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Neste artigo, Luciana Allan analisa por que a educação vive um ponto de inflexão diante da inteligência artificial e das novas responsabilidades pedagógicas

Luciana Allan*

Nós, educadores, vivemos esses dois primeiros meses de 2026 com várias certezas e algumas dúvidas. Por exemplo, a inteligência artificial (IA) é a panaceia do novo ensino? O quanto essa tecnologia se disseminou e ficou mais presente na nossa realidade?

Notadamente, o setor educacional enfrenta desafios simultâneos nas esferas digital, ética e social, o que exige um olhar para o desenvolvimento de novas competências, proteção online, relações mais humanas e valorização docente.

Ao longo do ano passado, refleti sobre os dilemas e as transformações da Educação Básica: desde o uso de celulares nas escolas, o desenvolvimento de habilidades digitais, a convivência como antídoto ao ciberbullying, a valorização docente, marcos regulatórios para a proteção online de crianças, o papel das instituições de ensino no futuro do planeta e a potência das olimpíadas científicas.

Ao tomar como base essas análises, chego à uma compreensão mais profunda de que a Educação vive um ponto de inflexão histórico.

Há um reconhecimento crescente de que, sem mais retardos, o cenário educacional não pode mais se limitar à transmissão de conteúdos. Ele precisa formar cidadãos críticos, éticos, capazes de navegar em ambientes digitais complexos e preparados para enfrentar desafios sociais, ambientais e tecnológicos.

As discussões sobre legislação que ocorreram (e ainda acontecem) evidenciam o descompasso entre o avanço das tecnologias digitais e a capacidade das escolas de usá-las adequadamente para fins pedagógicos. Ao mesmo tempo, o protagonismo dos professores e o incentivo a práticas como Olimpíadas do Conhecimento demonstraram que a inovação passa pela valorização humana. Aliás, esse tipo de competição revela que engajamento, propósito e pertencimento são tão estratégicos quanto o domínio tecnológico.

Paira no ar, contudo, uma evidente inquietação das pessoas da área em relação à IA, seus limites e possibilidades e, principalmente, como ela deve entrar na escola para agregar.

O que esperar do futuro próximo

Em novembro, estive no evento TEcEdu+ Educação Pós-2030, que reuniu especialistas a pensar sobre os rumos a seguir. Ali, partiu-se de ideias como: a Educação precisa traduzir em escolhas reais as rupturas de paradigmas globais — inclusão, cooperação, solidariedade; a IA pode ampliar pensamento crítico, criatividade e empatia, desde que sem substituir a formação humana; currículos devem integrar sustentabilidade, diversidade e empreendedorismo com profundidade. Fato é que escolas, públicas ou privadas, são protagonistas dessa reinvenção.

Muito falamos que, para docentes serem “designers de aprendizagem” e não “cobradores de informações”, mudanças estruturais são necessárias. Ecossistemas de Educação continuada devem incluir todos.

A conclusão das rodas de conversa foi que não é vantagem para ninguém proibir o uso da IA, mas sim educar e orientar para o uso, mudar as práticas de ensino para que elas sejam mais aderentes a esse novo momento e todos esses recursos entrem como fatores enriquecedores do trabalho que é feito em sala de aula.

No pós-2030, talvez a palavra de ordem seja humanidade: o legado de formar sujeitos éticos e empáticos, com tecnologia a serviço do socioemocional.

Isso é complicado porque tem-se de mudar toda uma metodologia estabelecida há séculos. É mais fácil proibir algo desconhecido e novo, com o qual você não sabe lidar, do que aceitar que a tecnologia não chegou para demonizar o que a escola faz.

Por sinal, gosto muito da linha que entende a inserção da IA encarando-a como mais um recurso e não o único!

A IA ainda incomoda, deixa desconfortável, cria uma série de animosidades, porque é um universo a ser descoberto. Entretanto, tenho certeza de que um dia, lá no futuro, olharemos para trás e diremos: “Nossa, ficamos discutindo isso? Qual era o sentido?”

Não adianta negar, a IA já está entre nós

Inúmeros professores já preparam aulas com auxílio de IA e usam a tecnologia com alunos, mesmo que o Marco Legal da IA ainda esteja em tramitação na Câmara dos Deputados, onde passará por novas discussões e votações, antes de uma possível sanção presidencial.

Em recente divulgação da pesquisa Teaching and Learning International Survey (Talis), o Brasil aparece como um dos 10 países em que mais docentes relataram utilizar a nova tecnologia entre os 53 que participaram – 56,1%, enquanto a utilização da IA, em geral, foi relatada por 36% dos professores nos países desenvolvidos que fazem parte da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O estudo indica também que nossos professores não estão necessariamente preparados para esse uso: 64% dizem não ter habilidades ou conhecimento para usar IA e 60%, que a escola não possui estrutura para essa tecnologia.

Vou além e afirmo que não adianta professores terem um plano de aula bem-feito, produzido por IA. Se o docente não tem as competências para analisar aquele plano e perceber se ele é aderente à realidade dele, à forma como costuma trabalhar, não saberá como levar o plano para a sala de aula de uma forma interessante. Quer dizer, de nada adianta a IA ter elaborado algo incrível, se ele não tiver criticidade para analisar e adaptar ao seu contexto.

A meu ver, a IA dá o pontapé inicial, fornece subsídios, mas quem realmente conhece a forma como aquilo pode fazer sentido para um grupo de alunos é o professor. Então, o melhor planejamento de todos os tempos não serve, se falta habilidade ao docente que irá colocá-lo em prática.

Ao cruzarmos esses dados de pesquisa com a informação fornecida pela OpenAI, dona do ChatGPT, de que, entre os mais de 800 milhões de usuários semanais do chatbot, os professores estão entre os primeiros e mais ativos adotantes, fica fácil entender por que a empresa avança sobre as escolas com uma nova versão desenvolvida para docentes do Ensino Fundamental I.

O apetite das chamadas Big Techs pelo mercado docente fica evidente nos EUA. Lá, o segundo maior sindicato de professores do país, o American Federation of Teachers (AFT) receberá dinheiro para capacitar educadores em centros de treinamento, de acordo com a The Associated Press.

O outro lado da moeda

Sob a perspectiva dos estudantes, a situação também é intrincada. A pesquisa “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Home ), aponta que entre os alunos dos Ensinos Fundamental e Médio usuários de Internet, 37% declarou ter utilizado ferramentas de IA em pesquisas e atividades escolares.

O uso já está particularmente disseminado entre estudantes do Ensino Médio: 70% deles afirmaram ter utilizado ferramentas de IA generativa. Entre os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, o percentual é de aproximadamente 40%, enquanto entre os alunos dos anos iniciais, atinge 15%.

A questão primordial é que os usos estudantis da IA ainda ocorrem com pouca mediação docente: apenas 19% afirmaram ter conversado com seus professores sobre como utilizá-la, e 33% relataram ter recebido orientações sobre como identificar quando a IA produz conteúdos falsos, incorretos ou preconceituosos. Mesmo no Ensino Médio, esses percentuais permanecem modestos: 32% e 36%, respectivamente.

No final do primeiro semestre, a OpenAI lançou o Modo Estudo do ChatGPT, que não entrega respostas prontas. Um recurso projetado para orientar os alunos a usarem esta IA como ferramenta de aprendizado passo a passo. Será suficiente? O Google tem uma ferramenta chamada Notebook LM que também promete ser um companheiro de estudos, ao permitir cartões de estudo, mapas mentais entre outros recursos.

Na minha visão, e também na de outros estudiosos, o fato de a tecnologia trazer respostas não quer dizer nada. A grande questão é: o que fazer com o que se recebeu?

A IA facilitou, sim, o acesso dos estudantes à informação, mas o aluno tem de interpretar e trazer a resposta para o seu contexto, ou seja, aplicar e fazer uso ético dos resultados. De nada adianta receber uma resposta, se você não sabe averiguar a veracidade e nem como materializar aquilo no seu dia a dia.

