George R. Stein usa a metáfora do salto de paraquedas para defender que a IA na escola só gera valor quando parte de objetivos de aprendizagem, evidências claras e planejamento com intencionalidade pedagógica
Você, como leitor do educador21, já leu na minha coluna do mês passado (e acredito que vivenciou na prática) que a escola continua apresentando desafios de aprendizagem, saúde mental, engajamento e desenvolvimento integral de crianças e jovens. De maneira mais específica, leu que a inovação tecnológica deve estar a serviço da resolução desses desafios e, portanto, a adoção da IA Generativa na educação deve ser direcionada para esse fim.
A minha hipótese aqui é que você, desde que a IA Generativa se tornou um recurso disponível, deve ter buscado conhecimento e suporte para a tomada de decisão em relação ao seu uso nas escolas. Portanto, deve também ter direcionado seus esforços de aprendizagem para a leitura de outras colunas, para a cobertura de eventos como GEduc, Bett Brasil e afins, além de documentos oficiais do MEC, da Unesco e da OCDE e formações na área. Nesta jornada, com certeza, você já se deparou com um princípio fundamental: a IA Generativa deve ser usada com intencionalidade pedagógica (talvez não exatamente com estas palavras).
A intencionalidade pedagógica se conecta imediatamente com a realidade da escola: o planejamento consciente de atividades adequadas para garantir que o aluno aprenda algo. Porém, nem sempre está claro para as escolas quais são os processos para que isso aconteça. Atualmente, com a IA Generativa quase onipresente nos discursos, nas formações e nos aplicativos que chegam às instituições, parece que estamos nos distanciando ainda mais da almejada intencionalidade pedagógica.
A sensação, ao contrário do que propõe Uri Levine no livro “Apaixone-se pelo problema, não pela solução”, é que a grande maioria das escolas está buscando uma finalidade para encaixar a IA Generativa no seu cotidiano, em vez de resolver um problema, ou desafio, existente por meio do uso e da integração responsável dessa tecnologia na prática escolar. Trazendo para o ditado popular: muitas vezes parece que estamos “colocando o carro na frente dos bois”. A IA Generativa está sendo colocada à frente da intencionalidade pedagógica.
A lição que aprendi: o passo para trás
Não existe dúvida de que é necessário usar a IA Generativa com intencionalidade pedagógica. O que existe, sim, é uma dúvida sobre o que é essa intencionalidade na prática.
Talvez parte do motivo pelo qual estamos colocando “o carro na frente dos bois” seja a falta de clareza sobre como estruturar processos para a intencionalidade pedagógica, antes mesmo de pensar na IA Generativa. O conceito é simples, mas a prática e a implementação estruturada nem sempre são. É agora que proponho um “passo para trás”: vamos exemplificar a intencionalidade pedagógica de maneira simples. Para facilitar, usarei uma analogia com a aprendizagem de um esporte de risco: o salto de paraquedas.
A analogia: a escola de paraquedismo
A proposta aqui é pensarmos em uma escola, mas em uma escola de paraquedismo.
Imagine o seguinte: qual o objetivo de aprendizagem de alguém que vai fazer um curso de paraquedismo? Parece óbvio, não é? Aprender a saltar de paraquedas. Mas, ao contrário do que se observa em escolas e faculdades tradicionais, a não aprendizagem desse objetivo acarreta um impacto extremamente negativo e indesejável: em vez de saltar e aterrissar em segurança, o aluno não executa o salto de maneira apropriada e se acidenta.
O que acontece na educação básica e superior é que o risco do “não aprender” não parece tão crítico de imediato. Por isso, usaremos essa analogia para, depois, fazer uma transposição para a realidade escolar.
Para aplicar essa ideia, remeto a um livro clássico: “Understanding by Design”, traduzido para o português como “Planejamento para a Compreensão” (Grant Wiggins e Jay McTighe). De maneira simples, podemos direcionar a intencionalidade pedagógica com base em três pontos principais.
- Definição clara de objetivos de aprendizagem
Ao fazer um curso de paraquedismo, o objetivo tanto do futuro saltador quanto da escola é capacitar o aluno para saltar de maneira segura e chegar ao solo sem intercorrências. Vale notar que a clareza do objetivo de aprendizagem alinha não somente o propósito da instituição, mas também a expectativa do aluno.
