Na Coluna Tecnologia que Humaniza de junho, Guilherme Cintra apresenta três hábitos para orientar decisões pedagógicas sobre IA na escola sem comprometer a aprendizagem e a formação dos estudantes
Na coluna anterior, “Automatização na escola: um mapa prático para decisão”, propus um mapa para a decisão pedagógica sobre Inteligência Artificial (IA) na escola. Três eixos (capacidade, propósito e consequência) e dez fatores que ajudam o gestor a localizar onde está, em cada decisão, o que pesa de verdade. O mapa serve para diagnóstico. Permite identificar, diante de uma situação concreta, qual eixo está em jogo, qual fator está em desequilíbrio e o que precisa entrar na conversa antes da decisão.
Mas o mapa só organiza o pensamento. No cotidiano, o professor tem uma resposta a dar a um aluno, a coordenação precisa orientar um professor, a direção precisa fechar uma política. Não há tempo para análises profundas antes de cada microdecisão. O objetivo não é consultar o mapa toda vez, é internalizá-lo a ponto de não precisar mais dele.
Por isso, esta coluna e a próxima dão o passo seguinte: propõem seis hábitos mentais, regras de bolso construídas a partir do mapa, para apoiar as decisões do dia a dia sobre quando preservar fricção cognitiva e como aproveitar o melhor da IA, sem o que tem se chamado de abdicação cognitiva (tradução livre de cognitive surrender, quando deixamos a IA pensar por nós).
Hábito mental aqui não é regra rígida. É princípio operacional, atalho que organiza decisões repetidas em direção consistente. Cada um dos seis hábitos enfrenta uma tensão concreta e específica que a IA introduz na escola, e nenhum deles, sozinho, resolve a equação. Juntos, eles sustentam a busca contínua por Fricção Cognitiva Ótima (FCO) em cada decisão. A abdicação cognitiva, no sentido em que importa para a escola, é o que acontece quando essa busca se interrompe: quando o hábito de calibrar dá lugar à aceitação automática do que a IA entrega. As seis heurísticas, lidas em conjunto, são formas de manter a busca viva e formar um vocabulário comum para a discussão pedagógica na era da IA.
Os seis são:
- Para terceirizar, é necessário ser capaz de avaliar;
- Para aprender, é necessário fazer;
- Para formar um ser humano, é necessário preservar o que o constitui;
- Quanto maior o custo do erro, maior a fricção necessária;
- Fluência é diferente de acerto;
- O que era ótimo ontem pode não ser hoje.
Esta coluna trata das três primeiras. As outras três ficam para a próxima.
Como ler o que vem a seguir
Cada um dos seis hábitos é apresentado em três movimentos. Começa com uma pergunta de partida, uma reflexão mais abstrata que abre o problema que ele existe para resolver. Em seguida, o texto desenvolve a minha versão da resposta, mostra de onde vem e o que traz de prático para a decisão pedagógica. Termina com uma pergunta para transformar em hábito, curta e fácil de lembrar, formulada para circular na equipe escolar, ser feita em reuniões de planejamento e ser repetida até virar mentalidade.
A pergunta de partida é para refletir. A pergunta final é para operar. O texto no meio é a ponte.
Heurística 1: para terceirizar, é necessário ser capaz de avaliar
Pergunta de partida: vale a pena aprender alguma coisa em um mundo de IA na ponta dos dedos? Precisamos saber?
A resposta é, sem dúvidas, sim, e ela vem em camadas.
A primeira é a mais simples. Modelos erram. Alucinam. Isso não é falha de uso, é característica técnica da ferramenta. A segunda camada é que esses erros são ocultos. Diferente de uma calculadora, que ou dá a resposta certa ou para de funcionar, a IA generativa entrega o erro com a mesma cara do acerto. Quem não sabe o conteúdo não tem como detectar. A terceira camada é que os modelos erram de forma eloquente. A fluência e a confiança do texto são descoladas da correção. O erro chega convincente, articulado, bem-escrito.
E a quarta, talvez a mais importante para a escola, é que esses modelos carregam visões de mundo. O mundo não é exato. A maior parte do que importa para a formação de uma pessoa, da análise histórica à interpretação literária, da leitura de uma notícia ao julgamento ético de um caso, tem nuance, opinião, recorte. Os modelos carregam em si seleções de dados, escolhas de treinamento, critérios de ajuste. E é aqui que vale uma distinção fundamental: a IA aparenta ser um oráculo neutro, uma entidade que tudo sabe, mas foi construída por humanos, treinada com dados escolhidos por humanos, e ajustada com critérios definidos por humanos. Os vieses, as omissões e os pontos cegos não somem porque a interface é fluente. Eles ficam menos visíveis. É essa aparência de neutralidade técnica que torna o senso crítico mais necessário, não menos.
