Na coluna Educação Global, Lara Crivelaro analisa como a internacionalização amplia repertórios e ressignifica o papel da escola diante da inteligência artificial
O avanço acelerado das tecnologias digitais, em especial dos sistemas baseados em Inteligência Artificial, produziu um duplo movimento no campo educacional. De um lado, entusiasmo, promessas de personalização da aprendizagem, automação de processos e ampliação de acesso. De outro, inquietação, resistências e um sentimento difuso de ameaça ao papel histórico da escola e do professor. Entre narrativas utópicas e distópicas, instala-se uma tensão que precisa ser analisada com maior serenidade conceitual.
A presença da IA na educação não é uma hipótese futura; é uma realidade instalada. Ferramentas generativas, sistemas adaptativos, assistentes de escrita, plataformas de avaliação automatizada e ambientes de aprendizagem mediados por algoritmos já atravessam o cotidiano escolar. O desafio contemporâneo, portanto, não reside em aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas em compreender como reorganizar a experiência educativa de forma pedagogicamente consistente e humanamente sustentável.
É nesse contexto que a educação internacional se define como uma via complementar e estratégica de reorganização.
A incorporação de perspectivas internacionais à educação básica costuma ser interpretada de maneira restrita, frequentemente associada apenas ao ensino de idiomas ou à oferta de certificações estrangeiras. Essa leitura, embora comum, reduz o alcance epistemológico e formativo da proposta. A educação internacional, em sua concepção mais ampla, envolve a integração de múltiplas referências culturais, linguísticas e acadêmicas, promovendo o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais alinhadas a um mundo interdependente, complexo e tecnologicamente mediado.
Segundo a UNESCO, a Educação para a Cidadania Global (Global Citizenship Education – GCED) busca preparar estudantes para compreender e atuar em contextos marcados pela diversidade, pela interconectividade e por desafios transnacionais (UNESCO, 2015). Trata-se de uma abordagem que desloca o foco da mera acumulação de conteúdos para a formação de capacidades analíticas, éticas e interculturais. A OECD, ao discutir o Learning Compass 2030, reforça essa direção ao enfatizar a necessidade de desenvolver pensamento crítico, agência estudantil, resolução de problemas complexos e competência global (OECD, 2019).
Esses referenciais dialogam diretamente com as demandas emergentes da era da IA.
O crescimento exponencial da automação cognitiva reconfigura o valor relativo de determinadas habilidades. Se máquinas passam a executar com eficiência tarefas
repetitivas, cálculos massivos, buscas informacionais e até produções textuais estruturadas, torna-se ainda mais relevante aquilo que permanece distintivamente humano: julgamento crítico, interpretação contextual, criatividade, argumentação complexa, empatia e capacidade de operar em ambientes de ambiguidade.
A educação internacional contribui de maneira singular para essa formação ampliada. Ao integrar múltiplas perspectivas culturais e epistemológicas, amplia-se o repertório cognitivo dos estudantes. O contato com diferentes sistemas educacionais, narrativas históricas, abordagens científicas e formas de organização social promove aquilo que a literatura denomina “flexibilidade cognitiva” — a capacidade de analisar problemas sob ângulos diversos, questionar pressupostos e construir sínteses mais sofisticadas.
Nesse sentido, o valor da internacionalização não reside apenas na fluência linguística instrumental, mas na construção de uma inteligência híbrida culturalmente situada.
A discussão sobre IA frequentemente desperta receios entre professores, muitas vezes associados à ideia de substituição. Esse temor, embora compreensível, tende a emergir de uma concepção limitada do papel docente, historicamente vinculada à transmissão de conteúdo. Quando o professor é percebido como principal fonte de informação, qualquer tecnologia capaz de gerar respostas rápidas parece ameaçadora.
Entretanto, quando se reconhece o professor como mediador cognitivo, arquiteto de experiências intelectuais e agente de formação cultural, a tecnologia assume outra posição: deixa de ser concorrente e passa a ser infraestrutura.
A educação internacional reforça essa redefinição ao demandar práticas pedagógicas centradas em debate, investigação, projetos interdisciplinares, análise de contextos globais e construção colaborativa de conhecimento. Nessas dinâmicas, a IA pode atuar como ferramenta de apoio — ampliando acesso a dados, simulando cenários, oferecendo feedback imediato — enquanto o professor conduz a interpretação crítica, a contextualização ética e a mediação das interações humanas.
O foco desloca-se da substituição para a amplificação.
Há ainda uma dimensão subjetiva relevante. O excesso de tecnologia, quando incorporado sem intencionalidade pedagógica clara, tende a intensificar superficialidades cognitivas, dispersão atencional e dependência instrumental. Estudos contemporâneos alertam para a necessidade de equilibrar o uso de recursos digitais com experiências que promovam reflexão profunda, interação social significativa e construção de sentido (Carr, 2010; Turkle, 2015).
Nesse ponto, a educação internacional oferece um contrapeso qualitativo. Ao priorizar diálogo intercultural, análise crítica de problemas globais, comunicação complexa e projetos colaborativos, reforça práticas que exigem presença cognitiva, escuta ativa, argumentação e negociação de significados. Trata-se de uma pedagogia que demanda engajamento intelectual e relacional, reduzindo o risco de uma aprendizagem fragmentada e tecnicista.
A internacionalização, portanto, não intensifica o tecnocentrismo; pode humanizar a relação com a tecnologia.
Outro aspecto frequentemente negligenciado refere-se à narrativa institucional. Em um cenário educacional altamente competitivo, muitas escolas ainda comunicam diferenciais tecnológicos como principal argumento de valor. Laboratórios digitais, plataformas, dispositivos e soluções baseadas em IA ocupam posição central no discurso mercadológico. Embora relevantes, tais elementos tendem a envelhecer rapidamente diante da velocidade das inovações.
A educação internacional permite uma inflexão estratégica. A escola deixa de “vender tecnologia” ou “vender idioma” e passa a comunicar formação de repertório cognitivo global, desenvolvimento de pensamento crítico, competências interculturais e capacidades analíticas avançadas. Trata-se de um posicionamento menos vulnerável a modismos tecnológicos e mais alinhado às transformações estruturais do mundo do trabalho e da vida social.
Forma-se não apenas o usuário de ferramentas, mas o intérprete de contextos.
A IA amplia o acesso à informação, mas não garante discernimento. Oferece respostas, mas não assegura compreensão crítica. Produz textos, mas não substitui a experiência humana de diálogo, conflito cognitivo e construção coletiva de significado. Nesse cenário, a escola enfrenta uma oportunidade histórica: reposicionar-se como espaço de desenvolvimento de capacidades que transcendem o domínio técnico.
A educação internacional, quando integrada de maneira consistente ao projeto pedagógico, contribui diretamente para esse movimento. Ao articular diversidade cultural, pluralidade epistemológica e comunicação multilíngue, fortalece competências cuja relevância se intensifica em um mundo mediado por algoritmos: pensamento crítico, argumentação, resolução de problemas complexos, empatia intercultural e ética global.
Não se trata de um adereço curricular, mas de uma reorganização formativa.
A questão central, portanto, não é como proteger a escola da IA, mas como evitar que a educação se reduza a uma experiência tecnicista, instrumental e cognitivamente empobrecida. A tecnologia continuará a avançar. A resposta educacional precisa avançar também — não em oposição, mas em integração crítica.
Nesse percurso, a educação internacional apresenta-se menos como tendência e mais como resposta estrutural à necessidade de formar sujeitos capazes de interpretar, questionar e atuar em uma realidade global, digital e complexa.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










