Evento da Fundação Roberto Marinho reuniu especialistas, educadores e artistas para discutir pensamento crítico, inteligência artificial, artes e novos caminhos para a educação contemporânea
A educação brasileira atravessa um momento de transformação acelerada, marcado pelo avanço da inteligência artificial, pelas mudanças nas formas de aprendizagem e pela busca por modelos educacionais mais conectados à criatividade, à convivência e ao desenvolvimento humano. Foi nesse cenário que a quinta edição do Festival LED — Luz na Educação. Realizada no Rio de Janeiro pela Fundação Roberto Marinho, reuniu especialistas, educadores, pesquisadores e representantes da cultura para discutir os desafios da escola contemporânea.
Ao longo de dois dias de programação, o evento promoveu debates sobre pensamento crítico, inteligência artificial, ensino das artes, educação integral e formação cidadã. Em diferentes mesas e oficinas, os participantes defenderam que o futuro da educação depende da capacidade das escolas de integrar inovação, repertório cultural, sensibilidade e construção coletiva do conhecimento.
Mais do que discutir tendências tecnológicas, o Festival LED evidenciou uma mudança importante no setor educacional: a percepção de que criatividade, cultura e relações humanas precisam ocupar posição central nas práticas pedagógicas, especialmente em um contexto de transformação digital acelerada.
A programação organizada pela Fundação Roberto Marinho reuniu mais de 800 participantes nos espaços LED Dialoga e LED Cria. As atividades aproximaram experiências brasileiras e internacionais e reforçaram o papel da educação como espaço de formação crítica, produção cultural e construção de projetos de vida.
Segundo Sandra Sérgio, gerente de Programas e Projetos da Fundação Roberto Marinho, arte e cultura não podem ser vistas como elementos periféricos da educação. “A gente entende que esse diálogo entre arte, cultura, criatividade e educação é fundamental para o desenvolvimento do ser humano. É muito importante que não estejam à margem do processo educacional, mas como um elemento central dele”, afirmou.
Inteligência artificial amplia debate sobre aprendizagem e pensamento crítico
As transformações provocadas pela inteligência artificial estiveram entre os temas centrais da programação. Os debates discutiram como as escolas podem utilizar novas tecnologias sem comprometer o desenvolvimento do pensamento crítico, da autoria e da construção do conhecimento.
Durante o talk “Escola, imaginação e pensamento crítico em tempos de pós-verdade”, a professora da PUC-SP, Dora Kaufman, destacou que a expansão das IAs exige mudanças na forma como educadores avaliam os estudantes. Para a pesquisadora, o processo de aprendizagem precisa ganhar mais relevância do que apenas o resultado final das atividades.
“Quando pedimos uma redação, por exemplo, a chance de ser feita por uma inteligência artificial é grande. É importante para nós, educadores, entendermos a sequência de raciocínio como um todo dos jovens”, afirmou.
A discussão sobre formação crítica também apareceu no painel mediado por Sandra Sérgio sobre pós-verdade e educação. A mesa reuniu a professora da FGV Comunicação, Renata Tomaz, a promotora de Justiça Gabriela Lusquiños e a jornalista e pesquisadora Priscila Gonsales.
Os especialistas defenderam que a escola precisa fortalecer competências relacionadas à análise crítica, interpretação de informações e convivência democrática, especialmente diante do crescimento da circulação de conteúdos automatizados e da influência dos algoritmos sobre o cotidiano dos estudantes.

Da esquerda para direita João Alegria, Celso Melo, Olga Olaya e Paulo Pires (Foto: Thaty Aguiar / Divulgação LED)
Artes e cultura ganham protagonismo na educação contemporânea
O segundo dia do Festival LED aprofundou o debate sobre o papel das artes e da cultura na aprendizagem. Os encontros defenderam uma visão ampliada de educação, conectada à criatividade, ao território e à formação humana.
No painel “Entre diretrizes e criações: políticas públicas para o ensino de artes”, o secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, João Alegria, afirmou que experiências culturais fortalecem diferentes dimensões da aprendizagem. A mesa reuniu especialistas internacionais, como Paulo Pires e Olga Olaya, que compartilharam experiências sobre integração entre cultura e educação em políticas públicas.
Segundo Paulo Pires, arte e cultura ampliam horizontes e ajudam estudantes a superar barreiras sociais e econômicas. Já Olga Olaya destacou iniciativas colombianas voltadas à valorização de múltiplas identidades culturais dentro do ambiente escolar.
A valorização das linguagens artísticas também apareceu na mesa “Ensinar a perguntar: curiosidade, arte e criatividade como método de aprendizagem”. Entre os convidados esteve Evelyn Bastos, que destacou como a cultura pode fortalecer identidade, pertencimento e formação cidadã.
Outro destaque da programação foi o anúncio de uma carta-compromisso pela educação integral em tempo integral, apresentada por João Alegria no encerramento do Palco Dialoga. O documento propõe uma escola que articule conhecimento acadêmico, experiências culturais, convivência e participação social.
Além dos debates, o Festival LED promoveu oficinas práticas voltadas à cidadania digital, pertencimento juvenil e projetos de vida. As atividades reforçaram uma discussão recorrente ao longo do evento: diante das transformações tecnológicas e sociais, a escola passa a ser chamada não apenas a transmitir conteúdos, mas também a formar sujeitos críticos, criativos e preparados para atuar em uma sociedade cada vez mais complexa.










