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Na Coluna do LIV de maio, especialistas refletem sobre como escola, família e vínculos afetivos ajudam a formar meninos emocionalmente saudáveis em tempos digitais

Pense em uma situação bastante comum: um menino cai, se machuca e, antes mesmo de chorar, escuta alguém dizer: “engole o choro, homem não chora”. Essa frase, repetida ao longo de gerações, carrega significados profundos e ajuda a moldar a forma como muitos garotos aprendem a lidar com as próprias emoções.

Quando os meninos demonstram tristeza, medo ou fragilidade, ainda é comum que sejam vistos com estranhamento. E esse tipo de comportamento ensina que sentir é sinal de fraqueza. Aos poucos, formamos meninos que silenciam dores, escondem angústias e encontram dificuldade para falar sobre o que vivem internamente.

Diante desse cenário, vale refletir: estamos oferecendo aos meninos oportunidades reais de reconhecer e expressar emoções? A escola tem sido um ambiente seguro para que eles se mostrem como são, sem medo de julgamentos? Ou seguimos reforçando, ainda que sem perceber, a ideia de que sentimentos masculinos devem ser reprimidos?

Não existem respostas prontas para essas perguntas. Mas elas nos convidam a observar com mais atenção a maneira como educamos, acolhemos e escutamos os meninos no cotidiano.

A escola como espaço de acolhimento e escuta

No ambiente escolar, seja no recreio, na sala de aula ou em momentos coletivos, muitos meninos continuam pressionados a sustentar uma imagem de força constante. Os educadores e os gestores, que acompanham de perto a rotina dos estudantes, reconhecem como essa cobrança aparece de forma sutil, porém contínua.

Em sala, isso pode surgir em atitudes que desafiam a convivência e a escuta. Os meninos que ainda não conseguem identificar ou nomear o que sentem frequentemente expressam emoções por meio da agitação, da irritação, da agressividade ou do isolamento. Em vez de compreensão, acabam sendo classificados como “difíceis”, quando, na realidade, estão tentando lidar com sentimentos que não sabem comunicar.

É justamente nesse contexto que iniciativas como o programa socioemocional LIV se mostram ainda mais importantes. Elas mostram, para as escolas, alguns caminhos viáveis para escutar e acolher os sentimentos de todos, inclusive dos meninos.

Nós trabalhamos habilidades importantes como empatia, autorregulação e escuta ativa para ajudar a desconstruir essa ideia de que os sentimentos masculinos devem ser contidos e escondidos.

O objetivo do programa socioemocional do LIV vai além de ensinar sobre as emoções. Ele cria uma cultura de cuidado que ultrapassa o ambiente escolar e mostra que sentir não é errado, é humano.

A importância da escuta

A série Adolescência (2025) reacendeu um debate importante sobre vínculos familiares, isolamento emocional e os desafios de educar crianças em um mundo hiperconectado.

A trama tem como protagonista o Jamie, um menino criado com afeto, presença e atenção. Seus pais, Eddie e Manda, fizeram o que muitas pessoas consideram correto: acompanharam sua rotina, delimitaram limites e evitaram repetir os erros do passado. Só que mesmo assim foram surpreendidos por uma tragédia que afetaria a família por muito tempo.

Essa série nos faz refletir sobre algo que está além do óbvio. Afinal, o Jamie não cresceu em um ambiente negligente, muito pelo contrário. Mas ele estava emocionalmente isolado**.** O menino passava horas trancado no quarto, imerso em conteúdos online que seus pais não conseguiam acessar e muito menos supervisionar.

O que acontece quando há um vínculo físico, mas que não é acompanhado por uma escuta verdadeira? A história de Jamie, que fala mais do que sobre culpa, mostra que proteger e conectar são coisas bem diferentes.

Vivemos em uma época em que o acesso à informação é quase ilimitado, o que também inclui os discursos de ódio, intolerância e violência. Isso significa que uma criança emocionalmente isolada, mesmo que seja bem cuidada, ainda pode ser capturada por tais narrativas.

Quando não ensinamos aos meninos a nomear o que eles sentem, eles podem acabar buscando respostas onde não há acolhimento real, mas uma promessa falsa de pertencimento.

Além de criar meninos que sentem, também precisamos ensiná-los a filtrar ideias, questionar suas influências e reconhecer os seus sentimentos e o que eles causam. Para isso, é preciso abrir espaço para conversas difíceis, mesmo quando tudo parece estar bem. Afinal, o silêncio pode parecer um sinal de paz, muitas vezes, mas ele também pode ser apenas uma ausência de escuta.

A paternidade

Ao falar sobre a criação de meninos que sentem, é importante olhar para os vínculos afetivos que atravessam essa trajetória. A maneira como eles aprendem a expressar emoções está profundamente ligada à presença emocional dos adultos ao seu redor e à forma como essas pessoas também lidam com os próprios sentimentos.

Infelizmente, é comum que muitos homens cresçam sem referências de afeto e proximidade. Muitos deles carregam, desde cedo, a ideia de que ser pai significa apenas prover ou corresponder aos variados estereótipos de masculinidade. Porém, essas construções só servem para reforçar crenças equivocadas sobre o silêncio dos sentimentos, a dificuldade de se expressar, buscar ajuda ou admitir estar em sofrimento.

A paternidade não tem a ver com perfeição, mas sim com presença. Tem a ver com o tempo compartilhado, uma escuta real e um afeto que se constrói dia após dia. E, muitas vezes, é só isso que os filhos querem: uma convivência real com momentos de qualidade e presença cotidiana, até porque os vínculos mais profundos não são feitos na ausência.

Criar meninos que sentem também é educar para o futuro

O cuidado com crianças e adolescentes precisa acompanhar as transformações do nosso tempo. Em um cenário marcado por redes sociais, algoritmos, exposição precoce e acesso facilitado a conteúdos nocivos, proteger meninos e meninas exige novas respostas coletivas.

Foi com esse olhar que lançamos a cartilha sobre o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em parceria com a juíza e embaixadora LIV, Vanessa Cavalieri. O material propõe reflexões e orientações sobre proteção, responsabilidade compartilhada e cuidado com crianças e adolescentes no ambiente digital.

Em um tempo em que educar também significa acompanhar telas, vínculos e influências digitais, precisamos ter em mente que formar emocionalmente é, também, proteger.

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