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Conheci o entrevistado de hoje faz uns 10 anos. E lembro de ter ficado empolgado com conversar com alguém com uma cabeça tão diferente: um médico veterinário, transformado em programador com profundo conhecimento pedagógico

Depois pude vê-lo explorando um novo modelo formativo para desenvolvedores que me fez refletir sobre como é possível ensinar de forma radicalmente diferente do tradicional

E mais recentemente, tenho me divertido com suas criações. Todas elas abertas para exploração de todos

A conversa de hoje é com Maurício Garcia, conselheiro da Inteli e criador da SolverEdu e da Edukors

Nela exploramos as novas competências necessárias na Era da IA, que promessas estão se cumprindo ou não sobre tecnologias em educação e o risco do pessimismo excessivo

Entrevista com Maurício Garcia

Tecnologia, inteligência artificial e transformação da educação

1 – Conte sobre sua trajetória até aqui

Apesar de eu estar hoje muito mergulhado em tecnologia e inteligência artificial, minha formação é em outra área. Eu sou médico veterinário, formei-me na USP em 1983, onde fiz também o meu mestrado e doutorado nessa área. Mas eu sou de uma família de engenheiros e sempre gostei de matemática. Por conta disso, lá nos anos 80, quando eu ainda estava na USP, meus amigos pesquisadores me procuravam para eu ajudar nas estatísticas das teses. Ainda não havia computadores disponíveis, então eu fazia tudo com lápis, papel e máquina de calcular: média, desvio-padrão, análise de variância, teste T, etc.

Quando chegaram na USP os primeiros mainframes (antes dos microcomputadores), eu fui aprender a rodar pacotes estatísticos como SPSS e BMDP em uma máquina Burroughs B6900. Foi um incêndio na minha cabeça, nunca mais parei de programar. Logo depois, tornei-me professor e segui até hoje com um pé em cada canoa: educação e tecnologia. Fui estudar mais, estive na França, no Canadá e nos EUA (Stanford e MIT).

Durante mais de 40 anos tive uma intensa carreira acadêmica e executiva na educação, passando de professor para coordenador, depois vice-reitor e, por fim, vice-presidente em uma multinacional da educação. Viajei o Brasil todo e também para muitos países, tive o privilégio de conhecer muitas realidades e fazer muitos amigos.

Quando o ChatGPT foi lançado, eu já estava ativamente mergulhado na tecnologia educacional, sempre “sujando as mãos”, ou seja, escrevendo códigos, desenvolvendo protótipos e testando aplicativos. Eu costumo brincar dizendo que “o mundo deu um monte de voltas e caiu no meu quintal”.

Hoje faço isso: pesquiso novas tecnologias e vejo como elas podem ajudar a melhorar a qualidade da educação. Meu principal desejo é tornar a educação de qualidade acessível a quem não pode pagar, por acreditar que ela é o melhor caminho (se não o único) para o desenvolvimento econômico e social de um país e a redução de suas desigualdades.

2 – Você tem feito uma série de projetos usando IA. Conte sobre as iniciativas.

Tenho criado uma série de iniciativas open source. Eu comecei criando uma plataforma chamada SolverEdu, em que criei vários aplicativos que usam IA na educação.

A SolverEdu reúne aplicativos como SolverPlan (planejamento de cursos com Aprendizagem Baseada em Projetos – PBL), SolverPoll (perguntas respondidas pelo celular via QR Code), SolverQuiz (questões no padrão Enade), SolverEnamed (preparação para a prova) e SolverBots (bots educacionais de personalidades da história). Todos são de livre acesso e de código aberto, que podem ser baixados do Github. Há vários outros.

Recentemente, eu lancei a Edukors, a primeira escola global e gratuita destinada à formação de professores em inteligência artificial. É um projeto filantrópico, sem fins comerciais, com o objetivo de ampliar a democratização da educação. Contém uma série de cursos de formação de professores para o uso da IA na educação. São totalmente gratuitos e podem ser usados individualmente online ou como material de apoio em formações presenciais.

No lado pedagógico, a Edukors ensina aprendizagem baseada em competências, projetos, problemas, estudos de caso e avaliação da aprendizagem com IA. No lado tecnológico, a Edukors ensina a fazer prompts, usar skills e MCPs, aprendizagem adaptativa, aprendizagem personalizada. Aborda também a história e tipos de IA, bem como os riscos da IA. A Edukors já tem mais de 1200 alunos e foi visitada por pessoas de mais de 80 países diferentes.