A consequência pedagógica é direta. É preciso desenvolver capacidade de avaliação crítica, e isso fica mais importante (não menos) em um mundo com IA. Porque agora o input a avaliar não vem só de fontes humanas identificáveis, vem também de uma máquina fluente que mistura camadas de erro com camadas de opinião sem dar sinal de aviso.
A literatura recente já mede o problema. Um estudo de 2025, com mais de 600 participantes, encontrou correlação negativa significativa entre uso frequente de ferramentas de IA e habilidades de pensamento crítico, mediada por aumento do descarregamento cognitivo (cognitive offloading). E uma pesquisa da própria Anthropic, criadora do Claude, analisou mais de 500 mil interações reais de estudantes universitários com a IA e identificou que, em quase metade dos casos, os alunos pediam respostas diretas com mínima interação reflexiva, o que pode comprometer o desenvolvimento de habilidades fundamentais.
É por isso que a primeira heurística da série precisa operar como porta de entrada. Sem ela, nenhuma das outras se sustenta.
A pergunta que opera a heurística: sei avaliar o que vou receber?
Heurística 2: para aprender, é necessário fazer
Pergunta de partida: se a IA pode fazer melhor e mais rápido, por que ainda assim é preciso fazer?
A primeira heurística estabeleceu o porquê: é preciso aprender, há propósito formativo em construir capacidade de avaliação. A segunda enfrenta o como.
A pergunta de partida confunde duas coisas: o que a tarefa entrega e o que a tarefa forma. Em muitas atividades profissionais, o resultado é o que importa. Se a IA escreve um e-mail bom em dois minutos, ótimo. Mas em educação a equação é outra. O resultado da redação não é o texto, é a capacidade de escrever. O resultado de resolver dez problemas de matemática não é o gabarito preenchido, é a capacidade de pensar matematicamente. O texto e o gabarito são consequências visíveis de algo invisível: o exercício cognitivo que constrói a capacidade.
O cientista cognitivo Daniel Willingham resume em uma frase que vale repetir: a memória é resíduo do raciocínio. O que fica não é o que se leu, viu ou ouviu. É o que se pensou, fez, decidiu, errou e corrigiu. Quando a IA faz no lugar, o resíduo desaparece. Sobra o produto, falta a aprendizagem.
Por isso a heurística não é “evite IA em atividades de aprendizagem”. É mais precisa que isso. Se o objetivo da atividade é desenvolver uma capacidade, a fricção do processo é o mecanismo da aprendizagem, e portanto não pode ser terceirizada. A IA pode entrar antes (preparando para a tarefa), depois (ajudando a refletir sobre o que se fez) ou ao lado (oferecendo contraste, dúvida, contraponto). O que ela não pode fazer é o próprio exercício que existe para ser feito.
Há uma armadilha frequente na escola hoje: confundir “o aluno entregou” com “o aluno aprendeu”. A IA torna essa confusão fácil. O texto chega, a tarefa chega, o gabarito chega. A pergunta que sobra é: a capacidade chegou junto?
A pergunta que torna heurística operacional: essa atividade desenvolve o aluno, ou só cumpre tabela?
Heurística 3: para formar um ser humano, é necessário preservar o que o constitui
Pergunta de partida: que atividades formam quem somos, ao ponto de não terceirizá-las, mesmo que a IA possa fazê-las melhor?
Quando minha filha nasceu, entrei em um processo de escrita contínua. Estava refletindo sobre o que significava, para mim, ser pai. Qual a relação que eu queria com ela, minhas ansiedades, meus medos. No fim, virou um livro com design, escrita, fotos e até desenhos à mão, meus. Um presente para a minha pequena, mas, principalmente, para mim mesmo. Essas reflexões me constituíram. Me permitiram criar uma relação com a minha filha em um processo totalmente diferente do da minha esposa, que passava por uma experiência intensamente biológica.
Esse é o tipo de processo cognitivo que se torna emocional e, eventualmente, identitário. Que nunca me vejo terceirizando nenhum pingo. Cada vez mais, outros textos, incluindo esse aqui, têm tido de minha parte mais colaboração com IA em diversos momentos. Mas há um núcleo de atividades, em qualquer vida, que precisa ficar de fora dessa colaboração. Não por princípio defensivo. Por reconhecimento de que algumas tarefas não são instrumentais. Elas formam quem a pessoa é.
Recentemente, ouvi de um dos cofundadores da Anthropic que ele faz com que os filhos escrevam diários à mão. A frase ficou comigo. Não é uma proibição de IA, é uma preservação consciente de um espaço de construção de identidade pessoal, independente da máquina. E o efeito vai além da criança. Ao interagir com as IAs e com esse espaço protegido, ela conseguirá distinguir, ao longo da vida, entre o que é dela e o que é do outro. Mesmo quando “o outro” é uma inteligência artificial, fruto da inteligência humana coletiva moldada em artefatos tecnológicos por empresas bilionárias.
