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A inteligência artificial amplia desafios de exposição, violência digital e convivência entre estudantes e exige que as escolas fortaleçam cidadania digital, educação socioemocional e prevenção

A discussão sobre o uso da tecnologia na educação evoluiu bastante nos últimos anos. Se antes o foco estava no tempo de tela ou na presença dos celulares dentro das escolas, hoje lidamos com um cenário ainda mais complexo.

Afinal, as ferramentas de inteligência artificial são capazes de transformar a forma como crianças e adolescentes se relacionam e, infelizmente, também como praticam diferentes tipos de violência.

As reflexões reunidas neste artigo nasceram durante a palestra “Entre Likes e Leis“, conduzida por Caio Lo Bianco, CEO e idealizador do LIV, e Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e da Juventude e embaixadora LIV, no Fórum de Gestores da Bett Brasil 2026. O encontro trouxe algumas reflexões importantes sobre cidadania digital, inteligência artificial e os novos desafios enfrentados pelas escolas.

A conversa chamou atenção para uma pergunta muito importante: como formar estudantes capazes de fazer escolhas éticas e responsáveis em um contexto em que a tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade de compreender seus impactos? É o que vamos entender ao longo desse texto.

Quando a tecnologia muda, os desafios também mudam

A inteligência artificial já faz parte do cotidiano escolar. Ela pode ajudar os professores no planejamento de aulas, amplia possibilidades de pesquisa, personaliza percursos de aprendizagem e oferece recursos antes inimagináveis.

Ao mesmo tempo, o avanço dessas ferramentas trouxe novos dilemas para a convivência.

Se há alguns anos as preocupações estavam concentradas nas redes sociais, hoje surgem aplicações capazes de gerar imagens falsas com um nível de realismo que desafia até mesmo quem está acostumado a identificar montagens.

“Antigamente você conseguia descobrir: olhava para a mão, para os dedos, a imagem vinha pixelada. Hoje, a realidade é outra”, explica Caio Lo Bianco, CEO e idealizador do LIV.

Esse avanço tecnológico exige uma mudança de perspectiva. Não basta acompanhar as novidades ou aprender a utilizar novas ferramentas. É preciso desenvolver repertório para compreender seus impactos sociais, éticos e emocionais.

A exposição ganhou uma nova dimensão

Entre as aplicações mais preocupantes da inteligência artificial estão os chamados aplicativos de manipulação de imagens, capazes de produzir conteúdos falsos com aparência extremamente convincente.

“Se antes a questão era o vazamento de um nude, hoje a questão é outra”, afirma Caio. “São aplicativos chamados de nudefy, capazes de despir uma pessoa em segundos, com um nível de realidade muito alto”.

Na prática, isso significa que estudantes podem ser vítimas de situações extremamente violentas mesmo sem que uma fotografia íntima tenha existido. A tecnologia cria imagens falsas que circulam rapidamente em grupos de mensagens e redes sociais, provocando constrangimento, sofrimento e danos reais.

Segundo estimativas recentes da Unicef, pelo menos 1,2 milhão de crianças relataram ter tido suas imagens manipuladas por inteligência artificial para a criação de conteúdos de nudez no último ano.

Para quem sofre esse tipo de violência, pouco importa se a imagem foi produzida por uma máquina.

“A tecnologia reproduz características reais do corpo da pessoa. Então, para aquela menina que está sendo exposta, a vergonha é real porque, no final das contas, é a imagem dela que está sendo compartilhada”, destaca Vanessa Cavalieri.

Por isso, tratar essas situações apenas como “brincadeiras” ou “montagens” significa ignorar o impacto concreto que elas produzem na vida de crianças e adolescentes.

A violência digital também revela desigualdades antigas

Embora a inteligência artificial tenha introduzido novas formas de exposição, ela não criou os problemas que aparecem por trás desses episódios.

Muitas das violências que hoje utilizam recursos tecnológicos já existiam antes. A diferença é que agora elas acontecem com muito mais velocidade, alcançam um número maior de pessoas e deixam marcas ainda mais profundas.

No caso das imagens manipuladas, esse fenômeno frequentemente se relaciona à violência de gênero.

Um estudo realizado pelo King’s College aponta que a adolescência concentra os maiores índices de comportamentos misóginos entre meninos quando comparada a outras faixas etárias.

“As vítimas são meninas”, observa Vanessa Cavalieri. “Muitas vezes, os meninos escolhem justamente as meninas mais populares ,(…) quase como uma forma de punição”.

Esse dado ajuda a compreender que a tecnologia funciona, muitas vezes, como um amplificador de desigualdades já presentes na sociedade. A objetificação do corpo feminino, a tentativa de controlar meninas e a naturalização da misoginia encontram, nas ferramentas digitais, novas formas de manifestação.

