Aproveitando que estou na China, trago aqui uma análise sobre as Edtechs locais!
Minha busca veio ao encontrar uma lista recente da Time Magazine com as mais relevantes EdTechs do mundo: 8 das 10 eram chinesas.
Isso me chamou atenção. Desde 2021, quando o governo chinês interveio com força no setor, achei que aquelas empresas tinham desaparecido. Fui investigar.
Entre 2015 e 2020, a China viveu um boom impressionante em EdTech. A pressão por desempenho escolar, os bilhões em capital de risco e as políticas de digitalização impulsionaram unicórnios como Yuanfudao, VIPKid e Zuoyebang. A pandemia só reforçou a centralidade do digital na educação.
Mas em 2021 veio o baque: a política “Double Reduction” proibiu lucro em empresas de educação básica, bloqueou IPOs e capital estrangeiro, e restringiu publicidade e expansão. A motivação oficial incluía aliviar o estresse estudantil, conter custos familiares, proteger os valores nacionais chineses e reafirmar o controle do Estado sobre a formação educacional.
O impacto foi brutal. Startups fecharam, empresas perderam mais de 90% de valor de mercado, e milhares de pessoas foram demitidas.
Ainda assim, o setor não desapareceu. Ele se adaptou.
Com a queda de receita, inovar virou imperativo. A inteligência artificial passou a ser chave para escalar com qualidade e eficiência. Modelos abertos como os da DeepSeek passaram a integrar produtos, personalizando o aprendizado e reduzindo custos.
Essa capacidade renovação e reconstrução chinesa é algo que tenho visto aqui recorrentemente.
Trago então alguns dados interessantes do setor e exemplos de edtechs que passaram pelo desafio de se ressignificar.
Três fases do investimento em EdTechs na China
Entre 2015 e 2020 – Ascensão
- A China chegou a receber mais de 60% do capital global do setor.
- Em 2020, tinha 8 dos 20 unicórnios de EdTech.
2021 – Queda
- Com a regulação, o capital secou.
2022 em diante – Resiliência
- Não há mais nenhum unicórnio chinês.
- As empresas precisaram readaptar seus modelos de negócio.
O impressionante é que, apesar de tudo isso, a China segue sendo o país que mais recebeu capital em EdTech desde 2010.
Edtechs
Aixuexi
Software para gestão de aprendizagem
A companhia focava em tutoria escolar via educação adaptativa com IA para o ensino básico. Os impactos foram menores, pois a transição de parte da operação para o ensino superior e profissionalizante foi mais simples. A empresa também passou a vender soluções B2B com IA para outros provedores.
Oferece uma “nuvem de gerenciamento escolar”, que reúne softwares de aprendizagem para alunos, ferramentas para professores prepararem aulas e gerenciarem dados de aprendizagem, além de soluções para a gestão de campi educacionais.
Hoje alcança 20 mil instituições e 25 milhões de alunos em toda a China.
Codemao
Ensino de programação para crianças e adolescentes
A empresa já atuava fora do mercado regulado, de maneira que o impacto foi menor. Seu foco é o ensino de programação para crianças e adolescentes. Nos últimos anos, tem expandido internacionalmente e integrado mais IA ao processo.
Atua por meio de centros de ensino de programação, cursos online, parcerias com escolas e venda de ferramentas e recursos para o ensino da disciplina.
Tem 600 centros físicos próprios e parceria com 17 mil escolas ao redor do país.
Gaotu Techedu
Ensino de idiomas e educação profissional
Mais uma empresa que era focada em tutoria para o ensino básico e teve que pivotar. Embora ainda mantenha essa frente, a maior parte da operação migrou para treinamentos profissionais e ensino de idiomas B2C.
A receita havia caído para quase um terço entre 2020 e 2022, quando voltou a subir. No último ano citado no material, as receitas cresceram 54%, mas ainda não haviam retornado ao patamar anterior.
Meishubao
Ensino de pintura online
Atuando em um setor não regulamentado, foi pouco impactada. É uma empresa especializada em ensinar pintura online.
Tem aulas ao vivo e assistidas por IA, incluindo avaliações e planos de aprendizagem personalizados. Analisa elementos técnicos como proporção, perspectiva, traçado e uso de cores. A partir daí, os professores podem se concentrar em aspectos mais subjetivos e em discussões criativas.
São 5 milhões de usuários registrados ao redor do mundo e 200 mil professores cadastrados. Em nove rodadas de investimento, já captou US$ 375 milhões.