Os cursos da Edukors possuem uma arquitetura inovadora, chamada “Edukors Graph”, que é um padrão aberto que desenvolvi e que permite criar percursos de aprendizagem em formato de grafos, com diversas ramificações que se adaptam ao contexto de cada aluno, em vez de um caminho linear padronizado para todos. Com a IA, professores sem formação técnica podem criar cursos complexos que oferecem aprendizagem personalizada. Outra vantagem é a portabilidade: graças a um padrão, um curso pode ser facilmente migrado de uma plataforma para outra. A referência da Edukors Graph está disponível em neste link.

Toda essa produção está disponível a todos, gratuitamente, nos links indicados.

3 – Como parte da Inteli, o que você tem aprendido sobre as necessidades de mudanças nas competências ensinadas aos alunos? E sobre os modelos de ensino?

A primeira turma do Inteli iniciou em janeiro de 2022, portanto antes do ChatGPT e da revolução da IA Generativa. Todavia, as premissas que fizemos durante a criação do modelo pedagógico do Inteli se mostraram resilientes às transformações que vieram desde então.

Quando eu fui convidado para criar o modelo pedagógico do Inteli, recebi dos fundadores (André Esteves e Roberto Sallouti) e das lideranças (Maíra Habimorad e Ana Beatriz Garcia) a orientação para que fosse idealizado algo diferente de tudo que existia, que fosse capaz de combinar uma formação teórica robusta com uma abordagem prática e orientada para o mercado de trabalho.

A partir disso, concebi uma implementação do Project-Based Learning (PBL) em 16 módulos de dez semanas cada, para um curso de quatro anos. Os projetos assumiram o protagonismo e as disciplinas deixaram de ser unidades curriculares, passando a ser provedoras de conteúdo.

Coincidência ou não, esse modelo se mostrou muito alinhado às novas demandas em tempos de IA, em que humanos e não humanos trabalham lado a lado para construir soluções que antes seriam impossíveis.

O PBL em si não é novo, remonta ao “Método de Projetos” de William Kilpatrick, discípulo de John Dewey. A novidade foi a forma como o Inteli o implementou, em todos os cursos, desde o primeiro dia de aula. Os currículos baseados em disciplinas não têm mais como dar conta das novas demandas de formação. Quando o conhecimento se torna commodity, acessível a um clique pela IA, tornam-se prioritárias as habilidades e atitudes.

Essa experiência reforçou a necessidade de tratar a competência em seus três componentes, conhecimentos, habilidades e atitudes, cada um com estratégia de desenvolvimento e forma de avaliação próprias. A IA domina com folga os conhecimentos e avança sobre as habilidades mentais. As atitudes, como a curiosidade, o senso crítico, a flexibilidade e a empatia, permanecem como o território mais difícil de imitar e, por esse motivo, o mais decisivo a formar. Quanto ao modelo de ensino, a avaliação precisa recair sobre o processo e a defesa das escolhas, pois o produto final, que a máquina entrega pronto, diz pouco sobre o que o aluno aprendeu.

4 – Quais são as promessas da IA para educação que você mais acredita que devem se cumprir? E alguma sobre a qual é cético?

Entre as promessas da IA para a educação, a que mais acredito que deve se cumprir é a da aprendizagem adaptativa e personalizada. Em 1984, Benjamin Bloom publicou um estudo que ficou conhecido como “o problema dos dois sigmas”, ao mostrar que o aluno acompanhado por um tutor individual superava amplamente os colegas da turma convencional. A tutoria individual, porém, era impossível de escalar. Durante quarenta anos o tema ficou sem resposta e agora a IA o reabre, pois oferece algo próximo de uma interação individual com cada estudante, a baixo custo e em escala. Ela permite partir dos “ganchos cognitivos” de cada aluno (o lugar onde vive, suas dores, seus desejos), ajustar a linguagem à sua “zona de desenvolvimento proximal”, diagnosticar lacunas e gerar material sob demanda. Mas o desafio continua sendo pedagógico, pois a IA mal empregada pode apenas entregar respostas prontas, ao invés de sustentar um percurso formativo individual.

