Lara Crivelaro analisa como os programas de internacionalização da rede pública de São Paulo ampliam o acesso à cidadania global e revelam novos caminhos para a educação básica brasileira
A internacionalização da educação básica deixou de ser um debate restrito às escolas privadas e de elite. São Paulo está demonstrando, com dados e com política pública concreta, que o acesso a experiências internacionais pode — e deve — ser tratado como direito educacional, e não como privilégio de quem pode pagar por ele. Os programas que a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo vem estruturando desde 2023 representam uma inflexão importante nessa história, e vale examiná-los com a atenção que merecem.
Há um argumento consolidado na literatura sobre educação comparada de que estudantes expostos a experiências de imersão cultural e linguística desenvolvem competências que nenhum currículo exclusivamente doméstico consegue produzir com a mesma intensidade: tolerância à ambiguidade, capacidade de perspectiva-taking, flexibilidade comunicativa, e o que os pesquisadores de desenvolvimento de cidadania global chamam de disposição cosmopolita — a aptidão de reconhecer-se como parte de uma comunidade que ultrapassa as fronteiras do próprio país. Essas competências não são ornamentais. No mundo em que os estudantes de hoje vão trabalhar, colaborar e viver, elas são funcionais.
O problema é que, historicamente no Brasil, o acesso a esse tipo de formação foi segmentado por renda. Famílias com capacidade de investimento mandavam filhos para programas de intercâmbio, cursos de verão no exterior, escolas bilíngues. A grande maioria dos estudantes da educação pública ficava fora desse circuito, não por falta de mérito ou de interesse, mas por ausência de política. Essa assimetria não é apenas injusta do ponto de vista da equidade — ela é pedagogicamente custosa, porque priva o sistema de educação pública da diversidade de experiências que enriquece o aprendizado coletivo.
O Prontos Pro Mundo: o maior programa público de intercâmbio já realizado no Brasil
O Prontos Pro Mundo é o maior programa público de intercâmbio já realizado no Brasil. Em sua fase inicial, oferece aulas intensivas de inglês para 70 mil estudantes da rede estadual de São Paulo, com uma segunda fase que envia os estudantes selecionados para países de língua inglesa.
O programa foi instituído pela Lei Estadual nº 17.861, de 22 de dezembro de 2023, sancionada pelo governador Tarcísio de Freitas, e prevê que 70 mil estudantes sejam beneficiados com curso intensivo de inglês a partir de 2024 e 1.000 estudantes com intercâmbio para países de língua inglesa a partir de 2025.
A arquitetura do programa é relevante porque combina duas lógicas que frequentemente ficam dissociadas nas políticas públicas de educação: a preparação em larga escala e a excelência seletiva. Na primeira fase, são selecionados até 70 mil alunos para participar do curso de inglês. Na segunda fase, são selecionados 1.000 alunos, com critérios que combinam desempenho escolar, aprendizado de inglês e frequência — 645 representantes de cada um dos municípios do Estado e 355 divididos proporcionalmente entre as 91 Diretorias de Ensino. Isso significa que o programa não concentra suas vagas nas regiões metropolitanas mais desenvolvidas: cada município do estado tem pelo menos uma vaga garantida, o que é uma decisão de desenho de política com consequências de equidade genuínas.
Durante três meses fora do Brasil, os estudantes são matriculados em escolas de Ensino Médio locais — o equivalente a um high school — e ficam hospedados em casas de família. O intercâmbio é 100% gratuito para o aluno e sua família, com todos os custos e organização providenciados pela Secretaria da Educação: documentos pessoais como passaporte e visto, hospedagem, aulas, traslados e passagens aéreas são cobertos, além de bolsa-auxílio para despesas pessoais durante a estadia.
O programa também prevê uma dimensão de retorno comunitário. Ao voltar, o estudante assume o compromisso de atuar como “embaixador” do programa, compartilhando a experiência com a comunidade escolar. Esse mecanismo é pedagogicamente inteligente: a experiência individual se converte em recurso coletivo, e a escola pública passa a ser um espaço onde o mundo entra, mesmo para quem não viajou.
O Prontos Pro Mundo também contempla professores. Serão selecionados 15 mil docentes de língua inglesa das escolas estaduais para o curso intensivo de inglês, e 100 deles devem ser selecionados para intercâmbio de formação em cursos de duração de um mês no exterior. Isso é relevante porque qualquer política de internacionalização que se limite ao estudante sem investir no professor perde força de continuidade: a transformação precisa acontecer também em quem ensina.