New Oriental
Ensino de idiomas para adultos e e-commerce agrícola
A companhia foi tão afetada que perdeu 90% de seu valor de mercado, dada sua atuação em reforço escolar.
Pivotou fortemente e ganhou espaço no e-commerce agrícola. Professores de inglês passaram a atuar como apresentadores de live commerce de produtos agrícolas, uma indústria estimulada pelo governo chinês. As transmissões mantêm um estilo didático e acontecem em redes sociais.
Essa vertical passou a representar 20% da receita da companhia, de pouco mais de US$ 4 bilhões, enquanto o restante seguia majoritariamente ligado ao ensino de idiomas B2C.
É uma forma curiosa de reaproveitar competências herdadas do negócio-base que sofreu o impacto regulatório.
TAL Education Group
Hardwares, plataformas adaptativas e soluções com IA
A TAL Education Group era um gigante do reforço escolar para a educação básica, precisamente a área proibida pela política de Dupla Redução.
A empresa reorientou sua operação para mercados menos regulados, como educação de adultos, e mais recentemente passou a desenvolver hardwares que incorporam modelos de IA da DeepSeek e um modelo próprio chamado MathGPT.
VIPKid
Ensino de inglês conectando estudantes a professores nativos norte-americanos
A companhia foi proibida pelo governo de operar com professores estrangeiros. Seu modelo conectava professores norte-americanos a alunos chineses, um diferencial relevante em um país onde quase 300 mil alunos vão estudar nos Estados Unidos por ano.
Antes do impacto regulatório, havia captado mais de US$ 1 bilhão e atendia 800 mil alunos. A receita caiu de US$ 1,5 bilhão para cerca de US$ 200 milhões, e o número de alunos recuou para 150 mil.
Com isso, passou a oferecer seus serviços majoritariamente para adultos e estudantes fora da China. Também ampliou ofertas assíncronas, como aulas gravadas e ensino personalizado por IA.
Youdao
Hardwares e softwares educacionais e cursos para profissionais
Nascida como um dicionário online em 2006, foi uma edtech chinesa pioneira na abertura de capital, em 2019.
Atuava com cursos online pagos de preparação para exames, idiomas e tutoria curricular para o ensino básico, além de desenvolver hardwares educacionais e serviços derivados de seu passado como dicionário online. Após crescimento exponencial entre 2018 e 2020, viu o número de alunos cair de 4,5 milhões para 2 milhões em menos de dois anos.
A receita, que era mais de 50% composta por cursos para o ensino básico, caiu depois que US$ 250 milhões evaporaram e se estabilizou em patamares 20% menores. A companhia compensou parte da perda com foco em cursos para adultos e maior venda de hardwares.
Esses produtos incluem caneta com tradução instantânea, tablet educacional com IA embarcada, dispositivos para treinamento de compreensão auditiva e pronúncia e até uma luminária inteligente para estudantes.
Yuanfudao
Hardwares educacionais, softwares para ensino infantil e ensino vocacional
Fundada em 2012 com forte foco em tutorias para o ensino básico, em 2020 tinha 400 milhões de usuários registrados e era a edtech mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 15,5 bilhões após captar US$ 2,2 bilhões.
A receita caiu 80%, de US$ 4 bilhões para US$ 800 milhões, e 20 mil funcionários foram demitidos, o equivalente a 40% da força de trabalho.
A empresa mudou o foco para dispositivos educacionais inteligentes, como tablets e canetas de tradução simultânea. Também lançou o Zebra AI Class, software para crianças em idade pré-escolar com atividades interativas de desenvolvimento cognitivo, além de produtos para ensino vocacional.
Zuoyebang
Hardwares e móveis educacionais inteligentes
Fundada em 2015 e focada em tutorias para o ensino básico, chegou a atender 170 milhões de estudantes e captar quase US$ 3 bilhões.
Como tantas outras, enfrentou drástica redução de receita, demitiu quase metade dos funcionários e precisou modificar suas ofertas de produtos e serviços.
Passou a focar também em hardware com IA, como mesas, canetas e relógios voltados ao estudo. Alguns desses móveis inteligentes incluem correção de postura e avisos para prevenção de miopia, sintomas de uma cultura de estudos que pode ser considerada exagerada.
Também lançou aplicativos e conteúdos educacionais e diversificou os modelos de negócio com assinaturas premium e publicidade em aplicativos.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










