Pedro Flexa Ribeiro mostra neste artigo como a tese de McLuhan ajuda a compreender os impactos da tecnologia, da IA e das mídias na educação contemporânea
Pedro Flexa Ribeiro*
“O meio é a mensagem”. O aforismo do educador e comunicólogo canadense Marshall McLuhan nos parece mais atual do que nunca. Muito antes da Inteligência Artificial (I.A.), ainda no início da televisão, McLuhan já defendia que os meios de comunicação são capazes de moldar e transformar as relações humanas. Mais do que a mensagem, a tecnologia, suporte para a mensagem, altera a nossa forma de estar no mundo, a nossa percepção sobre o tempo e, portanto, a nossa subjetividade.
Em outras palavras, a nossa leitura de mundo não é influenciada apenas pelo conteúdo em si, mas também pela própria forma como a mensagem é transmitida. Expressa há quase setenta anos, essa percepção hoje conta com o reforço de muitas evidências. Entre elas, correntes no campo da Educação.
Basta olharmos para o século XX, quando a Educação brasileira mobilizou-se em função de uma longa polêmica acerca do papel do ensino e da Escola frente ao acelerado processo de industrialização. O período entre guerras, época do rádio, da imprensa e da mídia centralizada, foi marcado pela polarização e por totalitarismos. Uma corrente entendia que caberia à Escola preparar mão de obra para o processo de industrialização. Outros propunham que o ensino mobilizasse a juventude para repensar criticamente a realidade social e transformá-la. Atribuíam ao Estado o papel de agente propulsor, através da escola pública laica, gratuita, obrigatória e única. A ideia era de que o dualismo do sistema de ensino fosse superado pelo currículo unitário, estabelecido de forma centralizada pelo Estado: uma mesma escola para todos. Nota-se que estado, escola e mídia tinham como característica a centralização.
Supunha-se assim que um currículo único e obrigatório seria a estratégia necessária para, através da escola, promover equidade e superação das desigualdades sociais. Nessa perspectiva, importava assegurar aos filhos das classes trabalhadoras o mesmo repertório de conteúdos a que tinham acesso os demais estudantes. Naquela época, os currículos escolares ainda eram concebidos para compensar um contexto de escassez de conhecimentos. As prescrições sobre o sistema de ensino eram um importante instrumento de controle do governo sobre as sociedades.
Passados alguns anos, após o período de ditadura militar e o restabelecimento da democracia, a LDB 9.394 de 1996 – que vigora há trinta anos – exortou as escolas a desenvolverem, cada uma delas, o seu próprio Projeto Pedagógico, em consonância com sua identidade e vocação institucional. Este período coincide com o advento da internet, o avanço da globalização e a diluição das fronteiras geográficas. Superando a antiga tendência centralizadora, a LDB procurou induzir a experimentação e a inovação curricular, mas acabou vencida, nesses objetivos, por regulamentações posteriores e pela unificação do concurso seletivo para o acesso ao Ensino Superior que, indiretamente, promoveram o retorno de um currículo monolítico, na contramão da saudável diversidade.
Nos vemos agora convocados pela acelerada Revolução Tecnológica. Se a escola de outros tempos foi concebida em contexto de escassez de informações, hoje já não é esse o caso. Os alunos são “nativos digitais”, gerações que já nascem imersas nas redes sociais. O conhecimento e as informações lhes chegam em fluxo livre, pelas redes e algoritmos. A exponencial aceleração tecnológica dos tempos atuais revela que o debate do século XX estava fora de foco. Somos forçados a reconhecer que mais do que a Escola ou a Indústria, são as mídias que pautam a Educação de cada época.
As mudanças que se impõem à escola têm como causa pressões advindas de outro campo que não o da Educação. Em todos os sistemas de ensino, o trabalho das escolas vêm sofrendo o impacto de sucessivas ondas de novas tecnologias que as assolam em ritmo e intensidade cada vez maior em função das mudanças em todo o contexto cultural. Desde a disseminação dos “smartphones”, em 2007, passaram-se quase 20 anos, ao longo dos quais escolas e consultórios testemunharam grandes transformações na infância e na adolescência. Cabe lembrar, ainda, que neste março de 2026, completam-se seis anos desde que as escolas suspenderam as atividades presenciais em virtude da pandemia COVID-19. O remoto emergencial implicou a desmaterialização de processos. A sala de aula se dissolveu e migrou para as telas.
