Novo observatório da Unesco reúne países e parceiros como a Fundação Santillana para discutir o uso ético da inteligência artificial e seu impacto real na aprendizagem
A inteligência artificial já entrou nas escolas da América Latina, mas ainda sem a mesma velocidade no debate sobre seus impactos reais na aprendizagem. Enquanto professores e estudantes adotam novas ferramentas de forma acelerada, governos e redes de ensino ainda buscam parâmetros mais claros para garantir que essa transformação tecnológica não aprofunde desigualdades históricas já presentes na educação da região.
Esse cenário motivou a criação do Observatório de Inteligência Artificial na Educação para a América Latina e o Caribe, iniciativa liderada pela Unesco e lançada oficialmente em abril, em Santiago, no Chile. O projeto reúne 33 ministérios da Educação e parceiros estratégicos, entre eles a Fundação Santillana, com a proposta de apoiar políticas públicas, fortalecer a formação docente e orientar o uso ético e responsável da inteligência artificial nas escolas.
A urgência do tema está diretamente ligada aos indicadores educacionais da região. Segundo dados da Unesco, mais de 54% das crianças do 3º ano não compreendem plenamente textos simples, enquanto cerca de 8 em cada 10 estudantes do 6º ano estão abaixo do nível mínimo esperado em matemática. O Pisa 2022 reforça esse quadro ao mostrar que três em cada quatro jovens de 15 anos não atingem o básico em matemática. Para especialistas, introduzir tecnologia sem enfrentar essa base fragilizada pode agravar ainda mais o problema.
Para Luciano Monteiro, diretor-executivo da Fundação Santillana no Brasil, a inteligência artificial carrega esse duplo potencial. “A inteligência artificial pode ampliar desigualdades, mas também pode ser um dos instrumentos mais poderosos para reduzi-las. Tudo depende da intencionalidade pedagógica e da forma como ela entra na escola”, disse. Segundo Monteiro, o risco aparece quando a tecnologia é usada sem critérios éticos, sem preparo docente e sem conexão com objetivos pedagógicos claros.
Menos tela e mais propósito pedagógico
A proposta defendida pela Fundação Santillana dentro do observatório parte de uma lógica diferente da simples digitalização da sala de aula. Segundo Luciano Monteiro, inovação não significa necessariamente mais telas ou mais dispositivos no cotidiano escolar. O foco precisa estar no uso da tecnologia como ferramenta de apoio à aprendizagem e não como substituição da mediação pedagógica.
“Inovação não significa colocar mais telas dentro da sala de aula. Nossa defesa é de uma tecnologia que opere nos bastidores, gerando evidências e apoiando melhores decisões pedagógicas”, destacou. A ideia de “menos tela, mais tecnologia” resume essa visão, em que o livro didático e os conteúdos estruturados continuam centrais, enquanto a inteligência artificial atua como suporte para professores e gestores.
Monteiro explicou que a tecnologia também pode apoiar o estudante fora da sala de aula, com tutores inteligentes que ajudam na revisão de conteúdos e no esclarecimento de dúvidas. “O livro didático continua protagonista. A IA deve servir para personalizar trajetórias, apoiar o professor e oferecer ao estudante mais autonomia, inclusive fora da sala de aula”, ressaltou.
A personalização aparece como um dos principais ganhos possíveis. Em turmas com diferentes níveis de aprendizagem, a IA pode ajudar a identificar necessidades específicas e apoiar trajetórias mais individualizadas. No campo da inclusão, também contribui para ampliar mecanismos de acesso e permanência de estudantes com deficiência ou em situação de maior vulnerabilidade educacional.
Para o professor, o impacto mais relevante está no tempo e na qualidade da intervenção pedagógica. “Quando falamos em inteligência artificial na educação, não estamos falando de substituir o professor, mas de devolver tempo para que ele se dedique ao que realmente importa: ensinar, acompanhar e tomar decisões com base em evidências”, afirmou Monteiro.
Formação docente e coordenação regional no centro do debate
Para Valtencir Maldonado Mendes, chefe de Educação da Unesco para a América Latina e o Caribe, o principal desafio da região não está apenas na regulação tecnológica, mas na formação consistente dos professores. Segundo ele, mais de 55% dos docentes no Brasil e no Chile já utilizam inteligência artificial no ensino, mas a maioria declara não ter preparo suficiente para fazer isso com segurança e responsabilidade.
“Sem enfrentar a crise de aprendizagem que já existe na América Latina, a inteligência artificial não amplia capacidades — ela apenas substitui aquilo que o estudante nunca chegou a desenvolver”, disse. Para Mendes, qualquer política pública sobre IA precisa partir da realidade concreta da aprendizagem e não apenas da oferta de novas ferramentas.
Na avaliação da Unesco, uma política pública bem estruturada não começa pela tecnologia, mas pela pergunta pedagógica. “A pergunta central não é qual ferramenta usar, mas qual problema de aprendizagem queremos resolver. A IA é meio, nunca pode ser o protagonista da política educacional”, reforçou Mendes.
O especialista também aponta que o ponto mais crítico para garantir impacto sistêmico está na valorização docente. “Se existe um nó que precisa ser resolvido primeiro, ele se chama formação docente. Não basta ensinar o professor a usar uma ferramenta; é preciso fortalecer sua autonomia profissional”, destacou. A Estratégia Regional Docente 2025-2030 da Unesco segue justamente essa direção, colocando o professor no centro da transformação educativa.
O observatório nasce para enfrentar também a fragmentação entre os países da região. Hoje, alguns avançam em regulação, outros em formação docente ou em projetos-piloto, mas sem troca sistemática de evidências. A proposta é criar uma arquitetura regional de coordenação capaz de compartilhar experiências e acelerar decisões mais fundamentadas para toda a América Latina.
A Unesco estima que a iniciativa deve beneficiar diretamente cerca de 1,2 milhão de estudantes e 250 mil professores, além de influenciar políticas públicas que alcançam dezenas de milhões de alunos. Para Luciano Monteiro, trata-se de uma oportunidade rara para a região construir um caminho mais consistente. “Nosso desafio é humanizar a tecnologia. A IA precisa estar a serviço da aprendizagem, da equidade e da formação integral, nunca como um fim em si mesma”, afirmou.










