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Inteligência Artificial nas escolas: além das telas

Bruno Fischetti, gerente pedagógico da Ways Bilingual School, analisa por que a Inteligência Artificial deve deixar de ser apenas ferramenta e se tornar objeto de conhecimento, formando estudantes críticos, éticos e preparados para a cultura digital

Bruno Fischetti*

Os algoritmos personalizam os feeds das redes sociais, os curtas capturam a atenção do público nas plataformas de streaming e ferramentas são capazes de redigir textos, criar imagens e editar vídeos em segundos. A Inteligência Artificial (IA) já faz parte do cotidiano e influencia diretamente a maneira como nos informamos, aprendemos e tomamos decisões e essa transformação, claro, também já chegou às escolas.

Educadores vêm incorporando tecnologias baseadas em IA dentro e fora da sala de aula para otimizar processos, planejar atividades e personalizar conteúdos. Os estudantes, por sua vez, utilizam essas ferramentas em pesquisas, estudos e na produção de trabalhos. Diante desse cenário já posto, não basta apenas experimentar a IA: é fundamental transformá-la também em objeto de conhecimento pedagógico.

Sem mediação crítica, os alunos ficam expostos a desafios complexos, como desinformação, violação de direitos autorais, dependência tecnológica e reprodução de vieses algorítmicos. O uso ético e reflexivo das tecnologias não é uma habilidade inata; exige formação, acompanhamento e intencionalidade educativa.

Essa urgência é reforçada por dados globais da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2024, que apontam que 49% dos jovens entre 17 e 27 anos têm dificuldade em avaliar criticamente conteúdos gerados por IA e identificar falhas nessas produções. O cenário torna-se ainda mais preocupante quando observamos que 55% aprendem sobre essas tecnologias de forma desassistida, principalmente pelas redes sociais, e não sob orientação estruturada no ambiente escolar.

Nesse contexto, o papel do educador ganha ainda mais relevância. O professor deixa de ocupar exclusivamente a função de transmissor de conteúdo para atuar como mediador entre o estudante, o conhecimento e a tecnologia. Mais do que ensinar a utilizar ferramentas, cabe à escola desenvolver repertório crítico para que os alunos compreendam limites, impactos e implicações éticas da IA.

As próprias ferramentas já vêm auxiliando professores na preparação de aulas, síntese de conteúdos e elaboração de avaliações personalizadas. A última edição da pesquisa internacional Talis, que analisa as condições de trabalho de professores e diretores escolares, mostra que 56% dos docentes brasileiros já utilizam IA em suas atividades profissionais — percentual significativamente superior à média de 36% registrada entre países da OCDE. Ao mesmo tempo, 64% afirmam não possuir conhecimento ou habilidades suficientes para ensinar com IA nas escolas.

Os dados revelam um paradoxo: o professor brasileiro demonstra elevado engajamento e abertura à inovação, mas ainda enfrenta lacunas estruturais e formativas que precisam ser enfrentadas pelas instituições educacionais e pelas políticas públicas. Essa preocupação também aparece nos referenciais de competências em IA para professores publicados pela Unesco em 2025. O documento alerta para o risco de desvalorização do papel docente e para o enfraquecimento das relações humanas no processo de aprendizagem caso o ensino seja reduzido a tarefas automatizadas e impessoais. A IA deve potencializar a experiência pedagógica — nunca substituir o vínculo humano que sustenta a educação.

Nesse processo, a escola não pode caminhar sozinha. O envolvimento das famílias é essencial para garantir continuidade ao uso ético e equilibrado da tecnologia também fora do ambiente escolar. A formação de crianças e jovens passa por um esforço conjunto, baseado tanto no “pensar sobre a IA” — com compreensão crítica, análise de riscos e responsabilidade digital — quanto no “pensar com a IA”, ou seja, no uso prático dessas ferramentas para resolver problemas reais, criar soluções e ampliar possibilidades de aprendizagem.

Às famílias cabe promover diálogo aberto sobre o ambiente digital, acompanhar a rotina tecnológica dos filhos, estabelecer limites saudáveis para o uso de telas e fortalecer as diretrizes pedagógicas definidas pelas escolas. Nas redes privadas, esse alinhamento já começa a ganhar forma por meio de políticas institucionais, comitês de ética e protocolos pedagógicos. Nas redes públicas, iniciativas estaduais e o protagonismo dos docentes têm impulsionado caminhos viáveis para inclusão e uso pedagógico intencional da IA.

O avanço da Inteligência Artificial nas salas de aula brasileiras também começa a encontrar respaldo institucional. Recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou diretrizes que orientam escolas e redes de ensino a adotar a tecnologia como ferramenta de apoio pedagógico, sempre sob supervisão humana. Embora o texto ainda dependa de novas discussões antes de eventual homologação federal, ele sinaliza um importante amadurecimento das políticas públicas voltadas à educação digital.

Para as escolas, as novas diretrizes trazem desafios importantes, como transparência no uso de algoritmos, auditoria humana para mitigação de vieses e conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). No campo social, o debate também envolve justiça digital e equidade, evitando que a IA aprofunde desigualdades históricas entre redes públicas e privadas.

Todas essas discussões tornam-se ainda mais relevantes porque acontecem em um momento em que a IA já é realidade concreta para milhões de estudantes e professores em todo o país. A Inteligência Artificial não substitui o brilho do olhar de um professor que inspira, nem a segurança do ambiente familiar que acolhe e orienta. Ensinar crianças e jovens a utilizar essas ferramentas de maneira ética, crítica e responsável significa prepará-los para governar a tecnologia — e não serem governados por ela.

Ao integrar a IA como objeto de conhecimento pedagógico, a escola transforma receio em consciência crítica, consumo passivo em protagonismo e tecnologia em instrumento de formação cidadã para um futuro mais humano e igualitário.

***Gerente pedagógico da **Ways Bilingual School

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