Sou cético, por outro lado, quanto ao argumento do déficit cognitivo causado pela IA, defendido por algumas pessoas. Os experimentos que sustentam essa tese se basearam em tarefas concebidas para um mundo sem IA, o que não voltará a ocorrer. Se a escolha pedagógica é pedir ao aluno algo que a máquina entrega pronto, o que se tem é apenas uma tentativa de manter intacto um modelo obsoleto. Em um modelo desenhado para a presença da IA, em que a avaliação recai sobre o processo e as dificuldades são escaladas, passa-se a exigir um novo esforço cognitivo. O cérebro humano tem 300 mil anos de evolução orientada a maximizar a chance de sobrevivência. Não ficaremos mais burros, nem mais inteligentes. O cérebro dos alunos continuará vibrando em alta intensidade e, para cada coisa que deixa de ser relevante, outras se abrem, e ele seguirá em sua jornada em busca de caminhos mais eficientes.

5 – Alguma crença forte que tinha que sua trajetória mostrou estar equivocada?

Eu acreditava que a IA seria percebida como um grande avanço para a democratização da educação. Porém, vejo hoje, com tristeza, mais pessoas céticas e receosas do que entusiasmadas. Boa parte dessa reação, todavia, vem do desconhecimento de como funciona a IA e de quais são as formas de lidar com ela. Sinto como se fosse um retrocesso.

Minha expectativa se apoiava em uma leitura histórica. Sabemos, faz séculos, o que precisa ser feito para uma educação transformadora: colocar o aluno no centro, privilegiar o pensamento sobre a memorização, devolver o diálogo à sala de aula. Sócrates já ensinava pela pergunta e Vygotsky mostrou que o aprendizado nasce da mediação de alguém mais experiente. O que sempre faltou foi escala, e a IA parecia oferecê-la, sobretudo a quem não pode pagar por um tutor. Imaginei que essa possibilidade seria recebida como resposta a uma antiga aspiração, a de oferecer a cada aluno um interlocutor disposto a debater e a esperar que a ideia nasça do próprio aprendiz.

Subestimei, contudo, a força da reação. A discussão começou pela perspectiva da fraude e o organismo escolar passou a produzir anticorpos para expulsar o invasor, com normas e listas de proibições. Na ausência de regras claras, muitos profissionais passaram a usar a IA em segredo, com receio de punição. Há raízes legítimas nessa recusa, do medo de ser substituído à preocupação genuína com o aprendizado, e mais tecnologia não a dissolve.

Mas a IA, na verdade, apenas expôs feridas que já existiam e que insistíamos em cobrir com um manto de normalidade. Hoje entendo que a democratização depende da formação de quem utiliza a ferramenta. Foi essa convicção que me levou a criar a Edukors. Afinal, aderir com crítica e recusar com informação, só é possível quando o professor conhece a tecnologia que tem diante de si. O entusiasmo que eu esperava depende desse conhecimento.

Edtechs

Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança)

Faculdade de tecnologia com currículo integralmente baseado em projetos e plataforma de aprendizagem própria

Brasil

Instituição de ensino superior sem fins lucrativos criada em 2019 a partir de uma doação de R$ 200 milhões da família de André Esteves, do BTG Pactual, ao lado de Roberto Sallouti. A primeira turma entrou em janeiro de 2022, antes do lançamento do ChatGPT. Oferece graduações em engenharia da computação, engenharia de software, ciência da computação, sistemas de informação e administração com ênfase em tecnologia, além de uma pós-graduação em cibersegurança criada com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em cujo campus funciona, dentro da Cidade Universitária de São Paulo. O que entra aqui como tecnologia educacional é o modelo de escola somado à plataforma que a instituição construiu para sustentá-lo, e não um produto vendido a terceiros.

Essa plataforma é a Adalove, que concentra a vida acadêmica do aluno do processo seletivo à colação de grau. O curso de quatro anos é organizado em 16 módulos de dez semanas, cada um partindo de um problema real trazido por uma empresa parceira, e é na Adalove que o estudante recebe o material de autoestudo selecionado pelo corpo docente, registra o avanço no projeto, faz check-in nas atividades e acessa os resultados das avaliações. A plataforma nasceu da unificação de três sistemas anteriores da casa. O processo seletivo também roda inteiramente nela e inclui uma prova de matemática e lógica que ajusta a dificuldade conforme o desempenho do candidato. As disciplinas deixam de organizar o currículo e passam a funcionar como provedoras de conteúdo para o projeto, e os protótipos desenvolvidos pelos alunos são de código aberto.

