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Na estreia da Coluna Letramento Digital, Betina von Staa reflete sobre como a tecnologia transformou a vida cotidiana e discute por que crianças, jovens, adultos e educadores precisam desenvolver competências para conviver de forma crítica, ética e consciente com o mundo digital

Sou uma pessoa que viveu e cresceu sem telefone celular. Se havia uma festa, distribuíamos convitinhos para festas em papel, com data, horário e local, ou combinávamos de ir ao cinema pelo telefone com fio, mesmo. Até sabíamos os números dos telefones dos parentes e melhores amigos de cor! Quem usava ônibus conhecia as linhas e chegava aonde queria, pagando a passagem em dinheiro. Quem ia a pé ou de carro conhecia os caminhos, ou perguntava para alguém que soubesse ou, até, olhava no mapa como chegar ao local desejado.

Hoje uso celular para despertar pela manhã, para saber das notícias, para fazer pix, para falar com amigos e parentes, para organizar eventos, para comprar ingressos, para fazer compras, para trocar mensagens com o pessoal do trabalho, para ouvir música, para assistir vídeos bobos, para checar informações que as redes sociais acham que eu deveria ver, para pesquisar informações que eu desejo saber, para agendar exames, baixar receitas do médico, pedir reembolso, ver o que os amigos têm feito, tudo junto e misturado!

Aí, quando estou na academia acompanhando a sequência do treino que está no celular, recebo uma notificação sobre a ventania, ou um “oi” da filha e lá se foi a atenção. Pego o celular para enviar uma mensagem para um colega de trabalho, recebo outra mensagem de outro colega de trabalho e aquela mensagem que queria mandar fica esquecida.

Minhas filhas, por sua vez, não sabem ler mapa do Guia 4 Rodas, não sabem usar telefone com fio, e acham muito natural que toda a vida seja resolvida pelo celular. Mudam de tela no dispositivo com muito mais facilidade do que eu, mas também perdem o fio de atenção com as múltiplas notificações dos dispositivos. Trabalham com tecnologia em diferentes graus de complexidade, pesquisam em buscadores comuns e via IA. E elas sabem que, quando estão com muita demanda de trabalho, precisam desligar as notificações do celular, e quando estão sentindo um vazio interior precisam sair das redes sociais.

Já meus pais sabem encontrar telefones em agendas de papel e ler mapa, pagam em dinheiro, conhecem os nomes das ruas, telefonam para desejar feliz aniversário, e se divertem nas redes sociais, se chocam com notícias que chegam a eles, se estressam com as bobagens que seus amigos enviam por WhatsApp, e precisam dar um jeito de navegar por e-gov, aplicativo de plano de saúde e de banco. Com mão que treme, necessidade de óculos. E recebem muita mensagem de golpistas.

E as crianças que nasceram este ano, já devem estar brincando com bonecos que falam como gente.

O que podemos não estar percebendo é que não usamos “celular” para resolver a nossa rotina. Usamos uma quantidade enorme de aplicativos criados para as mais variadas finalidades, todos competindo pela nossa atenção. Uns facilitam a vida, outros nos consomem – ou ambos. Uns, de fato, são simpáticos e nos ajudam, outros são excludentes. (Já viu como é fazer reconhecimento facial se precisa de óculos? “Tire os óculos”, “aproxime a câmera”… mas como vou ler sem óculos?!) Uns incorporam IA para resolver nossos problemas, outros nos abandonam com um robô alucinado. 

Deste modo, aquele celular que foi incorporando funcionalidades para facilitar a nossa vida (e para ele se tornar cada vez mais imprescindível) acaba se tornando um gerador de distração e confusão.

Diante de tudo isso, vem a pergunta: quem precisa de letramento digital? A pessoa que está confusa com o monte de aplicativos em um dispositivo só? A pessoa cuja mão treme na hora de clicar nos botões do celular? A pessoa que inveja o vizinho que está sempre bem nas redes sociais? A pessoa que acredita que a IA faz tudo melhor e mais rápido e terceiriza seu trabalho mental? A pessoa que acredita nas certezas da IA ou que acha que a IA realmente se importa com ela?

Ou são as pessoas que criam os aplicativos que precisam compreender e desenvolver limites éticos para lidar com questões acessibilidade e saúde mental dos seus usuários?

Ou são as pessoas que têm o poder para regular o uso de tecnologia, mesmo que não tenham o domínio de como são criados os artefatos tecnológicos?

Precisamos formar os jovens, que “sempre” usaram tecnologia, não se surpreendem com ela e não conhecem outro mundo, ou as pessoas de mais idade, que viram tudo isso surgir e têm diferentes referenciais?

Precisamos formar os alunos a respeito de tecnologia e sociedade, ou apoiar os professores, que têm o dever de formar mesmo sem ter recebido formação?

Parece que todos têm a necessidade de se distanciar um pouco do uso rotineiro da tecnologia, e visualizar os efeitos de riscos desses encontros entre humanos e máquinas, ou dos encontros entre humanos cada vez mais mediados por tecnologia.

É com muita alegria que convido você a acompanhar a minha coluna no educador21, Letramento Digital.

A cada mês, vamos investigar um desses encontros de perto! Aguardem!

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