Diante desse cenário, combater apenas a ferramenta nunca será suficiente. É preciso enfrentar também as crenças, os comportamentos e as relações que sustentam esse tipo de violência.

Responsabilizar é importante, mas educar também

Quando um episódio de violência digital acontece, uma das primeiras preocupações da escola costuma ser a definição das medidas a serem tomadas com quem praticou a agressão. Esse movimento é necessário. Afinal, crianças e adolescentes precisam compreender que suas ações têm impactos reais na vida de outras pessoas e que determinadas condutas exigem responsabilização.

Mas a resposta não pode terminar aí.

Se o objetivo da escola é apenas interromper um comportamento, a punição pode cumprir esse papel momentaneamente. Se a intenção é evitar que a violência se repita, é preciso ir além e compreender o que sustenta essas atitudes.

Vanessa Cavalieri recorre a uma reflexão de Marshall Rosenberg para ampliar esse olhar: “a violência é uma forma trágica de reagir a uma necessidade legítima não atendida”.

Essa perspectiva não busca minimizar a gravidade das agressões e muito menos justificar quem as pratica. Pelo contrário. Ela nos lembra que responsabilização e educação não são caminhos opostos — são processos que precisam caminhar juntos.

Nesse contexto, estratégias como a justiça restaurativa, o fortalecimento da convivência escolar e o desenvolvimento de competências socioemocionais tornam-se aliados importantes. Afinal, prevenir a violência também significa criar oportunidades para que crianças e adolescentes aprendam a lidar com conflitos, frustrações e emoções antes que esses sentimentos se transformem em novas formas de agressão.

O desafio da escola não é ensinar apenas a usar inteligência artificial

A inteligência artificial continuará fazendo parte da vida dos estudantes. A tendência é que sua presença aumente, acompanhando a evolução das tecnologias e sua incorporação ao cotidiano.

Diante disso, talvez a pergunta mais importante já não seja se a IA deve ou não estar presente na educação.

“Hoje, quase 70% dos alunos de 9 a 13 anos já utilizam IA no Brasil. Ou seja: a questão não é se a inteligência artificial fará parte da vida escolar. Ela já faz”, lembra Caio Lo Bianco.

O desafio passa a ser outro: como formar crianças e adolescentes para fazerem uso consciente dessas ferramentas?

Isso exige um trabalho que vai além do domínio técnico. Envolve desenvolver pensamento crítico, ética, empatia, capacidade de analisar informações, reconhecer consequências e tomar decisões responsáveis.

Em outras palavras, precisamos preparar os estudantes para compreender não apenas o funcionamento das tecnologias, mas também seus efeitos sobre as pessoas, as relações e a sociedade.

É justamente aí que a educação socioemocional e o letramento digital deixam de ser temas periféricos e passam a ocupar um lugar estratégico na formação integral.

Em um contexto em que novas ferramentas surgem continuamente, talvez a competência mais importante seja justamente aquela que nenhuma inteligência artificial consegue substituir: a capacidade humana de agir com discernimento, responsabilidade e cuidado com o outro.

A prevenção começa antes da crise

Quando uma imagem manipulada se espalha entre os alunos ou um caso de violência digital chega à coordenação, normalmente a escola precisa agir rapidamente. Mas o que poderia ter sido construído antes para que aquela situação não acontecesse?

Se a conversa sobre cidadania digital acontece só quando um problema aparece, a gente perde a oportunidade de formar estudantes para agir de maneira mais ética e consciente desde o início.

Quando discutimos os direitos e deveres no ambiente digital, podemos ajudar a tornar a prevenção parte do projeto pedagógico e não apenas em uma resposta às crises.

Mas vale dizer que, em um cenário em que a inteligência artificial amplia possibilidades e também riscos, preparar crianças e adolescentes para viver nesse ambiente é um compromisso compartilhado entre escola, famílias e sociedade.

Ou seja: é uma responsabilidade coletiva. Educar é, mais do que nunca, formar pessoas capazes de utilizar as tecnologias sem perder aquilo que nos torna humanos.

Quer aprofundar essa conversa na sua escola?

As reflexões apresentadas neste artigo fazem parte de uma discussão muito mais ampla sobre os desafios da vida digital na educação.

Para apoiar gestores e educadores nesse debate, o LIV – programa brasileiro que é referência em educação socioemocional, em parceria da juíza e embaixadora do LIV, Vanessa Cavalieri, preparamos um material gratuito que reúne quatro aulas sobre temas que já fazem parte da rotina escolar, como cyberbullying, exposição nas redes, inteligência artificial, convivência e desenvolvimento emocional.

Além de vídeos com as reflexões da juíza e embaixadora LIV, a trilha traz textos de apoio e sugestões de atividades para transformar esses temas em experiências pedagógicas, para ajudar a fortalecer a formação de estudantes para uma cidadania digital mais ética, crítica e responsável. Acesse gratuitamente o material neste link.

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