A instituição informa cerca de 620 estudantes e opera um modelo de financiamento em que doadores assumem o custo integral da formação de um bolsista específico, estimado em R$ 500 mil por aluno. Em meados de 2025 eram 308 bolsistas apoiados por 363 doadores, entre empresas, fundações e pessoas físicas. Professores da casa publicam pesquisa sobre o próprio modelo, incluindo um estudo apresentado no IEEE TALE 2024 sobre atividades de avaliação em vídeo e seu efeito no uso passivo de ferramentas de IA pelos alunos.

É o caso que sustenta a afirmação de Maurício, autor do modelo pedagógico, de que as premissas resistiram à chegada da IA generativa. Se a avaliação recai sobre o processo e sobre a defesa das escolhas, como ele argumenta, o produto final que a máquina entrega pronto deixa de ser o objeto da nota. A pesquisa sobre defesa em vídeo é a tradução operacional disso, e a Adalove é onde o registro desse processo fica.

SolverEdu

Repositório aberto de aplicativos educacionais prontos para uso e para modificação

Brasil

Conjunto de pequenos aplicativos educacionais que rodam no navegador, gratuitos, com o código publicado no GitHub para quem quiser copiar, adaptar ou propor melhorias. Cada aplicativo resolve uma tarefa específica do professor. O SolverPlan monta planejamento de curso com aprendizagem baseada em projetos. O SolverPoll coleta respostas da turma pelo celular por meio de QR Code. O SolverQuiz gera questões no padrão do Enade. O SolverBots simula conversas com personalidades históricas. Há ainda um curso completo e gratuito de Python e guias técnicos sobre temas como a integração entre ferramentas externas e ambientes virtuais de aprendizagem. O autor mantém mais de trinta repositórios públicos.

A proposta declarada muda o que normalmente se espera de uma plataforma. O repositório não busca adoção institucional, e sim servir de exemplo funcional para que o próprio professor construa a solução de que precisa, com contribuições abertas de volta ao código. É software educacional em operação, distribuído sem custo e sem contrato, o que o separa tanto de um produto comercial quanto de um material de formação.

O caso ajuda a situar o que Maurício chama de sujar as mãos. A aposta embutida no repositório é a de que a barreira para o uso de IA na educação está menos na oferta de produtos e mais na capacidade do professor de montar o que precisa. É a mesma convicção que ele usa depois para explicar por que criou a Edukors.

Edukors

Plataforma gratuita de cursos de inteligência artificial para professores

Brasil

Plataforma de cursos aberta e sem cadastro, lançada em 2026 e construída por uma pessoa só, que se apresenta como a primeira escola global e gratuita dedicada à formação de educadores em inteligência artificial. São mais de vinte cursos hospedados no próprio site, disponíveis em dez idiomas por tradução automática, acompanhados de um livro distribuído em formato digital, PDF e e-book, de comunidades de discussão organizadas por tema e de uma newsletter com duas edições por semana. Os cursos podem ser abertos em ambientes virtuais de aprendizagem de instituições que queiram usá-los como material de apoio. Segundo o autor, são mais de 1.200 alunos e visitantes de mais de 80 países.

A grade tem duas frentes. Na pedagógica, trata de aprendizagem baseada em competências, em projetos, em problemas e em estudos de caso, além de avaliação da aprendizagem com IA. Na tecnológica, cobre construção de comandos para modelos de IA, conexão desses modelos a ferramentas externas, aprendizagem adaptativa e personalizada, história e tipos de IA e os riscos envolvidos.

A parte que distingue a Edukors de um catálogo de cursos é o motor por trás deles. Os percursos seguem um padrão aberto desenvolvido pelo próprio autor, o Edukors Graph, que descreve um curso como um grafo em que cada ponto é o que o aluno vê e cada ligação define para onde ele vai em seguida. Em vez de uma sequência única para todos, o caminho se ramifica conforme o contexto do estudante, e o mesmo curso pode ser levado de uma plataforma para outra sem ser refeito. A especificação e as ferramentas estão publicadas no GitHub, abertas para quem quiser montar cursos fora da Edukors. É esse motor, mais que o conteúdo das aulas, que faz da Edukors uma edtech e não um acervo de formação.

A plataforma é a resposta direta à crença que Maurício diz ter revisto. Ele esperava que a IA fosse recebida como instrumento de democratização e encontrou uma reação organizada em torno da fraude e da proibição. A conclusão que tirou, de que aderir com crítica ou recusar com informação depende de o professor conhecer a tecnologia, é o que a escola tenta operacionalizar. O padrão aberto adiciona uma segunda aposta, a de que o professor sem formação técnica consegue construir percursos adaptativos.

