu: A entidade monitora as políticas públicas e defende o padrão de 1 Mbps por aluno para assegurar uma internet significativa nas escolas.
A execução dessas políticas na ponta do sistema enfrenta dificuldades severas. Luís Carlos de Carvalho, da Q13, e Flávio Ferreira dos Santos, da Eace, relataram operações complexas que envolvem o transporte de materiais por barcos e cavalos, além da instalação de 1,5 mil miniusinas fotovoltaicas em unidades sem energia elétrica estável. Outro ponto crítico destacado por Laerte Magalhães, da iuh!, é a necessidade de engajamento das diretorias escolares para que a infraestrutura instalada seja plenamente utilizada no cotidiano pedagógico.
A escola pós-conectada: o papel da inteligência artificial e dos docentes
O debate do segundo painel, intitulado “Escola Pós-Conectada: o uso da tecnologia pelos alunos”, mudou o foco do acesso físico para o resultado educacional. Cristieni Castilhos, CEO da MegaEdu, argumentou que o ensino de tecnologia deve priorizar o raciocínio analítico e o pensamento crítico em vez de apenas treinamentos técnicos específicos. Participaram também desta discussão Graziela Castello (Home ), Maria Rehder (Unesco-Brasil), Rafael Lunes (Skeelo) e Thamyris Alonso (Vero), sob a moderação de Anibal Diniz.
A inovação prática foi representada pela parceria entre Qualcomm e Arduino, apresentada por Jason Strickland. A placa Uno Q, equipada com o processador Qualcomm QRB2210 e sistema Debian 12 Linux, foi destacada por permitir o processamento de IA local (Edge AI). Essa tecnologia possibilita que os estudantes desenvolvam e rodem modelos de inteligência artificial no próprio dispositivo, sem depender de uma conexão constante com a nuvem, o que resolve parte dos problemas de infraestrutura em regiões remotas.
Startups e a modernização da gestão escolar
O terceiro painel do dia abordou como as edtechs estão transformando o ecossistema brasileiro ao atacar problemas concretos das instituições. Danilo Yoneshige, da Layers Education, explicou como o uso de super apps pode integrar diferentes soluções e reduzir a fragmentação tecnológica que hoje atinge milhares de escolas públicas.
O debate, que contou com as contribuições de Leo Gmeiner (School Guardian), Luiz Eduardo Leão (SENAI) e Vinicius Arakaki (Edusense), ressaltou que as startups trazem uma agilidade necessária para a personalização do ensino e para a melhoria da logística escolar. Luiz Eduardo Leão enfatizou o uso de realidade virtual e simuladores industriais pelo SENAI como forma de democratizar o ensino profissionalizante.
O papel central do fator humano: a análise da Mind Lab
O Painel 4, focado nas perspectivas para o futuro da educação e da inteligência artificial, contou com a participação fundamental de Thiago Zola, Diretor de Educação da Mind Lab. Em sua contribuição ao evento, Zola trouxe uma análise profunda sobre o abismo existente entre o uso espontâneo da tecnologia e a orientação pedagógica qualificada.
De acordo com os dados apresentados pela Mind Lab, embora 70% dos alunos de ensino médio já utilizem ferramentas de inteligência artificial em suas rotinas privadas, apenas 32% receberam algum tipo de orientação institucional. Thiago Zola alertou que apenas 19% desses jovens foram orientados diretamente por seus professores, o que indica uma lacuna crítica na formação docente.
Para a Mind Lab, a inteligência artificial só promoverá mudanças reais no sistema público se for implementada em escala e acompanhada por processos de gestão que reduzam a sobrecarga dos professores, permitindo que o foco retorne ao desenvolvimento de competências socioemocionais e ao protagonismo humano.
O painel também reuniu as visões de Bruno Miranda (Ibmec), Israel Matos Batista (CNE), Marcos Vinícius (Teachy), Maria Rehder (Unesco) e Rozana Reigota Naves (UnB), que debateram a ética e os novos marcos regulatórios necessários para proteger os dados educacionais.
Expansão da conectividade no ensino superior público
O encerramento do encontro trouxe detalhes sobre a ampliação da rede para o ensino superior. O conselheiro da Anatel, Octavio Penna Pieranti, detalhou um mapeamento que identificou 203 unidades universitárias, incluindo campi, hospitais universitários e laboratórios de pesquisa, que ainda carecem de conexão de alta velocidade à Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).
Para resolver essa demanda, a Anatel aplicou sanções que somam R$ 29 milhões a operadoras como Claro, Vivo, TIM e Algar. Essas multas foram convertidas em obrigações de instalação de circuitos de até 1 Gbps nestas localidades, com prazos de execução que variam de seis meses a um ano, dependendo da necessidade de construção de novas infraestruturas de fibra óptica. Essa estratégia regulatória visa garantir que o ensino superior e a produção científica nacional não fiquem à margem da transformação digital em curso nas escolas de ensino básico.
* Bruno Chagas é jornalista da Mind Lab










