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Na Coluna Engenharia Educacional de agosto, Marcel Costa analisa os limites do uso da inteligência artificial na aprendizagem e o risco de a tecnologia substituir o esforço do aluno

Faz tempo que a inteligência artificial entrou na educação. No decantar dos tempos, chegamos agora a uma fase de depuração: não é mais uma questão de saber se ela fará parte da escola, mas que papel ocupará dentro do processo educacional e da aprendizagem.

Um estudante pode pedir a uma IA que resolva uma questão, escreva uma redação, resuma um capítulo, traduza um texto ou organize um trabalho. Em poucos segundos, uma tarefa que antes exigia pesquisa, leitura, elaboração e revisão pode estar pronta.

Mas existe uma pergunta que a educação ainda precisa fazer: o aluno aprendeu alguma coisa ou apenas conseguiu entregar a tarefa?

Essa distinção será uma das questões centrais da educação nos próximos anos. Porque fazer não é necessariamente aprender.

Durante muito tempo, a escola associou a realização de uma atividade à aprendizagem. O aluno respondeu às questões, entregou o trabalho, fez a prova. A tarefa foi concluída.

Aprendizagem é outra coisa. Aprender significa construir uma capacidade que permanece disponível depois que a situação que a produziu desaparece. É conseguir recuperar uma informação, estabelecer relações, resolver um problema, reconhecer um erro, explicar um raciocínio e utilizar um conhecimento em uma situação diferente.

A inteligência artificial pode produzir uma resposta. Isso não significa que tenha produzido conhecimento dentro do estudante. Uma ferramenta pode, portanto, tornar uma tarefa mais fácil e, ao mesmo tempo, tornar a aprendizagem mais difícil.

O problema não está na tecnologia, mas no que deixamos que ela faça no lugar do aluno. Afinal, o esforço cognitivo não pode ser terceirizado: aprender exige participação ativa.

Não qualquer esforço, nem sofrimento desnecessário, mas atividade cognitiva. É preciso prestar atenção, recuperar informações, estabelecer relações, testar hipóteses, errar, corrigir, comparar, explicar e tentar novamente.

Quando uma tecnologia elimina uma etapa que era apenas burocrática, pode liberar tempo para que o estudante pense melhor. O problema surge quando ela elimina justamente a etapa em que o estudante precisava pensar e, com isso, retira do processo aquilo que deveria ajudá-lo a aprender.

Essa distinção será cada vez mais importante com a expansão da inteligência artificial.

O estudante pode pedir:

“Resolva este problema para mim.”

Mas também pode perguntar:

“Analise meu raciocínio e me ajude a descobrir onde errei.”

Pode pedir:

“Escreva minha redação.”

Ou:

“Faça perguntas que me ajudem a construir minha própria argumentação.”

As duas utilizações envolvem a mesma tecnologia. Mas produzem experiências cognitivas completamente diferentes.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes na relação entre inteligência artificial e educação: a diferença entre fazer no automático e pensar.

Estamos acostumados a avaliar sistemas de IA pela qualidade e pela velocidade das respostas. Na educação, entretanto, uma resposta perfeita nem sempre é o melhor resultado. A melhor intervenção pode ser uma pergunta.

Uma inteligência artificial orientada à aprendizagem precisará saber diferenciar essas situações. Se a IA pensa antes do estudante e elabora por ele, pode retirar justamente a experiência cognitiva que deveria ser desenvolvida.

Por isso, uma pergunta mais importante do que “qual resposta devo oferecer?” seria: “Qual intervenção ajuda este estudante a avançar sem retirar dele aquilo que precisa aprender a fazer?”

Essa mudança parece pequena, mas altera completamente a maneira de pensar uma tecnologia educacional. A iniciativa não deve ser delegada à IA. Antes de tudo, precisa permear o pensamento do educador.

O instrumento não substitui o músico

Um instrumento musical extraordinário, por si só, não produz música. O melhor piano não toca sozinho. O melhor violão não interpreta uma canção sozinho. Mesmo uma máquina capaz de executar movimentos com enorme precisão não reproduz aquilo que dá sentido à música: a intenção, a experiência, a sensibilidade, a emoção humana. O instrumento pode ampliar o que o músico é capaz de fazer. Mas não substitui o músico.