O “novo normal” se estabeleceu já com a chegada da I.A. , que subverteu vários processos, como a avaliação. E agora, em movimento inverso, anuncia-se que a “Internet das coisas” levará a I.A. a se emancipar das telas para permear todos os ambientes que nos cercam: na escola, na sociedade mas também em casa, interagindo com os bebês desde o berço, aninhada em ursos de pelúcia, bonecas e outros brinquedos. Evidentemente, preocupam as consequências para as formas de subjetivação e para o psiquismo das próximas gerações.
Nesse mar revolto, as escolas arriscam se desnortear e tomar decisões equivocadas, que as afastem do rumo pretendido. Para não se perderem, convém que elejam referenciais consistentes, que superem as transformações tecnológicas. No contexto das escolas e do ensino, é diante do nosso “não saber” que devemos conduzir o trabalho das próximas gerações. Essa reflexão requer uma curadoria das referências que serão utilizadas, tanto no que se refere à abordagem tecnológica quanto aos pressupostos teóricos que sustentam cada Projeto educativo.
Vivemos um momento em que a expectativa ou mesmo a exigência de instantaneidade torna-se cada vez mais presente. Em vez de elaborar a angústia e encontrar a função do sintoma, procura-se suprimi-los com analgesia. Por isso, entre as correntes teóricas de Educacionais que vigoram hoje, ganham popularidade as abordagens ligadas à Teoria Cognitiva Comportamental (TCC), à neurociência organicista, e à medicação da infância e adolescência.
Uma possibilidade a ser considerada pela Escola é recorrer aos pressupostos e à concepção de Ser Humano que fundamentam o seu Projeto Educativo como conteúdo a ser ensinado aos seus alunos. Assim, quando hoje discutimos a inserção de I.A. na escola, convém ampliar o escopo e pensar esse tema como mais uma parte da Educação Midiática que será proporcionada às próximas gerações, sempre pautada na ética, na responsabilidade e no estímulo à criatividade. Uma vez que a presença da IA já é um dado de realidade na vida da próxima geração, cabe aos educadores compreender como é possível trabalhá-la em sala de aula e mobilizá-la para a promoção da autoria de pensamento dos alunos.
Escolas e educadores são chamados a discernir e propor encaminhamentos que convenham à realidade dos alunos que estão em suas salas de aula. As inovações necessárias irão brotar e amadurecer a partir de investigações e experimentações às quais possamos nos autorizar, sempre prontos a nos responsabilizar e a responder pelo que encaminhamos. Cada escola deve assumir atitude proativa e encaminhar abordagens que correspondam aos pressupostos do seu Projeto Educativo e ao interesse dos alunos.
Em meio a tantas normativas que se sobrepõem, reivindicar mais prescrições seria clamar por tutela e buscar refúgio em atitude de heteronomia, vestígios de uma época de centralização que já não cabe no mundo atual.
A trajetória percorrida pela Educação brasileira atesta que a equação proposta por Mcluhan é, em certa medida, ainda pertinente. As transformações tecnológicas e midiáticas de fato impactam. O amadurecimento de sociedades democráticas é favorecido pela liberdade de pensamento que, por sua vez, é fomentada pela liberdade de opinião, de expressão e de ensino. É nesse cenário que o currículo do Ensino Médio encontra, finalmente, condições de ser flexibilizado. A inovação curricular, hoje tão necessária, brotará da liberdade que se tenha para ousar e experimentar, em consonância com as novas tecnologias. Diante das rápidas transformações dos suportes e linguagens, tal qual afirmou McLuhan, impõe-se à educação o desafio de garantir que a inovação tecnológica não obscureça aquilo que lhe é essencial: a formação de sujeitos autores e criativos.
_*Educador, diretor do Colégio Andrews e membro do _Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro










