Na Coluna Formação de Professores de abril, Amábile Pacios analisa como a inteligência artificial passa a integrar as licenciaturas e redefine a preparação de futuros docentes
Em março, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou um parecer que recomenda a inclusão de conteúdos relacionados à inteligência artificial (IA) na formação inicial de professores no Brasil. A medida ainda precisa ser homologada pelo Ministério da Educação (MEC) para se tornar normativa, mas já sinaliza uma mudança relevante na forma como as licenciaturas deverão abordar o uso de tecnologias emergentes na educação.
A proposta surge em um momento em que ferramentas de inteligência artificial — especialmente as chamadas IA generativas — passaram a fazer parte do cotidiano de estudantes e professores. Plataformas capazes de produzir textos, resolver exercícios, gerar imagens ou organizar informações em poucos segundos tornaram-se acessíveis e amplamente utilizadas no ambiente educacional.
Diante dessa realidade, o entendimento que começa a se consolidar entre formuladores de políticas educacionais é de que a formação de professores precisa acompanhar as transformações tecnológicas que já estão presentes nas salas de aula.
A decisão do CNE não pretende transformar professores em especialistas em tecnologia, nem introduzir uma formação puramente técnica. O objetivo é que os futuros docentes compreendam como essas ferramentas funcionam, quais são seus limites e de que maneira podem ser utilizadas pedagogicamente.
Nos últimos dois anos, a inteligência artificial passou a ocupar espaço crescente no debate educacional. Desde o lançamento de plataformas de IA generativa em larga escala, em 2023, redes de ensino e universidades têm discutido como lidar com o uso dessas ferramentas por estudantes e como incorporá-las de forma responsável ao processo educativo.
Nesse contexto, a formação inicial de professores aparece como um ponto estratégico. Sem preparo adequado, docentes podem enfrentar dificuldades para orientar estudantes sobre o uso crítico dessas tecnologias ou para lidar com desafios como autoria de trabalhos, confiabilidade das informações e uso ético de sistemas automatizados.
A inclusão do tema nas licenciaturas busca justamente responder a essas questões. Mais do que ensinar a utilizar ferramentas específicas, a proposta aponta para o desenvolvimento de competências de análise, avaliação e mediação pedagógica do uso da tecnologia.
A discussão também envolve aspectos éticos importantes. A inteligência artificial levanta questões relacionadas ao uso de dados, à transparência dos algoritmos e à possibilidade de reprodução de vieses presentes nas bases de treinamento das ferramentas. Professores precisarão orientar estudantes sobre essas dimensões, ajudando-os a desenvolver uma postura crítica diante da tecnologia.
Outro desafio será a forma como esse conteúdo será integrado aos currículos das licenciaturas. A introdução de novos temas em cursos que já possuem uma carga formativa extensa exige cuidado para evitar sobreposição ou fragmentação. A tendência mais consistente é que a inteligência artificial seja trabalhada de forma transversal, dialogando com disciplinas de didática, avaliação e metodologias de ensino.
Se homologada pelo MEC, a recomendação do CNE deverá orientar a atualização dos currículos das licenciaturas nos próximos anos. A mudança não se dará de forma imediata, pois as instituições de ensino superior precisam revisar seus Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) e adequar suas matrizes curriculares.
Mais do que uma atualização curricular, a iniciativa reflete uma transformação mais ampla no papel do professor. Em um ambiente educacional marcado pela abundância de informação e pela presença crescente de tecnologias inteligentes, a função docente passa a incluir a mediação crítica do conhecimento e a orientação sobre o uso responsável da tecnologia.
A inclusão da inteligência artificial na formação docente, portanto, não é apenas uma resposta a uma inovação tecnológica. Trata-se de reconhecer que o trabalho do professor continua evoluindo — e que preparar os docentes para compreender essas mudanças é parte essencial da qualidade da educação.

Amábile Pacios é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e ex-conselheira Nacional de Educação, com atuação destacada na Câmara de Educação Básica. Educadora com mais de 30 anos de experiência, é autora de livros didáticos e presidente do Grupo Educacional Dromos. Reconhecida por sua liderança no setor educacional, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2022, em homenagem aos seus serviços prestados à educação brasileira.










