Skip to main content

Pesquisa TIC Educação 2025 revela que inteligência artificial, saúde mental, uso de celulares e participação das famílias passam a exigir novas estratégias de gestão nas redes de ensino brasileiras

A transformação digital nas escolas brasileiras entrou em uma nova etapa. Se, durante os últimos anos, o principal desafio foi ampliar a conectividade e incorporar tecnologias ao ambiente escolar, agora a preocupação das redes de ensino passa a incluir governança, definição de regras e mediação do uso das tecnologias por estudantes, professores e famílias.

A 16ª edição da pesquisa TIC Educação mostra que a inteligência artificial já integra a rotina de gestores escolares, enquanto o debate sobre saúde mental, uso de celulares e educação digital ganhou espaço permanente nas instituições de ensino. Os resultados foram divulgados na terça-feira, 4 de agosto, pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CeticBr), departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NICBr) vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGIBr).

A edição de 2025 ouviu 2.404 gestores de escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental e Médio entre agosto de 2025 e abril de 2026. Os dados indicam que as escolas começam a enfrentar questões que vão além da infraestrutura tecnológica e passam a exigir políticas internas, protocolos de atuação e maior integração entre comunidade escolar e famílias. O desafio deixa de ser apenas ampliar o acesso às tecnologias e passa a envolver a capacidade das redes de estabelecer regras, reduzir desigualdades e criar condições para que as tecnologias digitais contribuam de forma consistente para a aprendizagem e a gestão.

Para gestores educacionais, esse cenário amplia a agenda de decisões estratégicas. A pesquisa evidencia a necessidade de investir na formação docente, elaborar normas para o uso de inteligência artificial e dispositivos digitais, fortalecer a proteção de dados e estruturar ações permanentes de orientação às famílias sobre educação digital.

Fonte: TIC Educação 2025

Inteligência artificial acelera e desafia a governança digital

A inteligência artificial representa um dos movimentos mais expressivos identificados pela TIC Educação 2025. Pela primeira vez, a pesquisa investigou o uso de ferramentas de IA generativa nas escolas brasileiras e constatou que 53% dos gestores já recorrem à tecnologia para apoiar atividades administrativas, financeiras ou pedagógicas. Entre os usos mais frequentes estão a produção de materiais de comunicação, elaboração de documentos institucionais, revisão de textos e criação de conteúdos visuais.

O avanço ocorre em ritmo superior ao da regulamentação. Apenas 22% das escolas possuem um guia formal sobre o uso da inteligência artificial, embora 37% já autorizem os estudantes a utilizar essas ferramentas em atividades escolares. Nas instituições que oferecem Ensino Médio, esse percentual chega a 52%, indicando que a incorporação da IA tende a crescer conforme aumenta a autonomia dos alunos e a complexidade das atividades acadêmicas.

Para Daniela Costa, coordenadora da pesquisa TIC Educação no CeticBr, a expansão da inteligência artificial exige que a discussão sobre inovação caminhe junto com a redução das desigualdades entre as redes de ensino. “Os dados mostram a necessidade de um olhar atento às desigualdades estruturais, que podem se configurar em desafios à garantia de maior equidade na oferta da educação digital, conforme prevê normativas importantes, como o Plano Nacional de Educação”, afirmou.

A avaliação reforça um dos principais achados da pesquisa. O desafio da transformação digital já não está apenas em disponibilizar tecnologia às escolas, mas em construir condições para que elas sejam utilizadas de forma ética, segura e integrada aos objetivos pedagógicos. A elaboração de diretrizes institucionais, a formação das equipes e a definição de critérios para o uso da inteligência artificial passam a integrar a agenda estratégica das redes de ensino.

Fonte: TIC Educação 2025

Saúde mental amplia responsabilidades da gestão escolar

A transformação digital também ampliou o papel das escolas na mediação da relação entre estudantes, famílias e tecnologias. Em 2025, 80% das instituições promoveram debates sobre os impactos do uso das tecnologias digitais na saúde mental de crianças e adolescentes em reuniões com professores ou responsáveis. O percentual representa um crescimento de 18 pontos percentuais em relação a 2024, quando o tema estava presente em 62% das escolas.

O levantamento identificou ainda o avanço de outras pautas ligadas à educação digital. As discussões sobre o uso seguro, crítico e responsável das tecnologias passaram de 56% para 75% das escolas, enquanto a inclusão da educação midiática no currículo avançou de 46% para 67%.

O movimento ultrapassa os limites da sala de aula. Quase metade das escolas (49%) informou ter recebido pais e responsáveis em busca de orientação sobre hábitos digitais e tempo de exposição às telas. Em resposta, 48% promoveram palestras conduzidas por especialistas em psicologia ou saúde mental, enquanto 46% distribuíram materiais educativos voltados às famílias.

Os resultados também indicam que a educação digital depende de uma relação mais próxima entre escolas e famílias. Para Daniela Costa, isso exige apoio institucional às redes de ensino e políticas públicas voltadas à orientação da comunidade escolar. “A integração entre escolas e famílias é outro aspecto essencial para a disseminação da educação digital. Para que possam apoiar as famílias de maneira eficaz, as escolas precisam de suporte adequado e políticas públicas estruturadas”, afirmou a coordenadora da pesquisa TIC Educação.

Embora 65% das escolas desenvolvam ações de educação e cidadania digital, a consolidação dessas iniciativas ainda enfrenta obstáculos. Entre os gestores que realizam esses projetos, 75% apontam a baixa participação das famílias como a principal dificuldade. A escassez de materiais de apoio aparece logo em seguida, mencionada por 64% dos entrevistados, evidenciando que a educação digital depende tanto de infraestrutura quanto de mobilização da comunidade escolar.

Os resultados revelam que a agenda da educação digital deixou de se concentrar apenas na conectividade e passou a incorporar governança, bem-estar e organização institucional. As diferenças de infraestrutura entre as redes, no entanto, mostram que essa transformação ainda avança em ritmos distintos pelo país.

Fonte: TIC Educação 2025

Infraestrutura ainda condiciona o uso das tecnologias

Os resultados da TIC Educação também revelam que a governança digital convive com desigualdades estruturais que permanecem presentes na educação brasileira. A pesquisa mostra que apenas 23% das escolas possuem equipamentos destinados a atividades de robótica e 22% contam com recursos voltados à cultura maker, como impressoras 3D, kits de eletrônica ou ferramentas para projetos interdisciplinares.

As diferenças entre as redes públicas chamam atenção. Enquanto 38% das escolas estaduais dispõem de equipamentos para robótica, esse percentual cai para 13% nas redes municipais. A disparidade ajuda a explicar por que, em muitas regiões, o telefone celular continua sendo utilizado como alternativa para suprir a falta de computadores disponíveis aos estudantes.

Esse cenário aparece de forma mais evidente nas regiões Norte e Nordeste e nas áreas rurais. Entre as escolas que permitem a entrada do celular, 76% das instituições do Norte e do Nordeste autorizam seu uso em atividades pedagógicas. Nas áreas rurais, o índice alcança 75%, indicando que o dispositivo ainda funciona como alternativa à escassez de computadores e outros equipamentos destinados ao ensino.

A pesquisa indica que o avanço da transformação digital dependerá da combinação entre investimentos em infraestrutura, fortalecimento da formação dos profissionais e políticas institucionais capazes de orientar seu uso. Para os gestores, a governança digital deixa de ser uma agenda exclusivamente tecnológica e passa a integrar decisões sobre inteligência artificial, bem-estar dos estudantes, relação com as famílias e redução das desigualdades de acesso.

Compartilhe: