Primeira edição presencial do evento reuniu mais de mil pessoas no Parque Madureira para discutir o papel da escola diante da Inteligência Artificial e das respostas prontas
A facilidade com que a Inteligência Artificial Generativa produz textos, resumos, imagens e respostas vem transformando uma das discussões mais relevantes da educação contemporânea. Se durante anos a preocupação esteve concentrada no acesso à informação, agora o desafio parece ser outro: garantir que crianças e adolescentes continuem desenvolvendo a capacidade de refletir, questionar e construir conhecimento em um contexto marcado pela instantaneidade.
Foi a partir dessa provocação que o Festival Imagina promoveu um amplo debate sobre o futuro da aprendizagem e o papel da escola em um cenário cada vez mais influenciado por algoritmos. A primeira edição presencial do evento aconteceu no dia 30 de maio, no Parque Madureira, no Rio de Janeiro. O festival reuniu mais de mil participantes para discutir os impactos da tecnologia sobre a formação das novas gerações.
A questão central apareceu de diferentes formas ao longo das discussões: se as respostas estão disponíveis em segundos, o que continua sendo essencial aprender? Para especialistas convidados, a resposta passa menos pelo domínio de ferramentas e mais pela construção de competências humanas que permitam aos estudantes interpretar informações, tomar decisões e atuar de forma crítica diante do mundo.
Nesse contexto, o pensamento crítico na era da IA surge como uma das competências mais estratégicas para a educação. Mais do que transmitir conteúdos, as escolas são chamadas a criar experiências capazes de estimular a curiosidade, a investigação e a autonomia intelectual dos alunos.
As reflexões também apontaram para uma mudança importante de perspectiva. Em vez de enxergar a Inteligência Artificial apenas como uma ameaça ou uma ferramenta de apoio, educadores defendem que ela pode se tornar uma oportunidade para reposicionar a escola como espaço de desenvolvimento humano, convivência e formação cidadã.
Pensamento crítico na era da IA exige novas práticas pedagógicas
Durante as discussões promovidas pelo festival, a coordenadora de inovação pedagógica do Elite Rede de Ensino, Luiza Machado, defendeu que o principal papel da escola continua sendo ensinar os estudantes a pensar. Segundo a educadora, a presença crescente da Inteligência Artificial reforça a necessidade de desenvolver habilidades relacionadas à análise, à argumentação e à tomada de decisões. “A escola não é um lugar de repetição de conteúdo. Ela é feita para você conviver, aprender a pensar, criar e desenvolver uma habilidade crítica”, afirmou.
A educadora destacou que o desafio atual não está apenas no acesso às ferramentas, mas na compreensão de como elas funcionam. Por isso, iniciativas voltadas ao letramento digital e ao uso consciente da Inteligência Artificial ganham espaço nas instituições de ensino. O objetivo é ajudar os estudantes a compreender que sistemas generativos operam a partir de padrões estatísticos e bancos de dados, e não por meio de pensamento próprio ou julgamento humano.
Um dos exemplos apresentados foi o Dia Lab, programa desenvolvido pelo Elite para ampliar a compreensão dos estudantes sobre tecnologia e IA. Por meio de atividades práticas, os alunos são incentivados a questionar informações, verificar fontes e compreender os limites das respostas produzidas por algoritmos. A proposta busca justamente evitar que a conveniência das respostas instantâneas substitua etapas fundamentais do processo de aprendizagem, como investigação, reflexão e construção de repertório.
Autonomia e aprendizagem contínua ganham protagonismo
Outra discussão recorrente ao longo do Festival Imagina foi a necessidade de preparar os estudantes para um futuro marcado por mudanças constantes e profissões que ainda não existem. Nesse cenário, especialistas defenderam que o desenvolvimento de competências socioemocionais passa a ocupar um papel tão importante quanto a aprendizagem de conteúdos tradicionais.
O historiador e coordenador de inovação pedagógica do Grupo Salta Educação, Matheus Louback, argumentou que a educação precisa fortalecer vínculos, ampliar a autonomia dos estudantes e criar ambientes de acolhimento capazes de estimular a confiança e o protagonismo.
Segundo Louback, a construção dessas competências permite que crianças e adolescentes desenvolvam maior capacidade de adaptação diante das transformações tecnológicas e sociais. Em vez de criar dependência ou proibir novas ferramentas, o caminho mais consistente passa pelo letramento digital aliado ao desenvolvimento da autonomia.
A perspectiva apresentada pelos especialistas também dialoga com o conceito de lifelong learning, ou aprendizagem ao longo da vida. Em um contexto em que o conhecimento se transforma rapidamente, manter a curiosidade e a disposição para aprender torna-se uma habilidade estratégica para qualquer trajetória profissional e pessoal.
Ao final dos debates, uma ideia apareceu de forma recorrente entre os participantes: se a tecnologia já é capaz de oferecer respostas prontas, o diferencial humano passa a estar na capacidade de formular boas perguntas, interpretar contextos complexos e construir soluções para desafios que ainda não têm respostas definidas.
Festival leva debate sobre inovação para além da escola
As discussões sobre tecnologia, aprendizagem e desenvolvimento humano ganharam dimensão prática na primeira edição presencial do Festival Imagina. Realizado no Parque Madureira, o evento transformou o espaço público em um ambiente de experimentação, cultura e diálogo sobre o futuro.
Com programação gratuita, a iniciativa reuniu atividades ligadas à arte, inovação, esporte, educação e tecnologia, aproximando diferentes públicos de temas que normalmente permanecem restritos a ambientes acadêmicos ou corporativos. Além do impacto cultural, o festival também movimentou a economia local ao gerar mais de 300 empregos diretos e indiretos durante as etapas de produção e realização do projeto.
Ao levar para as ruas debates sobre Inteligência Artificial, criatividade e aprendizagem, o Festival Imagina reforçou uma das questões centrais da educação contemporânea: em um mundo cada vez mais automatizado, o desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia e das relações humanas tende a se tornar ainda mais valioso.










