Skip to main content

Dia aberto por Manuir Mentges no GEduc 2026 destacou inovação educacional como cultura institucional, antecipando debates para os 25 anos do GEduc em 2027

A inovação educacional como eixo estratégico ganhou centralidade no encerramento do GEduc 2026, ao sintetizar discussões que atravessaram toda a programação do evento. No terceiro e último dia, 27 de março, lideranças educacionais foram provocadas a repensar não apenas práticas pedagógicas, mas a forma como instituições estruturam cultura, gestão e aprendizagem diante de um cenário de rápidas transformações.

A palestra “Inovação como cultura e estratégia”, conduzida pelo irmão Manuir Mentges, reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PURS), ofereceu um direcionamento claro para esse movimento ao evidenciar que a inovação educacional não pode ser tratada como ação pontual, mas como um processo sistêmico, intencional e integrado ao propósito institucional. Ao apresentar o case da PUCRS, o reitor destacou que o desafio contemporâneo da educação está em transformar conhecimento em impacto real.

“Estamos em um país que produz muita ciência, mas que ainda tem dificuldade de transformar esse conhecimento em soluções, serviços e inovação. Esse é o paradoxo que precisa mobilizar todos nós”, afirmou Mentges, ao relacionar a produção acadêmica à competitividade global e à necessidade de maior articulação entre educação, mercado e sociedade.

Nesse contexto, a inovação educacional é apresentada como resultado de uma arquitetura institucional que conecta currículo, pesquisa, extensão e ecossistemas de inovação. Para o reitor, o ponto de partida está na intencionalidade pedagógica. “O que não está no currículo tem grande chance de não acontecer. É no currículo que se define o tipo de formação, de experiência e de impacto que queremos gerar”, destacou, ao reforçar o papel estruturante das decisões acadêmicas.

A experiência da universidade mostra que a inovação educacional se sustenta quando há integração entre diferentes atores e dimensões. A articulação entre universidade, empresas, governo e sociedade civil aparece como base para a construção de soluções relevantes, enquanto a formação dos estudantes passa a considerar não apenas conteúdos, mas competências, propósito e capacidade de intervenção na realidade.

“Reimaginar a educação é, acima de tudo, reimaginar futuros. E isso exige formar líderes capazes de gerar impacto, conectar conhecimento e transformar territórios”, afirmou Mentges, ao apresentar iniciativas como o laboratório interdisciplinar de empreendedorismo e inovação, responsável por integrar diferentes áreas e estimular uma cultura institucional orientada à inovação.

Ao longo da apresentação, o reitor também destacou que inovar exige lidar com incertezas e desenvolver resiliência como competência estratégica. “Inovar é se planejar para o previsível e se preparar para o improvável”, afirmou, ao defender que instituições educacionais precisam construir modelos capazes de responder a cenários complexos sem perder consistência e propósito.

A reflexão ganha ainda mais relevância ao projetar o futuro do próprio evento. Em 2027, o GEduc completa 25 anos e já sinaliza uma programação ainda mais orientada a temas como inovação educacional, liderança e transformação da aprendizagem, consolidando-se como espaço de articulação estratégica para o setor.

Ao encerrar sua fala, Mentges reforçou um ponto que atravessa todo o debate contemporâneo: a inovação educacional só se sustenta quando construída de forma colaborativa. “Sozinhos, não conseguimos alcançar a complexidade dos desafios que temos. É na colaboração que criamos soluções e estratégias capazes de transformar a educação”, disse, sintetizando a principal mensagem do encontro.

Foto: divulgação/educador21

Competências híbridas e IA na educação redefinem o papel do professor

A discussão sobre competências híbridas e IA na educação ganha contornos mais concretos quando sai do campo conceitual e entra nas decisões práticas das escolas. Foi esse o movimento observado na palestra “Humanos e tecnológicos: a nova arquitetura das competências do futuro”, que reposicionou o debate ao desmontar um pressuposto ainda presente em muitos modelos educacionais: o de que formar para o pensamento lógico é suficiente para preparar estudantes para o futuro.

Ao questionar essa base, Bruno Lyra, diretor Administrativo Financeiro no Colégio Iemp, trouxe uma leitura que impacta diretamente a gestão pedagógica. “Não somos seres racionais que sentem, mas seres emocionais que aprendem a pensar. Ignorar isso é estruturar a escola desconectada da forma como as pessoas realmente aprendem e tomam decisões”, disse o palestrante para deslocar o foco da escola para uma formação que considera comportamento, tomada de decisão e contexto.

Para gestores, essa mudança implica revisar não apenas o que se ensina, mas como se estruturam experiências de aprendizagem em ambientes cada vez mais complexos e imprevisíveis. Esse reposicionamento se torna ainda mais estratégico quando conectado ao uso de tecnologia.

Ao afirmar que “o celular não está proibido na escola; o que está proibido é não utilizá-lo com intencionalidade pedagógica”, Lyra evidenciou um ponto sensível para a gestão: o problema não está na presença da tecnologia, mas na ausência de diretriz institucional para seu uso. Isso exige das escolas mais do que permissões ou restrições — exige política pedagógica clara, formação docente contínua e coerência entre discurso e prática.

A discussão ganhou uma dimensão ainda mais estratégica com a contribuição de Guilherme Goular, diretor executivo no Iemp, ao introduzir as competências híbridas como eixo estruturante da formação contemporânea. “Como vamos nos manter relevantes em um mundo que muda tão rápido que não dá tempo nem do café esfriar? Não é mais sobre responder às mudanças — é sobre antecipá-las”, disparou.