Avamec (Ambiente Virtual de Aprendizagem do Ministério da Educação)

Plataforma pública de formação continuada de professores

Brasil

Ambiente virtual mantido pelo Ministério da Educação para abrigar ações formativas voltadas a professores, gestores e demais profissionais da educação básica. O que entra no repositório é a plataforma, com sua estrutura de matrícula, trilhas, módulos, atividades e certificação, e não os cursos que rodam sobre ela. É tecnologia educacional construída e operada pelo Estado brasileiro, categoria que o repositório já reconhece. O acesso é gratuito e feito com a conta única do governo federal. Em outubro de 2025 o MEC informava mais de 160 formações construídas com 24 instituições parceiras e mais de 4 milhões de inscrições acumuladas.

A plataforma integra o Portal de Formação do programa Mais Professores, que reúne as diferentes ofertas de formação do ministério em um ponto único de entrada. Entre as parcerias já incorporadas ao catálogo estão cursos de fundações privadas voltados a competências digitais. O papel do Avamec é menos o de produzir conteúdo e mais o de distribuir, controlar percurso e certificar o que outras instituições produzem, selecionadas por chamamento público.

Em agosto de 2026 o ministério informava nove formações gratuitas sobre inteligência artificial para a educação básica, com cargas horárias de 20 a 180 horas, cobrindo fundamentos, letramento em IA, uso pedagógico, elaboração de planos de aula e de avaliações, autoria, pensamento crítico e proteção de dados. A oferta para os anos finais do ensino fundamental foi construída com a Unesco, dentro da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, e segundo o MEC amplia uma iniciativa que já havia alcançado mais de 22 mil professores no ensino médio.

É o contraponto de escala à Edukors. Maurício construiu sozinho uma escola gratuita de IA para professores e sustenta que a democratização depende da formação de quem usa a ferramenta. O Estado brasileiro chegou à mesma conclusão e opera por edital, credenciamento de parceiros e certificação, com alcance que um esforço individual não tem e com um tempo de resposta que ele não precisa esperar. A pergunta que a comparação abre é se catálogo de curso resolve o problema que ele descreve, que começa no medo da fraude e termina no professor usando IA escondido.

ASSISTments

Plataforma gratuita de prática e avaliação formativa em matemática

Estados Unidos

Plataforma desenvolvida no Worcester Polytechnic Institute e mantida pela ASSISTments Foundation, organização sem fins lucrativos. O professor atribui exercícios de matemática a partir de um acervo de mais de 200 mil questões alinhadas a padrões curriculares, de currículos abertos como o Illustrative Mathematics, ou de problemas que ele mesmo cria. O aluno recebe devolutiva imediata, com dicas e explicações passo a passo quando erra, e o professor recebe relatórios em tempo real sobre quem travou e em qual questão. O uso é gratuito e a organização informa mais de 500 mil alunos e 30 mil professores por ano.

A plataforma foi concebida para assistir o professor na condução da aula, e o ritmo de uso é definido por ele. Além do uso em sala, a fundação mantém uma infraestrutura que permite a pesquisadores rodar experimentos controlados dentro da própria plataforma, com os alunos distribuídos entre condições diferentes sem que o pesquisador precise recrutar participantes.

A base de evidência é incomum para o setor. Um ensaio randomizado no Maine encontrou ganhos significativos em avaliação padronizada de fim de ano. A replicação, conduzida por SRI International com WestEd, a Universidade Estadual da Carolina do Norte e o WPI em 63 escolas da Carolina do Norte, com financiamento do Departamento de Educação americano, confirmou o efeito, encontrou ganhos ainda presentes um ano após o fim da intervenção e efeitos maiores em escolas com mais alunos em situação de pobreza. Os dois estudos divergem sobre quem mais se beneficia. No Maine, os alunos de menor desempenho prévio. Na Carolina do Norte, a indicação sugestiva apontou para os de maior desempenho.

É o teste empírico da promessa que Maurício defende no plano conceitual. Ele retoma o problema dos dois sigmas de Bloom para argumentar que a IA reabre a possibilidade de tutoria individual em escala. O ASSISTments é o caso em que essa tese foi medida com rigor por mais de uma década, e os efeitos encontrados são reais, duradouros e muito distantes dos dois desvios-padrão de Bloom. O caso também reforça a parte pedagógica do argumento dele, já que a plataforma devolve informação ao professor em vez de entregar a resposta pronta ao aluno.

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