No Bernoulli Reload 2026, especialistas discutiram como a inteligência artificial na educação transforma processos, decisões e competências sem retirar o humano do centro
A inteligência artificial na educação já começa a mudar não apenas ferramentas e práticas, mas as perguntas que orientam o trabalho das escolas. À medida que máquinas assumem tarefas cognitivas e produzem respostas em segundos, gestores precisam decidir o que automatizar, o que transformar e, sobretudo, o que não pode ser delegado à tecnologia.
Foi esse deslocamento que atravessou o Bernoulli Reload 2026, realizado em 11 de agosto, em São Paulo, com mais de 800 participantes, entre gestores, mantenedores, educadores e diretores de instituições parceiras. Na abertura, Lucas Hanusch, presidente do Bernoulli Educação, resumiu a provocação que orientou o encontro: “A gente não tem um evento sobre inteligência artificial. A gente tem um evento sobre as três inteligências”.
A proposta foi ampliar a discussão para a relação entre tecnologia, cultura e capacidades humanas que sustentam a educação. Hanusch também chamou atenção para uma mudança inevitável no trabalho escolar. Se a inteligência artificial pode automatizar atividades cognitivamente repetitivas, a escola precisa olhar para além da transmissão de conhecimento e fortalecer aquilo que não se resume à entrega de respostas. “A sabedoria está em entender o que tem que permanecer e o que tem que mudar”, afirmou o executivo.



A discussão ganhou outra dimensão com Alex Dantas, fundador da Circuit Launch, que apresentou a inteligência artificial como uma transformação mais ampla do que a adoção de novas ferramentas. A chamada revolução da IA interfere em modelos de trabalho, competências e processos de decisão, colocando as escolas diante da necessidade de repensar como preparam estudantes e profissionais para um cenário em rápida transformação.
A pesquisadora Victoria Woo, de Stanford, trouxe uma perspectiva internacional para o debate. Sua participação deslocou a discussão sobre tecnologia para uma questão central: o que acontece com as habilidades humanas quando sistemas de IA passam a executar cada vez mais tarefas que antes exigiam nosso esforço?
A metáfora apresentada por Woo foi direta: “A gente não usa um músculo e, ao não usar, a gente perde a capacidade de usá-lo”. Aplicada à inteligência artificial, a ideia expõe um risco menos evidente da automação: a possibilidade de enfraquecer, pelo desuso, capacidades que a escola justamente deveria ajudar a desenvolver.
Pensamento crítico, tomada de decisão, criatividade, autonomia e julgamento não desaparecem porque as máquinas se tornam mais capazes. Mas podem ser menos exercitados quando ferramentas passam a responder, criar e decidir antes que estudantes e profissionais tenham a oportunidade de fazê-lo. É nesse ponto que a inteligência artificial na educação deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a envolver escolhas sobre formação, gestão e futuro.

Palco IA mostra como a inteligência artificial redefine escola, professor e aprendizagem
A inteligência artificial já deixou de ser uma discussão sobre o futuro para entrar na rotina das escolas. No Palco IA do Bernoulli Reload, duas discussões partiram de experiências concretas para mostrar como a tecnologia vem sendo aplicada ao diagnóstico da aprendizagem, à análise de dados, ao planejamento docente e à gestão escolar. Em comum, os debates reforçaram que a IA amplia capacidades, mas não substitui a intencionalidade pedagógica nem a decisão humana.
Em um dos painéis, Ana Paula Marques Pereira, diretora de Operações Pedagógicas das unidades escolares do Bernoulli, e Roberto Lemos, diretor de Produtos Digitais do Bernoulli, apresentaram ferramentas e experiências já incorporadas ao cotidiano da rede. Diagnósticos de aprendizagem, Radar Enem, CoCria Professor e soluções para gestão apareceram como exemplos de aplicações capazes de acelerar processos, reduzir tarefas operacionais e devolver tempo a gestores e professores.
Ana Paula também defendeu uma mudança de foco no debate sobre inteligência artificial: “A gente já passou da fase de discutir uso ou não da IA em escola. O que a gente precisa discutir agora uso responsável com intencionalidade.” Enquanto Roberto Lemos reforçou que a tecnologia precisa funcionar como infraestrutura para o trabalho educacional, e não como substituta da ação humana.
Ao explicar o desenvolvimento do CoCria Professor, Lemos destacou que a ferramenta foi pensada para reduzir o trabalho operacional sem retirar a autoria docente. “A intencionalidade, a carga cognitiva e o que deve ser aplicado, quem tem que dar a palavra final sempre é o professor”, afirmou. A lógica também orienta as demais soluções apresentadas, nas quais a IA organiza dados e acelera processos, enquanto a decisão final permanece com os profissionais da escola.
Em outro painel, Rafael Martinelli, CTO do Colégio Catamarã, e Rui Lucato, diretor do Grupo Educacional Cedu Verde, ampliaram o debate para o impacto da IA sobre o projeto pedagógico, a cultura institucional e o papel do professor.
Para Martinelli, a questão já não é decidir se a escola utilizará inteligência artificial, mas definir como ela será incorporada à identidade de cada instituição. “A questão da escola nunca será mais, no futuro próximo, se usa ou não IA, mas como eu uso a IA para realizar efetivamente o meu modelo pedagógico”, afirmou. Lucato acrescentou: “A tecnologia é ferramenta, mas a cultura tem que ser desenvolvida”.
As discussões também convergiram sobre o papel do professor. Com a IA assumindo parte das tarefas operacionais, a tecnologia pode liberar tempo para planejamento, mediação e interação com os estudantes. O desafio, portanto, passa menos pelo domínio de ferramentas e mais pela capacidade de definir objetivos, avaliar respostas e tomar decisões pedagógicas com responsabilidade.