Como o risco é muito grande, é necessário ter clareza dos objetivos ao longo de todo o curso, e não apenas na etapa final. Assim, para chegar ao objetivo principal, é preciso que estejam bem explícitos os objetivos parciais que devem ser atingidos. No caso do paraquedismo, existe um método formal (AFF – Accelerated Freefall) que traz tópicos específicos. Dois deles, por exemplo: familiarização e checagem de equipamento; e navegação e pouso (envolvendo aspectos teóricos e práticos).
- Explicitação das evidências de aprendizagem
Como ficará claro para o aluno, para o professor e para a instituição que os objetivos foram atingidos? Logicamente, a evidência final do curso é o salto seguro. Mas não é aceitável depender somente dessa avaliação final: é necessário definir objetivos e evidências intermediárias antes de saltar.
Se o futuro paraquedista não atingir os objetivos intermediários, ele não pode evoluir na jornada até o salto. O aluno deve, por exemplo, ser capaz de verificar a qualidade do equipamento e demonstrar habilidade para planejar as manobras do velame conforme as situações de voo ainda em solo.
- Planejamento e implementação do curso
Quais atividades deverão ser desenvolvidas para possibilitar que o aluno mostre, de forma segura, as evidências de que está atingindo os objetivos parciais? É aqui que, em uma escola de paraquedismo (ou em qualquer outra), se definem as atividades necessárias para alcançar a aprendizagem. É o que caracteriza o curso propriamente dito.
No nosso exemplo: se quero que o aluno saiba checar o equipamento e manobrar o velame, devo planejar as aulas pensando em quais conhecimentos, atividades e interações preciso propiciar para que ele demonstre essas habilidades com total segurança.
Intencionalidade pedagógica sem precisar do paraquedas
Mais do que um trio de pontos a se considerar, essa sequência define uma ordem: primeiro a definição de objetivos; depois a de evidências e meios de avaliação; para só então se definirem as atividades propostas.
Na escola, o caminho do planejamento deve seguir essa mesma lógica:
- Quais objetivos (ou expectativas de aprendizagem) se deseja alcançar;
- Como serão obtidas as evidências de que foram alcançados;
- Somente depois, planejar as atividades e aulas que irão desenvolver os alunos para que demonstrem as evidências necessárias.
Depois do passo para trás, o futuro
O futuro da escola já está presente (foi essa a ideia do título do meu livro “A Escola com a IA Generativa: uma jornada transformadora para um futuro que já chegou”), mas é necessário darmos esse passo para trás para esclarecer e direcionar o uso da IA generativa com intencionalidade pedagógica.
A analogia com a escola de paraquedismo pode parecer extrema: é fato que a não aprendizagem na educação básica pode não ser tão instantânea e brutalmente prejudicial quanto uma queda de paraquedas. No entanto, o uso inadequado da IA generativa pode comprometer de maneira lenta e extremamente prejudicial a capacidade de crianças e jovens prosperarem no amanhã.
A melhor decisão sobre “se e como” usar a IA Generativa só é possível quando existe clareza de quais objetivos de aprendizagem se deseja atingir e de quais serão as evidências a serem observadas para tal. E isso vale para uma atividade específica, para um curso ou para a proposta pedagógica de toda a escola. Quando escrevi Pedagogia de Prompt: inteligência artificial à serviço da aprendizagem (em novembro de 2023), propus oito princípios para direcionar o uso da IA Generativa. O terceiro princípio é “A decisão pelo uso e a escolha dos recursos de IA Generativa deve vir depois de um planejamento estruturado para a aprendizagem.” Atualmente, mais de dois anos passados, ficou evidente que mais do que citar “planejamento estruturado para aprendizagem” ou “intencionalidade pedagógica”, é necessário se ter uma maneira simples e clara de direcionar o planejamento para a aprendizagem.
As decisões responsáveis sobre a permissão de uso, o tipo de uso, a definição de atividades, as tarefas de casa e todas ações e diretrizes institucionais para o uso de IA generativa dependem, fundamentalmente, dessa clareza.
E vamos para o “próximo salto”!

George R. Stein é diretor-fundador da Pedagog.IA – Inovação em Aprendizagem, mentor, palestrante internacional (SXSWEDU e innovationhub.school) e professor visitante da Faculdade de Educação da PUC-SP. Além de autor do livro “A Escola com Inteligência Artificial Generativa: uma jornada transformadora para um futuro que já chegou”, ainda atua como conselheiro da Labor Educacional e do doutorado em Liderança Educacional – MUST University.