Na educação, a tecnologia ocupa lugar semelhante. Uma ferramenta pode ser extraordinariamente sofisticada, rápida e precisa. Pode organizar informações, produzir exercícios, analisar respostas, identificar padrões e oferecer feedback. Mas quem dá sentido à experiência de aprender continua sendo o ser humano.

É também por isso que a inteligência artificial não diminui necessariamente a importância do educador. Pode, ao contrário, tornar mais evidente aquilo que há de essencial em seu trabalho. O educador é a alma da aprendizagem!

Se uma máquina consegue explicar um conteúdo, gerar exercícios, corrigir textos e responder dúvidas em segundos, seria razoável imaginar que o educador perderá importância.

Na verdade, essa conclusão parte de uma visão limitada do trabalho docente. O professor não é apenas um transmissor de informações.

Ao longo dos tempos, sábios, mestres e preceptores compreenderam a importância de observar seus discípulos e estudantes, identificar dificuldades, interpretar respostas, regular o nível de desafio, estabelecer confiança, dar significado ao conhecimento e propor objetivos e estratégias.

Num tempo sem tecnologia e agora com tecnologia, educadores sempre compreenderam a possibilidade de aquisição de mais e mais conhecimento. Mas também sabiam que, mais do que ter conhecimento, é preciso saber o que fazer com ele.

Essa talvez seja uma das funções mais importantes do educador no futuro: ajudar o estudante a transformar informação em compreensão, compreensão em capacidade e capacidade em autonomia.

A escola do futuro não será necessariamente aquela em que a inteligência artificial substituiu professores. Pode ser aquela em que professores e inteligência artificial realizam funções diferentes e complementares.

Uma inteligência artificial a serviço da escola

Uma inteligência artificial educacional poderá, progressivamente, conhecer o histórico de aprendizagem de um estudante, identificar padrões de erro, perceber lacunas, acompanhar sua evolução e apoiar o professor na tomada de decisões.

Mas isso só terá valor educacional se esses dados forem utilizados para compreender melhor o aluno, e não simplesmente para produzir mais conteúdo.

No futuro próximo, é possível imaginar escolas que não utilizem apenas ferramentas genéricas de inteligência artificial, mas sistemas próprios, construídos ou configurados a partir de sua proposta pedagógica, seus objetivos, seus critérios de avaliação e sua compreensão sobre aprendizagem.

Uma IA própria da escola não precisaria ser apenas um “ChatGPT da instituição”. Ela poderia funcionar como uma camada de inteligência sobre o processo educacional: apoiar professores, acompanhar trajetórias, identificar dificuldades, sugerir intervenções, produzir materiais adequados ao estágio de cada estudante e oferecer feedback.

Mas existe uma condição fundamental: a inteligência artificial da escola precisa estar subordinada à sua concepção de aprendizagem, e não o contrário.

A tecnologia não pode determinar o que a escola deve ensinar apenas porque consegue fazer alguma coisa com eficiência. Primeiro vem a finalidade educacional. Depois, a tecnologia capaz de servi-la.

O ser humano continua no centro

A chegada da inteligência artificial torna ainda mais necessária uma pergunta que deveria estar presente antes da escolha de qualquer metodologia, plataforma ou ferramenta: o que precisa acontecer entre educador, estudante, conhecimento e tecnologia para que a aprendizagem efetivamente aconteça?

Essa pergunta recoloca o ser humano no centro da aprendizagem. Não se trata de escolher entre tecnologia e professor, entre inteligência artificial e ensino tradicional, ou entre tela e papel. Antes de escolher qualquer recurso, é preciso compreender o que o estudante precisa aprender e, então, utilizar conscientemente aquilo que pode ajudá-lo nesse caminho.

Porque a tecnologia é um meio e a inteligência artificial um instrumento (poderoso). Mas quem aprende é o ser humano.

E talvez esse seja o maior desafio da escola diante da inteligência artificial: não ensinar os estudantes a fazer menos, mas ajudá-los a fazer melhor aquilo que nenhuma tecnologia deveria fazer por eles: aprender a pensar.

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