Como disse o pesquisador Mitchel Resnick em entrevista recente, há risco da tecnologia ser usada apenas para agilizar as práticas tradicionais de sempre: “O importante não é ter todas as respostas, e sim saber se adaptar, criar, experimentar. Acima de tudo, eles precisam desenvolver o pensamento criativo — a capacidade de imaginar e testar novas formas de agir.”

Alerta de segurança: Adolescentes e IA

Chatbots de IA estão cada vez mais presentes na vida de adolescentes, em especial, através de smartphones. Se uma tela onde uma criança conecta-se às redes sociais já trazia alertas, imagine com acesso a IA…

Pesquisas recentes encontraram um padrão funesto: quem ganhou smartphone antes dos 13 anos apresentou piores indicadores de saúde mental.

Aqui no país, o Cetic.br detectou que o uso de internet por crianças de 0 a 2 anos saltou de 9% para 44% desde 2015, entre os 6-8 anos mais de 36% têm celular próprio.

É verdade que as políticas da OpenAI proíbem o uso do ChatGPT por menores de 13 anos e exigem permissão dos pais ou responsáveis para usuários de 13 a 18 anos. O chatbot Claude, da Anthropic, popular entre estudantes universitários e educadores, exige que o usuário tenha 18 anos ou mais. A pergunta é: quem obedece?

É possível que por estarem cientes do imbróglio, as empresas tenham agido. A OpenAI está criando uma versão do ChatGPT para adolescentes. Pais poderão vincular suas contas às de seus filhos por meio de um convite. A Meta ajustou chatbots para evitar conversas sobre temas sensíveis (suicídio, automutilação, transtornos alimentares) com menores.

Tais iniciativas surgem após processos judiciais envolvendo danos à saúde mental de adolescentes. Segundo estimativas da própria OpenAI, cerca de 0,07% dos usuários ativos em uma semana enviam mensagens com possíveis sinais de emergências de saúde mental relacionadas à psicose ou mania. Parece pouco? Não, são 560.000 pessoas.

Os principais riscos identificados são: dependência emocional de chatbots como forma de “companhia”; falta de verificações robustas de idade; perigo de sistemas fornecerem aconselhamento psicológico inadequado. Não há dados específicos sobre menores de 18 anos, mas certamente há casos nessa faixa etária.

O problema estrutural é as empresas agirem depois que algo dá errado e não por prevenção. Neste ponto, volto a destacar a importância de uma legislação efetiva.

Perspectivas para 2026

Educadores, estudantes e pais entraram em mais um ano com perspectivas de tentativas e erros com o uso de IA na sala de aula. Políticas pouco objetivas correm o risco de ampliar desigualdades e minar a confiança, mesmo com a maioria dos educadores concordando que a IA veio para ficar.

Pais e alunos ainda não sabem se usar esse tipo de ferramenta conta como trapaça ou como letramento digital. Não ter política de uso definida, tanto na rede pública quanto na particular, é um enorme dificultador.

Em meados de outubro, o Ministério Público de São Paulo recomendou que a gestão Tarcísio de Freitas deixasse de obrigar o uso de plataformas digitais nas escolas, por falta de prova de eficácia (o uso intensivo não melhorou os resultados educacionais, medidos pelo sistema de avaliação estadual, o Saresp) e de garantias mínimas de integridade e adesão docente.

É aquilo que venho falando há bastante tempo: bons resultados virão quando a escola repensar as práticas pedagógicas e trouxer o aluno para o centro do processo, pensando no desenvolvimento de competências e habilidades.

A tecnologia deixou de ser novidade para se tornar responsabilidade, pedindo políticas claras, práticas pedagógicas significativas e equilíbrio entre inovação e convivência presencial.

Em síntese, 2025 consolidou a percepção de que o futuro da educação depende menos de dispositivos e mais de vínculos, propósito e responsabilidade coletiva — uma agenda que coloca escola, família, Estado e tecnologia em rota de corresponsabilidade.

Doutora em Educação pela USP e diretora técnica do Crescer, onde, há 25 anos, lidera projetos nacionais e internacionais na área de Educação*

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