Heloisa Avilez, diretora de Ensino Superior Latam da Pearson, analisa como a inteligência artificial fortalece a leitura ativa e personaliza a aprendizagem dos estudantes
Heloisa Avilez*
Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2025, apenas 10% da população brasileira chega ao nível proficiente de alfabetização. O índice, infelizmente, pouco mudou desde 2018. Professores de todos os níveis da educação, incluindo do Ensino Superior, relatam uma queda alarmante na capacidade de análise e leitura crítica entre os ingressantes. Diante desse cenário, que expõe as limitações de um modelo de ensino padronizado e pouco sensível às diferenças individuais, uma aliada inesperada surge para nos ajudar a resgatar uma competência fundamental: a inteligência artificial (IA).
O desenvolvimento da leitura, até então, foi conduzido por modelos padronizados, considerados até pouco sensíveis às diferenças individuais dos estudantes. Esse formato já não responde às demandas de uma sociedade hiper conectada, diversa e que vive a era da economia da atenção. É exatamente aí que a IA aponta para uma nova fronteira educacional. A leitura, que antes era um percurso uniforme para todos, hoje também passa a ser uma jornada individualizada, ajustada ao ritmo, às lacunas e ao potencial de cada aluno.
Os impactos desse modelo já começam a ser mensurados. Uma pesquisa recente da Pearson, sobre o uso de IA na aprendizagem ativa, baseada na análise de quase 80 milhões de interações de cerca de 400 mil estudantes do Ensino Superior, revela que o uso de ferramentas de IA está diretamente associado ao fortalecimento da chamada leitura ativa. Essa prática é conhecida por incentivar um aprendizado mais profundo, que envolve “conversar” com o texto, sendo que as ferramentas de IA atuam exatamente como um tutor pessoal: em vez de dar respostas prontas, elas ajudam o aluno a sintetizar informações, formular perguntas e, assim, consolidar o próprio aprendizado.
Segundo o estudo global, uma única interação com uma ferramenta de IA em materiais digitais pode triplicar a probabilidade de um estudante se tornar um leitor ativo. Quando esse uso é recorrente, esse índice sobe para 3,5 vezes. Em ambientes de aprendizagem estruturados, como cursos digitais conduzidos por instrutores, o impacto é ainda mais expressivo: o uso da IA pode aumentar em até 23 vezes essa probabilidade, chegando a 24 vezes em casos de uso contínuo.
Leitura ativa como motor
Mas, o que está por trás desses números? A leitura ativa, conceito central na ciência da aprendizagem, envolve estratégias como destacar trechos, fazer anotações, formular perguntas e recuperar informações. São práticas que ampliam a compreensão, a retenção e o desempenho acadêmico. Ao integrar a IA a esse processo, cria-se um ambiente em que o estudante consome conteúdo e “interage” com a ferramenta de forma profunda e crítica.
É exatamente nesse contexto que a IA passa a ser uma aliada para reduzir lacunas históricas e acelerar o desenvolvimento de competências humanas essenciais. É como se essa integração da IA chamasse atenção para um ponto que estava sendo deixado de lado pela facilidade com que a informação está à disposição nos momentos de estudo, onde o acesso se integra a cada clique pelas páginas navegadas. Porém, a aprendizagem deve seguir íntegra no dia a dia dos estudantes, sem que se apoie em qualquer ferramenta externa conectada, a exemplo de celulares e computadores.
Além de impulsionar a leitura ativa, a IA também melhora indicadores como fluência em outro idioma, vocabulário e interpretação de texto. Isso ocorre porque a tecnologia consegue identificar padrões de erro e dificuldades específicas, oferecendo exercícios direcionados e trilhas personalizadas. O modelo “um para todos” perde espaço para uma lógica mais inteligente e adaptativa, induzindo cada estudante a evoluir de forma mais consistente.
Potencializando o papel do educador
Do outro lado do balcão, ao automatizar tarefas operacionais, a IA libera tempo para que o educador atue de forma mais estratégica, focando no desenvolvimento do pensamento crítico, na mediação pedagógica e no acompanhamento individualizado.
Em outra análise da Pearson, entre estudantes que utilizaram ferramentas de IA de forma ética, sem recorrer a práticas inadequadas, um em cada três alunos demonstrou níveis mais avançados de raciocínio. Isso quer dizer que foram além da simples memorização e avançando para análise e avaliação, conforme a Taxonomia de Bloom revisada. Trata-se de uma relação complementar, em que a tecnologia potencializa a dimensão humana do ensino.
Naturalmente, desafios permanecem. A ampliação do acesso à tecnologia e a capacitação de professores são pontos críticos para garantir que essa transformação seja inclusiva. Também é necessário evitar o uso indiscriminado, que pode gerar dependência ou superficialidade. O impacto positivo da IA depende, acima de tudo, de um uso intencional, orientado e fundamentado na ciência da aprendizagem.
*_Diretora de _Ensino Superior Latam da Pearson










