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O mundo editorial educacional é surpreendentemente distante do mundo digital em muitas partes do mundo. No fim, um material didático nada mais é do que uma forma de sistematizar, organizar e entregar conteúdos.

A digitalização de conteúdos permite que haja formas distintas de lidar com as informações contidas nessas páginas: aplicativos próprios educacionais, trilhas personalizadas, o uso de plataformas presente no cotidiano da comunidade escolar como whatsapp…

As possibilidades são inúmeras. O uso indiscriminado de telas entretanto, tem transformado uma discussão fundamental em um “fla x flu” raso: deveríamos ter ou não telas no processo educacional?

No Edtech da Semana de hoje, conversamos com Ana Lígia, CEO da Associação Nova Escola.

Em 40 anos de história, essa organização já foi uma revista privada, passou a ser organização de terceiro setor, evoluiu para um site e atualmente sua nova metamorfose é em entregar conteúdos curados adaptados localmente via Whatsapp.

Uma verdadeira camaleoa, como a própria executiva descreve.

Vamos ver ainda casos como a da Encyclopædia Britannica, que com 250 anos, passou por inúmeras mudanças e hoje trabalha fundamentalmente com software educacional movido a IA e organizações atuando em países como a Nigéria e Índia.

Vamos mergulhar nessa discussão e salve e compartilhe para que chegue mais longe!

. Conte sobre sua trajetória até se tornar CEO da Associação Nova Escola

Eu era jornalista, trabalhei em veículos de imprensa, assessoria e entrei no Terceiro Setor pela Fundação SOS Mata Atlântica. Foi lá que aprendi como este mundo opera, com responsabilidade e foco no impacto. Cheguei na Nova Escola há 15 anos, como editora da revista impressa. Foi um reencontro com a rotina dos professores, que eu acompanhei de perto com a minha mãe, que foi alfabetizadora na rede pública.

Ela era leitora assídua da Nova Escola e devorava as ideias que a revista trazia mensalmente. O impacto foi tão forte que fui até estudar Pedagogia e cheguei a dar aulas na EJA, paralelamente ao trabalho aqui.  Depois de editora da revista, passei a editora do site da Nova Escola. Me tornei mãe do Francisco e, após a licença, fui convidada a fazer a transição para a área pedagógica da organização, que estava nascendo.

A partir daí, fui evoluindo para a liderança: Gerente Pedagógica, Diretora de Produtos Educacionais e CEO interina, antes de me tornar CEO, no final de 2022. Não sei como é chegar em uma organização sendo CEO, mas sei que faz muito sentido liderar uma organização tendo passado por várias áreas dela e tendo ajudado a construir o que ela é hoje.

. A ANE passou por várias fases nesses 40 anos de história: revista, portal agora vive no whatsapp. Conte sobre essa trajetória e o que trouxe as mudanças

A Nova Escola nasceu em 1986 e já teve muitos formatos, mas sempre mantendo a missão de apoiar os professores das escolas públicas brasileiras. Eu costumo dizer que ela é uma camaleoa, porque ela vai identificando mudanças nos comportamentos dos docentes e se adequando a eles, para garantir que siga os apoiando, dentro da rotina deles.

O que traz as mudanças são os professores. Ainda na época da revista impressa, testemunhei a chegada dos tablets (e criamos a versão digital) e das redes sociais (e criamos uma para os professores).

Desde 2017, começamos a explorar o desenvolvimento de produtos digitais. Seguindo a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), produzimos 6 mil planos de aula, com 600 professores do Brasil todo. Um ano depois, esta área já tinha 1 milhão de visitas por mês no nosso site. Os planos foram essenciais durante a pandemia, com sugestões de como adaptá-los para o contexto remoto. E são a base do que estamos fazendo hioje, com IA Generativa, no WhatsApp.

Em 2019, a circulação da revista tinha caído, por que os hábitos de leitura mudaram, e passamos a focar no digital. Também passamos pela formação de professores e a produção de livros didáticos. Todas essas fases geraram conhecimento e acervo para o que estamos fazendo agora.