Sua análise evidenciou que a velocidade das transformações já supera a capacidade tradicional de adaptação das instituições, pressionando gestores a desenvolverem leitura de cenário e capacidade de antecipação, e não apenas respostas reativas às mudanças. Ao aprofundar esse diagnóstico, Goular apontou uma divisão crescente no setor educacional entre instituições que apenas consomem tecnologia e aquelas que constroem com ela.

Essa distinção passa a definir posicionamento estratégico, capacidade de inovação e relevância no mercado, especialmente em um cenário em que diferenciação se torna um fator crítico de sustentabilidade institucional. “Hoje está todo mundo usando tecnologia, mas poucos estão construindo com ela. E essa diferença vai definir quem lidera e quem apenas acompanha o mercado”, afirmou Goular.

O painel avançou para uma reflexão crítica com a contribuição de Alan Jhones, gerente de Relacionamento e Novos Negócios no Sinepe-MG, ao abordar os riscos do uso acrítico da inteligência artificial. Sua análise trouxe um alerta direto para gestores: sem repertório e pensamento crítico, a tecnologia pode ampliar erros e fragilizar o processo de aprendizagem, criando uma falsa sensação de domínio por parte dos estudantes.

Para a gestão educacional, isso implica revisar práticas avaliativas, metodologias e a própria cultura institucional, considerando que a IA já executa com mais eficiência tarefas baseadas em repetição. “Se for para formar repetidores, a máquina faz melhor. A escola precisa formar quem interpreta, questiona e toma decisão”, disparou o gerente.

A discussão sobre IA na educação se aprofundou na palestra “IA como parceira do professor na personalização da aprendizagem e no redesenho da experiência do aluno”, conduzida por André Godoi, educador, pesquisador e coordenador de curso na Fiap. O especialista abordou a personalização da aprendizagem como uma das principais possibilidades abertas pelo uso estratégico da tecnologia.

Diferentemente do painel anterior, sua abordagem focou na aplicação prática e nos caminhos concretos para implementação dentro das instituições. “A IA permite sair da lógica da turma e olhar para cada estudante como único. Mas isso exige estrutura, dados e intenção; não acontece por acaso”, afirmou o pesquisador.

Ao tratar da personalização, Godoi destacou que o avanço não está apenas na tecnologia, mas na capacidade institucional de reorganizar a experiência educacional. Isso envolve desde o uso de dados até a adaptação de metodologias e conteúdos, exigindo planejamento estratégico e investimento consistente por parte das escolas.

Ao mesmo tempo, chamou atenção para mudanças já perceptíveis no comportamento dos alunos, que passam a utilizar a IA como ferramenta de validação e confronto dentro da sala de aula. Esse movimento exige uma nova postura docente e reforça o papel do professor como mediador e curador do conhecimento, elevando o nível de complexidade da prática pedagógica. “Não é sobre dar respostas prontas, mas sobre desenvolver competência junto com a IA. Quem não entender isso perde relevância em sala de aula”, pontuou Godoi.

Nesse cenário, a síntese que emerge para gestores é clara: a inteligência artificial não substitui o professor, mas redefine profundamente seu papel e o modelo escolar. Mais do que adotar ferramentas, será necessário estruturar intencionalidade pedagógica, desenvolver pensamento crítico e integrar competências humanas e tecnológicas de forma consistente, em um movimento que exige clareza estratégica e capacidade de execução institucional.

Modelos acadêmicos do amanhã: entre o abismo e o legado

Na palestra “Modelos acadêmicos do amanhã”, Fabio Righetto provocou gestores a reposicionarem o olhar sobre o futuro da educação. Logo na abertura, ele desmontou a expectativa de previsibilidade e reforçou que o exercício proposto não é sobre tendências consolidadas, mas sobre incertezas estruturais que já impactam decisões no presente.

“Esse salto no abismo é um salto para o desconhecido. E o frio na barriga não é um problema, é um sinal de que estamos fazendo certo”, avisou o especialista, que atua no Centro Universitário Faap.

A partir de sua trajetória no desenvolvimento de produtos, Righetto estabelece um paralelo direto com o desafio das instituições de ensino. Criar soluções para um público que ainda não existe plenamente, em um mercado que ainda está se formando, exige operar sem garantias. Ainda assim, é exatamente esse o tipo de decisão que passa a ser exigido das lideranças educacionais.

“A gente cria para pessoas que não conhece, para um futuro que não existe. E, ainda assim, precisa tomar decisões hoje”, frisou, numa reflexão que ganha densidade estratégica. O risco não está apenas em errar ao tentar inovar, mas em permanecer ancorado em modelos que já não respondem à complexidade atual.

Para o especialista, insistir em leituras lineares da realidade pode comprometer a capacidade de antecipação das instituições. “Se a gente não fizer esse exercício, tende a olhar o presente com o conhecimento do passado”, alertou.

Ao mesmo tempo, Righetto afastou a ideia de ruptura radical. O ponto central não é descartar o que foi construído, mas desenvolver maturidade para distinguir o que deve ser preservado, adaptado ou superado. Para gestores, isso significa equilibrar legado e transformação, reconhecendo que inovar não é começar do zero, mas tomar decisões mais conscientes diante de um cenário onde ninguém tem respostas definitivas.

O educador21 é apoiador e parceiro de produção de conteúdo do GEduc. Lado a lado com a organização do evento, trazemos informações de bastidores, tendências e debates relevantes às lideranças educacionais que participarão do congresso. Você pode acompanhar diretamente no Hub de Coberturas, no portal, e também pelas nossas redes sociais. Nos vemos no GEduc 2027.

Compartilhe: