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Resultado mostra avanço insuficiente na aprendizagem e amplia o debate sobre infraestrutura, gestão pública e parcerias com o setor privado

O Ideb 2025 no ensino médio expõe um dos principais gargalos da educação básica brasileira: nenhum dos 27 estados atingiu a meta de 5,2 pontos estabelecida para a etapa. Divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 5 de agosto, o resultado mostra avanço de 4,3 para 4,5 pontos desde 2023, mas mantém o ensino médio abaixo da meta pelo menos desde 2013.

A etapa concentra 7,3 milhões de matrículas em cerca de 30 mil escolas e apresenta desempenho distinto do observado nas demais fases da Educação Básica. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o país alcançou 6,3 pontos, acima da meta de 6,0. Já no ensino médio, até o Paraná, líder nacional pela terceira edição consecutiva, ficou abaixo do objetivo, com 5,1 pontos.

O resultado ajuda a explicar por que o ministro da Educação, Leonardo Barchini, classificou o ensino médio como o “maior desafio” da educação básica brasileira. O problema, contudo, não está apenas no indicador final. A evolução das taxas de aprovação ocorreu em ritmo muito superior ao avanço da aprendizagem, criando uma distância que desafia redes de ensino e gestores.

Nas últimas duas décadas, a aprovação no ensino médio passou de aproximadamente 70,6% para 94,3%. A proficiência, entretanto, não acompanhou a mesma trajetória. Segundo dados tratados pelo Todos Pela Educação, apenas 7,3% dos estudantes concluem a etapa com aprendizagem adequada em Matemática. Quando o recorte considera somente a rede pública, o percentual cai para 3,6%.

Ideb 2025 mostra distância entre fluxo e aprendizagem

A composição do Ideb ajuda a entender essa contradição. O índice combina a taxa de aprovação com o desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática. Por isso, a melhora do fluxo escolar contribui para elevar o resultado, mas não significa, isoladamente, que os estudantes estejam aprendendo no mesmo ritmo.

Durante a apresentação dos resultados, Manuel Palácios, presidente do Inep, foi questionado sobre a possibilidade de o avanço das aprovações estar distorcendo a leitura do indicador. O dirigente afirmou que o conjunto de evidências disponível “não sugere manipulação” de resultados pelas redes de ensino.

Leonardo Barchini, ministro da Educação, adotou uma leitura igualmente cautelosa ao analisar a relação entre fluxo e proficiência. “Temos de olhar detidamente esses dados, mas a melhoria do fluxo veio acompanhada da melhora da proficiência em termos gerais”, disse. Ainda assim, o ministro reconheceu que o país enfrenta uma nova etapa do desafio educacional.

Segundo Barchini, acesso e fluxo escolar representam dois gargalos históricos que avançaram nas últimas décadas, mas a aprendizagem continua como o próximo obstáculo. “Chegou a hora de um novo salto para o futuro, que é a melhoria da aprendizagem”, afirmou. A avaliação coloca pressão sobre políticas capazes de produzir resultados dentro da sala de aula, e não apenas sobre indicadores de permanência e aprovação.

A diferença entre as redes reforça a dimensão do problema. O ensino médio público encerrou 2025 com Ideb de 4,3, enquanto a rede privada alcançou 5,8. A distância de 1,5 ponto é a maior entre as etapas avaliadas e evidencia como as condições de oferta continuam associadas aos resultados educacionais.

Para Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, os resultados de 2025 representam avanços, mas também confirmam que o ritmo de progresso desacelerou nas etapas finais da Educação Básica. O cenário municipal mostra uma evolução importante: o número de cidades com Ideb abaixo de 5 caiu de 4.410, em 2005, para 442 em 2025.

Kátia Schweickardt, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, destacou, porém, que a melhora não ocorreu de maneira uniforme. Cerca de 70% dos municípios que ainda estão abaixo de 5 registraram algum avanço no período, “embora em um ritmo inferior ao projetado pelas metas do Plano Nacional de Educação”.

Infraestrutura entra no debate sobre o ensino médio

A infraestrutura aparece nesse cenário como um dos fatores que podem limitar as condições de aprendizagem. Estudos reunidos pelo Todos Pela Educação relacionam o desempenho e a permanência no ensino médio a um conjunto de fatores, entre eles condições físicas das escolas, renda familiar e desengajamento curricular. A discussão sobre como financiar e administrar essa estrutura ganhou força com a expansão das parcerias público-privadas.

Levantamentos do setor citados pela revista Veja indicam que o número de projetos de PPPs educacionais em estruturação no Brasil passou de cerca de 57, em 2023, para mais de 150 atualmente. O movimento acompanha uma tentativa de retirar da gestão escolar parte das tarefas operacionais ligadas à manutenção dos prédios e dos serviços.

Minas Gerais concentra atualmente uma das maiores iniciativas desse tipo. Em março de 2026, o fundo IG4 BTG Pactual Health Infra venceu, na B3, o leilão da PPP de infraestrutura escolar do estado. O contrato prevê investimento estimado em R$ 5,1 bilhões ao longo de 25 anos e contempla 95 escolas de 34 municípios, alcançando cerca de 70 mil estudantes.

A proposta prevê reforma, manutenção e operação de serviços não pedagógicos, como limpeza, segurança e fornecimento de água, energia e gás. O Estado mantém sob sua responsabilidade a gestão pedagógica, o currículo e a contratação de professores. Ao apresentar o projeto, Rossieli Soares, secretário de Educação mineiro, classificou a iniciativa como “a maior ação do tipo no Brasil” e afirmou que ela “pode ser um modelo para outras unidades de ensino, trazendo melhorias significativas em infraestrutura enquanto nossos profissionais se dedicam integralmente ao ensino”.

Para Ivan Pereira, CEO da Mind Lab, a divisão entre operação e atividade pedagógica é justamente um dos pontos centrais das PPPs educacionais. “As escolas continuam públicas. O Estado mantém o controle pedagógico e contratual. O que se terceiriza é a operação da infraestrutura, e não o ensino. O programa político pedagógico da rede tem que se manter como uma questão estratégica do governo”, avaliou o executivo.

A questão que permanece para as redes, entretanto, é se a melhoria da estrutura conseguirá produzir efeitos mensuráveis sobre a aprendizagem. Uma escola reformada, com serviços mais eficientes e melhores condições físicas, pode criar condições mais favoráveis para o trabalho pedagógico, mas não substitui políticas de formação docente, currículo, avaliação e acompanhamento da aprendizagem.

PPPs precisam responder ao desafio da aprendizagem

O próprio setor reconhece que infraestrutura não resolve, sozinha, o problema revelado pelo Ideb 2025. Ivan Pereira resume essa mudança de perspectiva ao comparar o modelo atual com a lógica tradicional de investimentos físicos. “Durante décadas, o modelo dominante de PPP educacional era construir, reformar e manter escolas. Eram ‘projetos de tijolos e cimento’. Esse arranjo resolve problemas de infraestrutura, mas deixa uma pergunta em aberto: os alunos estão de fato aprendendo mais?”, disse.

A escala do investimento necessário também ajuda a dimensionar o argumento. Segundo Pereira, a expansão das condições necessárias para a educação integral demandaria aproximadamente R$ 800 bilhões. O executivo defende que contratos de longo prazo podem reduzir ciclos burocráticos e políticos, mas associa o modelo a um objetivo que ultrapassa a eficiência administrativa.

“Não é só uma questão de fazer o melhor negócio possível. Se queremos mexer na ponta da desigualdade e melhorar o futuro do país, esse é o vetor de atuação”, avaliou Pereira. A afirmação coloca a infraestrutura dentro de uma agenda mais ampla, na qual o critério de sucesso deixa de ser apenas a entrega do serviço contratado.

Para gestores públicos, esse é o ponto mais relevante do debate. O Ideb 2025 mostra que ampliar aprovação não basta para garantir aprendizagem e que as desigualdades entre redes continuam expressivas. Por isso, investimentos físicos e contratos de infraestrutura precisam ser avaliados também pela capacidade de criar condições concretas para que professores ensinem e estudantes aprendam.

A próxima edição do Ideb será divulgada em 2027. Até lá, projetos como o de Minas Gerais estarão em execução e poderão começar a produzir evidências sobre os efeitos de contratos de longo prazo na rotina escolar. O desafio será acompanhar se a melhoria das condições físicas chegará também aos indicadores de proficiência. O Ideb 2025 no ensino médio recoloca, portanto, uma questão que não pode ser resolvida por um único tipo de política: infraestrutura, financiamento, gestão e parcerias podem melhorar as condições de oferta, mas o indicador só avançará de maneira consistente quando essas condições se converterem em aprendizagem efetiva.

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