As autoras, cofundadoras da Associação Movimento Futuro, mostram por que compreender as emoções é essencial para fortalecer a aprendizagem e as relações em sala de aula
Sofia Carvalho_ e Isabella Alchorne*_
Sentimentos e emoções são partes importantes de todo ser humano e, por isso, eles também fazem parte do cotidiano da escola. Vale pensar na seguinte situação: quando se está diante de uma comida que tem um cheiro não muito agradável para si, automaticamente, ela é deixada de lado. Esta é uma ação do corpo que está agindo de uma maneira imediata para evitar algo que não seja vantajoso para ele mesmo – garantindo, assim, a sobrevivência. Assim, também, são as emoções. Elas derivam de estímulos, que podem tanto ser externos, quanto de conteúdos mentais.
Ainda assim, as emoções primárias não dão conta de todas as respostas que se precisa ter à medida em que se vai desenvolvendo e crescendo. Por isso, ao longo do desenvolvimento humano, tem-se mecanismos de emoções secundárias, que são mais complexas que as primárias. Sabendo, então, que as emoções são inconscientes, dando-se abaixo da linha da percepção, os sentimentos ocorrem quando se toma consciência de todas estas reações. Em outras palavras, pode-se dizer que os sentimentos são as percepções conscientes das emoções. Diante de tudo isso, pode-se sumarizar que: primeiro o corpo humano tem emoções, que se dão de uma maneira inconsciente (há inclusive emoções que podem permanecer para sempre ocultas); e, depois, sentimentos, que são conscientes.
A importância de compreender estas distinções é entender que as emoções geram comportamentos, justamente por serem automáticas e fisiológicas. Enquanto que os sentimentos são mais complexos, envolvendo, inclusive, memórias e percepções que se tem de si mesmo. Nesse contexto, para a escola e a sala de aula, a importância de se compreender tais diferenças reside justamente no fato de elas serem o que compõe o sistema afetivo, tão importante para o aprendizado. Mas, apesar da relevância para o sistema escolar, infelizmente, elas são, muitas vezes, negligenciadas dentro da sala de aula, por se entender que não fazem parte daquele contexto, onde é privilegiado, sobretudo, o conhecimento – ligado à razão. Ou seja, equivocadamente, se entende que razão e emoção podem ser separadas, mesmo que ambas ocorram no mesmo lugar: o cérebro humano.
Nesse cenário, António Damásio, em seu livro “O Erro de Descartes”, afirma que são as emoções que nos tornam únicos e é o comportamento emocional que nos diferencia. Assim, o erro de Descartes foi separar a razão da emoção (mente e corpo), pois são as emoções que permitem ao sujeito identificar situações que ocorrem dentro do contexto que permitem que nos adaptemos. São as emoções que nos impactam na nossa relação com o meio e determinam mudanças de novo comportamento à medida que vamos aprendendo a ler o contexto que nos cerca. O que acontece no cérebro são operações mentais que influenciam o corpo e vice-versa.
Ao entrar pela porta da sala de aula, os estudantes e os professores levam consigo toda a sua bagagem. Não é possível deixar a raiva ou a tristeza do lado de fora. Elas também participam da aula porque, como já referido, são biológicas. O que precisamos aprender enquanto educadores é como lidar com as emoções, seja as nossas, ou as dos estudantes. Não é possível que a escola ignore as emoções e os sentimentos. Não se pode pedir que se deixe tudo isso “do lado de fora”, nem mesmo que o professor se dispa das suas emoções e dos seus sentimentos. O que o professor pode, e deve fazer, é racionalizar para compreender e, assim, auxiliar os estudantes no seu desenvolvimento.
Isto significa que a realidade pode ser mudada pelo que estamos sentindo, pois o convívio escolar é marcado por situações agradáveis e desagradáveis. Isso também vale para o professor, que, ao tomar consciência de como a sua relação com certo estudante foi atravessada por certa circunstância anterior, pode refletir como trabalhar o vínculo professor-estudante. Entende-se, nesta colocação, que somos influenciados pelo meio, ou seja, se a sala de aula estiver com um “clima” de alegria isso é contagioso mesmo para alguém que não esteja se sentindo alegre, e vice-versa: um professor que chega triste na sala de aula pode contagiar a turma.
O professor transmite sensação de segurança aos estudantes, que pode se dar oralmente ou através da linguagem corporal, que também auxiliam o estudante no seu processo de aprendizagem. A dimensão afetiva não pode ser ignorada nem desvalorizada na construção do conhecimento escolar, pois ela viabiliza e integra a construção do sujeito e os bloqueios emocionais influenciam as aprendizagens e atividades. Uma educação que tenha como objetivo o desenvolvimento integral do ser humano inclui emoções e sentimentos. Por isso, há necessidade de se desenvolver nos estudantes e professores a espontaneidade de se falar sobre as emoções e sentimentos vividos por eles mesmos, e entre si, pois somente ter consciência das expressões emocionais influenciadoras da realidade escolar e não tratar delas convenientemente, não é suficiente para a superação das dificuldades afetivas existentes em sala de aula.
Existe uma influência emocional na escola que interfere nas aprendizagens. A alegria e o amor têm grande valor na relação professor-estudante. Estudos mostram que a alegria e o amor expressos pelo professor são as que mais influenciam positivamente o desempenho escolar, o que se pode atribuir ao entusiasmo e dinamismo que acompanham esta emoção/sentimento, que se reflete no processo ensino-aprendizagem.
_*Cofundadoras da _Associação Movimento Futuro










