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Levantamento da ABStartups mostra um ecossistema mais maduro, mas especialistas apontam que o avanço dependerá de soluções alinhadas aos desafios reais das instituições de ensino

O mercado brasileiro de edtechs amadureceu, mas ainda enfrenta um desafio central: transformar tecnologia em solução capaz de responder aos problemas concretos das escolas. O avanço do setor trouxe mais empresas consolidadas, modelos de negócio sustentáveis e maior presença corporativa. Mas também revelou que o distanciamento entre parte das soluções disponíveis e as demandas de quem está na ponta ainda persiste.

O diagnóstico aparece no estudo inédito “O Perfil das Edtechs Brasileiras”, realizado pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups) em parceria com o Núcleo de Política e Gestão Tecnológica da Universidade de São Paulo (PGT USP). O levantamento, divulgado no crepúsculo de julho, analisou 368 empresas. Pela análise, 66% das edtechs nunca receberam investimento externo, enquanto 44,6% já operam há mais de cinco anos.

Para especialistas ouvidos pelo educador21, esses dados indicam um setor mais resiliente, mas que precisa avançar em maturidade de produto, integração tecnológica e compreensão da realidade escolar. A questão deixou de ser apenas criar novas ferramentas digitais e passou a envolver a capacidade de entregar valor dentro dos processos pedagógicos e administrativos das instituições.

Cláudia Schulz, CEO da ABStartups, afirmou que o ecossistema desenvolveu modelos mais sustentáveis, mas agora precisa superar uma nova etapa. “Muitas empresas validaram seus produtos e encontraram um mercado, mas agora precisam dar o próximo passo: escalar”, avaliou a especialista.

A análise reúne diferentes perspectivas sobre o futuro das edtechs brasileiras. Para gestores escolares, o cenário traz uma reflexão sobre como escolher tecnologias com maior capacidade de gerar impacto. Para desenvolvedores de soluções tecnológicas, revela que a próxima fase do mercado dependerá menos de novas funcionalidades e mais de soluções alinhadas às necessidades reais da educação.

Edtechs avançam, mas precisam resolver problemas reais das escolas

O estudo mostra que o setor deixou para trás uma fase marcada apenas pelo surgimento de novas startups. Segundo Danilo Yoneshige, CEO da Layers e integrante do Comitê de Edtechs da ABStartups, o principal sinal de maturidade está na concentração das empresas em fases de operação, tração e escala.

“Há poucos anos discutíamos quantas startups surgiam e, hoje, faz mais sentido perguntar quais delas conseguiram construir negócios sustentáveis”, afirmou Danilo. Para ele, a maturidade do ecossistema também aparece na mudança de lógica dos produtos: as empresas começam a substituir ferramentas isoladas por ambientes conectados.

Essa transformação dialoga diretamente com uma das principais dores das escolas: a dificuldade de administrar diferentes plataformas que não conversam entre si. O modelo SaaS continua predominante, mas o crescimento de marketplaces e soluções integradas indica uma busca por experiências digitais mais completas.

Na visão de Christian Pensa, diretor executivo da Criabiz Ventures e investidor em startups, o mercado já apresenta características mais previsíveis para investimento. “O estudo mostra um mercado que deixou de ser predominantemente experimental e entrou em uma fase de amadurecimento”, afirmou Pensa, que é um dos coautores da Coluna InvestEdu, no educador21.

Apesar dos avanços, o acesso a capital ainda limita a expansão de parte das empresas. O levantamento aponta que dois terços das empresas nunca receberam capital externo, cenário que limita a velocidade de expansão de soluções que poderiam alcançar mais instituições de ensino.

A escola ainda é o maior teste para as tecnologias educacionais

O crescimento das edtechs depende de compreender uma característica específica da educação: escolas não compram tecnologia como outros mercados. O ciclo de decisão envolve calendário acadêmico, orçamento, confiança e demonstração de impacto.

Leo Gmeiner, fundador da School Guardian e empreendedor do setor educacional há mais de 13 anos, define essa dinâmica como B2S (Business to School), e não apenas B2B. “Escola decide com calendário letivo, com orçamento público, com confiança que é construída ano após ano”, explicou o especialista, que é um dos titulares da Coluna InvestEdu.

Para Gmeiner, muitas empresas não fracassam por falta de produto, mas por não estruturarem modelos de negócio compatíveis com a realidade educacional. A dificuldade está em alinhar expectativa de crescimento rápido com um mercado que exige relacionamento de longo prazo.

Para Mario Eugenio S. Onofre, gestor educacional e especialista em inovação escolar, o estudo reflete uma realidade conhecida pelas instituições. “O setor cresceu, mas ainda é fragmentado”, afirmou o terceiro coartor da Coluna InvestEdu. Na prática, escolas encontram soluções promissoras, porém nem sempre consolidadas ou capazes de acompanhar suas necessidades.

Edtechs ainda enfrentam barreiras para chegar à rede pública

A dificuldade de conexão entre tecnologia e escola aparece com ainda mais força quando o foco está na rede pública. Embora concentre a maior parte dos estudantes brasileiros da educação básica, esse segmento ainda recebe poucas soluções desenvolvidas pelas edtechs.

Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann e autor da coluna Tecnologia que Humaniza do educador21, destacou que cerca de 80% dos alunos brasileiros estão na rede pública, mas apenas 4% das edtechs conseguem alcançar esse mercado.

“Esse fator mostra que o ecossistema de inovação, principalmente onde mais se precisa, ainda é pouco desenvolvido”, afirmou Cintra. Para ele, a dificuldade envolve não apenas a criação das soluções, mas também barreiras estruturais como conectividade, equipamentos, sistemas de gestão e processos de compras públicas.

Segundo o especialista, muitas empresas permanecem pequenas mesmo após anos de atuação porque encontram dificuldades para transformar seus produtos em soluções escaláveis. “Você tem uma grande maioria de empresas que são bastante pequenas, estão no início de trajetória, pelo menos do ponto de vista de maturidade, mesmo quando elas têm uma trajetória mais longeva”, explicou.

O cenário indica uma nova etapa para o ecossistema. Para Cláudia Schulz, CEO da ABStartups, o avanço das edtechs brasileiras dependerá da capacidade de ampliar mercados, fortalecer parcerias públicas e privadas, acelerar a adoção de tecnologias como inteligência artificial e criar condições para internacionalização.

O desafio das edtechs deixou de ser apenas desenvolver novas ferramentas digitais. O mercado agora exige soluções capazes de compreender a escola, integrar processos e entregar resultados concretos para gestores, professores e estudantes.

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