Hoje, o site segue oferecendo reportagens, planos de aula e cursos online. Ele é a nossa biblioteca. Mas o professor também merece ter apoio para gerar conteúdos personalizados para ele e para cada turna com quem ele trabalha. Então, lançamos, no ano passado, nossas soluções no WhatsApp, por que este é o lugar em que eles já estão. A versão nacional já foi usada por mais de 200 mil professores e a versão local alcançará mais de 10 territórios nos próximos meses. Estamos trabalhando junto com as secretarias de educação e com organizações como a Associação Bem Comum e a Motriz, para garantir que nosso WhatsApp entra dentro de cada cidade ou estado como parte de uma abordagen sistêmica, garantindo coesão no apoio ao professor.

. Como é o desafio de transformação cultural necessário para acompanhar essas transições tão relevantes que vocês passaram?

A chave é se manter muito próximo dos professores e das escolas públicas. A nossa antena está constantemente ligada, para identificar comportamentos quando eles estão nascendo. A pandemia reforçou bastante isso, porque, mesmo a distância, fomos entendendo dia a dia as alternativas que os docentes encontravam e colaborando para que outros se inspirassem pelo exemplo dos que foram conseguindo encontrar caminhos.

Outra premissa é a diversidade brasileira. Não é por que 100 professores adotaram uma tecnologia que todos vão adotar. A realidade das escolas públicas é muito variada e o que funciona para uma pode não funcionar em outra. Então, sempre damos opções para os professores. Em um plano de aula, vamos sugerir algo dizendo que ele pode projetar, imprimir, escrever na lousa ou apenas falar para a turma. Assim, todos podem ter uma abordagem inovadora e significativa, independentemente dos recursos que têm em mãos. A inovação está no docente. E fazemos tudo isso com uma linguagem que chamamos “de professor para professor”. Ou seja, fazemos com eles, como uma amiga professora, que entende o que cada uma dessas professoras passa e o quanto elas são essenciais para que a aprendizagem aconteça.

. Olhando para daqui 5 anos, como você imagina que a ANE se transformará?

Cabem várias versões da Nova Escola em 5 anos. E, neste período, sabemos que a educação como um todo precisa se transformar, bem como o papel dos professores. Desde 2023, temos acompanhado como os professores brasileiros estão usando IA. Na nossa pesquisa deste ano, vimos um salto: 79% já usam IA e a maioria usa toda semana ou todo dia. E eles não estão só ganhando tempo, perceberam que essa tecnologia os ajuda a pensar e a ter melhores ideias.

Por isso, fizemos uma IA para eles, treinada para a BNCC e os currículos locais. Mas sabemos que isso é só o começo desta nova fase. Cada desenvolvimento que implementamos nos mostra vários outros que podem acontecer. Então, seguiremos nos transformando, seguindo o princípio de que agora podemos estar lá dentro da sala de aula da professora, na palma da mão dela. Não queremos mais perder esta proximidade.

. Existe alguma crença forte que sua trajetória profissional comprovou errada?

No início da carreira, eu achava que eu ia estudar, trabalhar e eu teria as respostas. Quanto mais experiência eu tenho, mais aprendo que as respostas não são minhas. O que eu tenho que saber é fazer boas perguntas, seja na gestão do time ou nas decisões sobre os produtos. A melhor parte do meu trabalho é estar perto dos professores, visitar escolas públicas, entender como a aprendizagem está acontecendo em cada sala de aula e buscar soluções pautadas nesta realidade, para que todas as crianças aprendam. Ainda bem que o jornalismo me ensinou a ser perguntadeira e observadora.

Também aprendi que uma solução nunca está pronta. Quando a gente publica uma revista, um livro ou uma tese, eles têm que estar 100% finalizados. Trabalhando com produtos digitais, a solução de amanhã sempre vai ser melhor que a de hoje. Então, não podemos parar. O ciclo de testar, desenvolver e entregar nunca termina.