Vale a pena nomear duas formas distintas pelas quais esse valor opera, porque elas se reforçam mas funcionam por mecanismos diferentes.
A primeira é o valor que damos ao que é feito por humanos, observável em mil contextos do cotidiano. Pagamos mais por pão de padaria. Valorizamos o presente feito à mão. O xadrez, hoje jogado em nível sobre-humano pela IA, está mais vivo do que nunca, justamente porque preferimos ver pessoas jogando. Não é a primeira vez que lidamos com isso: a industrialização não matou o artesanal, deslocou seu lugar, tornou mais raro e mais precioso o feito por humanos. A IA não vai apagar esse fenômeno. Vai, no máximo, deslocá-lo de novo. É algo que se reconhece quando se vê, independentemente da posição que cada um tenha sobre por que ele existe.
A segunda forma é instrumental, e talvez mais relevante para a escola. Albert Bandura, psicólogo cuja teoria da autoeficácia é uma das mais influentes da psicologia da educação, identificou que a percepção que uma pessoa tem da própria capacidade se constrói por quatro vias: a experiência direta de executar e completar uma tarefa, a observação de outros semelhantes tendo sucesso, a persuasão verbal crível e os estados emocionais e fisiológicos durante a atividade. A experiência direta é a fonte mais robusta.
As ideias de Bandura têm mais de cinco décadas de discussão e solidificação. A adaptação para a era da IA exige uma hipótese de trabalho. Parece evidente que, se o aluno nunca exercitou capacidades sem mediação de uma ferramenta que faz por ele, ele não tem como saber o que é dele e o que é da ferramenta. Não tem base de comparação interna. Pode receber feedback externo ou observar colegas, mas a fonte mais sólida da percepção da própria capacidade, a experiência direta, fica enfraquecida. E é justamente essa fonte que sustenta, ao longo da vida, a capacidade de calibrar quando a IA está ampliando o que a pessoa já consegue fazer e quando está substituindo o que ela nunca chegou a desenvolver.
Na escola, essa heurística pede a tradução mais delicada das seis. Estamos falando da formação de identidade de pessoas que ainda estão se constituindo, e que foram entregues à escola por famílias que confiaram nela. Decidir quais atividades preservar é decidir, em parte, o que aquele aluno terá tido a chance de se tornar. Escrever um diário, sustentar uma argumentação, formar uma opinião a partir de evidências contraditórias, lidar com um colega que pensa diferente, criar algo que ninguém pediu. Há um conjunto de atividades, em cada etapa da escolarização, que constitui mais do que ensina. A pergunta pedagógica não é se essas atividades poderiam ser feitas com IA. É se, ao realizá-las dessa forma, perde-se uma oportunidade de construção de identidade.
Para mim, esta é talvez a heurística mais subestimada das seis. Porque sua perda é silenciosa. O aluno entrega, o trabalho fica bom, ninguém percebe o que deixou de se formar. E só anos depois, quando a pessoa formada precisar se reconhecer em um mundo em que tudo pode ser produzido por uma máquina, é que vai sentir falta dos lugares interiores que não foram cultivados.
A pergunta para transformar em hábito: quem o aluno deixa de ter a oportunidade de se tornar, se a IA fizer isto por ele?
Até a próxima
Até aqui tratamos do que exige capacidade de avaliação, do que pede que se faça para que se aprenda, e do que precisa ser preservado para que o estudante se forme como pessoa. Na próxima coluna, trataremos do custo do erro e da fricção necessária, do viés que nos faz confiar em um texto bem-escrito, e da obsolescência rápida das decisões em um terreno que se move.
Até lá, fica um convite: experimente fazer, em uma reunião desta semana, uma das três perguntas para transformar em hábito que apareceram aqui. É assim que mapa vira caminho.

Guilherme Cintra é Diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann. Economista formado pela PUC-RJ, iniciou sua trajetória na educação aos 18 anos como professor de matemática para jovens de comunidades próximas à universidade. Atuou em fundos de investimento e tornou-se sócio do Gera, focado em educação. No Grupo Eleva, foi diretor de unidade escolar, liderou uma rede de escolas e cofundou o Pátio, área de novos negócios (hoje Grupo Salta). Trabalhou na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro como Coordenador de Inovação e Tecnologia, onde criou os Ginásios Experimentais Tecnológicos, a Olimpíada Carioca de Matemática e sistemas de gestão escolar. Atualmente, dedica-se a escalar qualidade educacional por meio da tecnologia em estados e municípios do país.










