Amábile Pácios discute por que preparar professores para atuar como mediadores da aprendizagem é essencial para consolidar metodologias ativas e responder aos desafios da educação contemporânea
As transformações sociais, tecnológicas e culturais das últimas décadas têm redefinido o papel da escola e, consequentemente, o papel do professor. Em um contexto marcado pela abundância de informação e pela ampliação do acesso ao conhecimento, a docência é cada vez menos associada à transmissão de conteúdos e cada vez mais à mediação da aprendizagem.
Essa mudança, embora amplamente discutida, ainda representa um desafio para a formação inicial e continuada de professores.
Metodologias como a aprendizagem baseada em projetos, a sala de aula invertida e as práticas colaborativas vêm ganhando espaço em diferentes etapas da educação. Todas elas compartilham um pressuposto comum: o estudante assume uma posição mais ativa no processo de aprendizagem, enquanto o professor atua como orientador, facilitador e mediador.
No entanto, é importante reconhecer que mudar a metodologia sem transformar a formação docente tende a produzir resultados limitados.
Atuar como mediador exige competências específicas. O professor precisa saber formular problemas relevantes, organizar experiências de aprendizagem, estimular a autonomia dos estudantes, acompanhar diferentes ritmos de desenvolvimento e promover a colaboração.
Na aprendizagem baseada em projetos, por exemplo, o desafio não está apenas em propor uma atividade prática, mas em criar situações que articulem diferentes áreas do conhecimento e incentivem a investigação, a criatividade e a resolução de problemas reais.
Já na sala de aula invertida, o professor deixa de concentrar a exposição de conteúdos e passa a utilizar o tempo presencial para aprofundar discussões, esclarecer dúvidas e desenvolver atividades de aplicação e análise.
Essas abordagens demandam planejamento cuidadoso e uma mudança significativa na forma de compreender o ensino. Mais do que dominar ferramentas digitais ou metodologias específicas, o professor precisa desenvolver competências relacionadas à escuta, à observação e à mediação pedagógica.
Isso exige uma revisão dos modelos tradicionais de formação docente.
Ainda é comum que as licenciaturas privilegiem a transmissão de conteúdos sobre metodologias de ensino, sem oferecer aos futuros professores oportunidades concretas de vivenciar essas práticas durante a própria formação.
Formar professores para trabalhar com metodologias ativas implica, antes de tudo, adotar metodologias ativas na formação dos próprios docentes.
Não basta ensinar sobre aprendizagem baseada em projetos; é necessário que os licenciandos participem de projetos. Não basta apresentar o conceito de sala de aula invertida; é preciso que eles experimentem essa dinâmica.
A coerência entre o que se ensina e a forma como se ensina é um elemento essencial para a construção da identidade profissional docente.
Outro aspecto importante é compreender que o professor mediador não perde relevância. Pelo contrário. Em um ambiente marcado pelo excesso de informações e pela presença crescente da inteligência artificial, sua função torna-se ainda mais estratégica.
Cabe ao professor ajudar os estudantes a selecionar informações, estabelecer conexões, desenvolver pensamento crítico e construir conhecimento de forma significativa.
Formar professores para mediar significa prepará-los para uma escola que valoriza a autonomia, a investigação e a aprendizagem contínua.
Mais do que dominar novas metodologias, o desafio é desenvolver uma nova compreensão sobre o ato de ensinar: menos centrada na exposição e mais orientada à construção compartilhada do conhecimento.

Amábile Pacios é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e ex-conselheira Nacional de Educação, com atuação destacada na Câmara de Educação Básica. Educadora com mais de 30 anos de experiência, é autora de livros didáticos e presidente do Grupo Educacional Dromos. Reconhecida por sua liderança no setor educacional, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2022, em homenagem aos seus serviços prestados à educação brasileira.