Edtechs

Associação Nova Escola — de revista a assistente de professor
Brasil

http://novaescola.org.br

Filantrópica, nasceu em 1986 como revista de grande circulação para educadores. Construiu uma das marcas mais fortes da educação brasileira e a usou para atravessar cada mudança de tecnologia sem perder o professor de vista. Foi revista, virou portal com reportagens, planos de aula e cursos, e traduziu a BNCC para a linguagem da sala de aula com seis mil planos produzidos ao lado de centenas de docentes. Esse acervo de quatro décadas é hoje a matéria-prima de sua fase mais recente. Com a IA generativa, entendeu que precisava estar ainda mais perto do usuário final e foi para o WhatsApp, onde já tem assistente para alfabetização e constrói, junto a redes e governos, assistentes integrados ao currículo local. O diferencial não é o modelo, é o que décadas de curadoria pedagógica colocaram por baixo dele.

Encyclopædia Britannica — do verbete enciclopédico ao software escolar com IA

Reino Unido

https://www.britannica.com

Fundada em 1768, passou dois séculos e meio acumulando conhecimento verificado por acadêmicos e editores. Quando a enciclopédia impressa perdeu função, não desapareceu: reposicionou o acervo. Hoje seu maior negócio é vender software educacional para escolas e bibliotecas, e sua aposta é usar IA para personalizar trajetórias de aprendizagem sobre essa base. Lançou um chatbot que responde perguntas ancorado na vasta base curada ao longo de dois séculos, em vez de na internet aberta, e mantém o Merriam-Webster sob o mesmo teto. É a metamorfose de acervo em IA no estado mais radical: o valor está na confiabilidade de uma fonte curada por gerações, justamente o que um modelo genérico não tem.

Shiksha Copilot — copiloto de plano de aula ancorado no currículo estadual

Índia

http://sikshana.org

Desenvolvido na Índia pela Microsoft Research em parceria com a fundação Sikshana, que atua há mais de duas décadas na rede pública. Não é uma startup nem um acervo editorial, mas opera pela mesma lógica: usa o currículo oficial do estado de Karnataka e materiais didáticos como base para gerar planos de aula, funcionando como copiloto e não como piloto automático, com o professor sempre validando. É bilíngue, pensado para escolas de baixo recurso, e chega via governo estadual dentro de uma abordagem sistêmica. Espelha a Nova Escola quase ponto a ponto: IA aterrada em currículo local e política pública, não chatbot solto.

Learn Africa PLC — a editora de livro didático que virou plataforma

Nigéria

http://learnafricaplc.com

Nasceu em 1961 como Longman Nigeria, braço local do grupo britânico, e por mais de sessenta anos foi a maior editora educacional da Nigéria, com catálogo do maternal ao ensino superior e a mais ampla rede de distribuição do país. Diante da digitalização, começou a mover o acervo para o ambiente digital: um aplicativo que reúne livros didáticos, avaliações e guia do professor alinhados ao currículo aprovado, além de programas de formação docente. É o caso mais editorial do conjunto e o que menos aposta em IA por enquanto, mas ilustra bem a transição de canal de uma instituição que detém décadas de conteúdo curricular e agora precisa reinventar como entrega isso a professores e alunos conectados.

Oak National Academy — o banco público de aulas que virou base de IA
Reino Unido
https://www.thenational.academy/

Britânica, nascida em 2020 durante a pandemia como resposta emergencial ao fechamento das escolas, cresceu virando um acervo público e gratuito com milhares de aulas e recursos curados e alinhados ao currículo nacional. Passada a emergência, não se dissolveu: transformou esse banco em infraestrutura permanente e passou a usar IA para ajudar professores a planejar e adaptar aulas sobre esse acervo. É a mais jovem do grupo e serve de ponte entre o conteúdo público curado e a camada de IA, mostrando que o mesmo princípio da Nova Escola vale mesmo para uma organização que já nasceu digital.

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