O Conexão São Paulo: quando o intercâmbio é de mão dupla
Se o Prontos Pro Mundo resolve um lado da equação — levar estudantes brasileiros ao exterior —, o programa Conexão São Paulo resolve o outro: trazer estudantes estrangeiros para dentro das escolas públicas paulistas. Previsto para agosto de 2026, o programa representa uma lógica complementar e, em certos aspectos, ainda mais sofisticada do ponto de vista pedagógico.
Receber estudantes internacionais numa escola pública não é apenas um gesto de abertura. É uma intervenção curricular viva. Os alunos brasileiros que convivem com colegas de outros países dentro de uma sala de aula regular desenvolvem competências interculturais que nenhum livro didático substitui: aprendem a comunicar-se com quem tem referências diferentes, a negociar significados, a reconhecer que seu modo de ver o mundo é um entre muitos modos possíveis. Para escolas que historicamente foram percebidas como espaços de alcance local, a chegada de estudantes estrangeiros representa uma reconfiguração de identidade institucional com efeitos de longo prazo.
Do ponto de vista da formação de professores, o desafio também é produtivo. Gerir uma sala de aula com estudantes de diferentes origens linguísticas e culturais exige competências pedagógicas que colocam o docente em desenvolvimento permanente. O Conexão São Paulo, nesse sentido, não é apenas um programa para alunos: é um vetor de desenvolvimento profissional para toda a comunidade escolar.
O que torna a combinação entre o Prontos Pro Mundo e o Conexão São Paulo especialmente significativa é a reciprocidade que ela instaura. Um sistema educacional que apenas exporta seus estudantes para aprender com o mundo, sem criar condições para que o mundo venha aprender com ele, reproduz uma assimetria colonial que o discurso de cidadania global, paradoxalmente, pode reforçar se não for cuidadoso.
A reciprocidade — eu vou ao outro e o outro vem a mim — é o fundamento de qualquer relação intercultural que aspire à igualdade. Quando escolas públicas brasileiras recebem estudantes internacionais, elas deixam de ser apenas consumidoras de uma experiência global e passam a ser produtoras dela. Isso tem consequências para a autoestima institucional, para a percepção que as comunidades têm de suas próprias escolas, e para a narrativa que os jovens constroem sobre o lugar que ocupam no mundo.
O que o setor privado e as escolas parceiras podem aprender com isso
Para as escolas privadas que já desenvolvem programas de internacionalização — seja por meio de parcerias com organizações especializadas, de trilhas de certificação internacional ou de programas de mobilidade próprios —, o que o governo de São Paulo está construindo não é concorrência. É validação. O investimento do Estado na internacionalização da educação básica pública confirma o que as escolas mais avançadas já sabiam: a formação de cidadãos globais não é um diferencial de mercado; é uma responsabilidade educacional.
O setor privado, no entanto, pode e deve ir além do que a política pública oferece. Programas de internacionalização no ensino privado têm condições de incorporar maior profundidade curricular, continuidade longitudinal — do Ensino Fundamental II ao Médio — e integração com percursos de candidatura a universidades internacionais. O espaço para diferenciação existe, mas precisa ser construído com rigor pedagógico, não apenas com o apelo do passaporte.
Há também uma oportunidade de colaboração que ainda está subutilizada: a parceria entre escolas privadas e a rede pública em iniciativas de internacionalização colaborativa. Projetos de intercâmbio entre turmas, produção conjunta de materiais bilíngues, exposição compartilhada a estudantes visitantes — essas são formas de ampliar o alcance da cidadania global sem que o setor privado abra mão de sua identidade, e sem que o setor público precise reinventar a roda.
Reconhecer o que São Paulo está fazendo não significa ignorar os limites do que está sendo feito. Mil estudantes num universo de 3,5 milhões é um início, não uma política consolidada. O critério de seleção por mérito acadêmico, embora necessário para garantir aproveitamento real do intercâmbio, deixa de fora exatamente os estudantes em maior vulnerabilidade — aqueles para quem uma experiência internacional poderia ter o maior efeito transformador. A dimensão de preparação intercultural dos estudantes antes da viagem também merece atenção: dominar inglês não é o mesmo que estar pronto para navegar diferenças culturais, e os dois não podem ser confundidos.
Finalmente, a questão da continuidade. Programas de internacionalização que dependem de governos específicos são frágeis por natureza. O que São Paulo está construindo precisa ser institucionalizado de modo a sobreviver a ciclos eleitorais — e isso passa por legislação robusta, orçamento vinculado e avaliação sistemática de impacto.
Mas que o movimento começou, e que ele aponta na direção certa, é inegável.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