Excelência, dados e sucessão orientam a longevidade das escolas no Palco Gestão
No Palco Gestão, dois debates mostraram como cultura, equipes alinhadas, gestão por dados e sucessão se articulam para sustentar resultados e preparar as instituições para o futuro. As conversas reuniram experiências do Bernoulli Educação, Colégio Motiva e Liceu Jardim, com foco na construção de modelos de gestão capazes de combinar desempenho, continuidade e evolução.
Na discussão sobre excelência, Carlos Lagoza, fundador e diretor-geral do Colégio Motiva, defendeu uma cultura que combine expectativa e esforço. Ao relatar a conversa com um aluno que sonhava ingressar no ITA, resumiu: “Seu sonho não pode ser maior do que o esforço.” Para ele, a escola também precisa equilibrar cobrança e motivação: “Eu acho que é fundamental a escola ter leveza, mas também ter foco no resultado.”
Paulo Ribeiro, sócio-fundador e membro do Conselho de Administração do Bernoulli Educação, apontou o alinhamento como base de uma equipe de excelência. “Todos têm que ter o mesmo pensamento, troca de informações, de comunicação, um alinhamento com o objetivo principal de atingir o resultado pedagógico”, afirmou. Nesse modelo, dados de desempenho e satisfação orientam decisões sobre práticas pedagógicas, carga horária, materiais e processos. No Motiva, essa lógica contribuiu para elevar a média da escola de 724 para 869 pontos, segundo Lagoza. “A gente precisa trabalhar, lembra o que eu disse? Gestão de dados”, reforçou.
A tecnologia também apareceu como apoio à aprendizagem e à gestão. Ribeiro citou soluções para planejamento de aulas, correção de redações e tutoria com IA, mas ressaltou que a inovação não substitui a dimensão humana da escola: “A escola é um espaço de relacionamento, aprendizagem.”
Já na discussão sobre continuidade e sucessão, Rodrigo Domingos, do Bernoulli Educação, e Rebeca Fazzani, do Liceu Jardim, apresentaram experiências distintas de transição. Enquanto o Bernoulli estruturou a sucessão ao longo de cerca de cinco anos, com profissionalização da gestão e criação de um conselho, Rebeca vive uma passagem gradual de responsabilidades ao lado dos pais.
Para Rebeca, um dos principais riscos é tentar reproduzir a liderança anterior. “A gente corre um risco muito sério nesse processo de sucessão, de tentar imitar ou ocupar o lugar da pessoa que está saindo”, afirmou. Rodrigo, por sua vez, destacou a importância de preparar progressivamente quem assumirá novas responsabilidades: “Se você acha que tem risco de trocar direto, que é a famosa sucessão gradual, eu acho que o melhor.”
Os dois debates convergiram em um ponto: a longevidade das escolas depende da capacidade de distribuir conhecimento, decisões e responsabilidades. Cultura compartilhada, equipes preparadas, autonomia e sucessão planejada ajudam a preservar o que sustenta a instituição sem transformar sua história em barreira para a mudança.
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