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Rede municipal investe em formação docente e desenvolvimento socioemocional para integrar inteligência artificial sem perder a centralidade das relações humanas na aprendizagem

A mediação pedagógica tornou-se um dos temas centrais do debate educacional diante da rápida expansão da inteligência artificial nas escolas. Ferramentas capazes de produzir textos, responder perguntas e resolver problemas em segundos já fazem parte da rotina de milhões de estudantes brasileiros. O desafio, no entanto, não está apenas em incorporar essas tecnologias ao ambiente escolar, mas em garantir que elas contribuam efetivamente para a aprendizagem.

Dados da TIC Educação mostram que sete em cada dez estudantes do Ensino Médio utilizam inteligência artificial para realizar pesquisas. Ao mesmo tempo, apenas uma parcela deles recebeu orientação formal sobre o uso pedagógico dessas ferramentas. O cenário reforça uma questão que vem mobilizando redes de ensino em todo o país: como preparar estudantes para utilizar a IA de forma crítica, ética e alinhada aos objetivos educacionais?

Em abril deste ano, o Ministério da Educação deu mais um passo nessa discussão ao lançar o documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica. O texto reconhece o potencial das novas tecnologias para apoiar o ensino, mas destaca que a formação docente, o desenvolvimento de competências e a atuação dos professores permanecem elementos indispensáveis para qualquer processo educativo.

Enquanto essa agenda avança nacionalmente, algumas redes municipais já buscam construir respostas concretas para os desafios da transformação digital. Em Angra dos Reis, no litoral fluminense, a estratégia passa pelo fortalecimento do desenvolvimento humano, da formação continuada e da mediação pedagógica como pilares para a integração da tecnologia.

A experiência da rede municipal sugere que, em um contexto cada vez mais automatizado, a principal inovação pode estar justamente na valorização daquilo que nenhuma inteligência artificial consegue substituir: a capacidade humana de interpretar, dialogar, acolher e construir sentido coletivamente.


Desenvolvimento socioemocional amplia a mediação pedagógica

A discussão sobre inteligência artificial costuma concentrar-se em ferramentas, plataformas e recursos tecnológicos. Em Angra dos Reis, porém, a pergunta que orienta a política educacional segue outro caminho: quais competências humanas precisam ser fortalecidas para que estudantes possam navegar em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos?

Para o secretário municipal de Educação, Paulo Fortunato, a resposta passa pelo desenvolvimento socioemocional e pela ampliação do chamado letramento humano. Segundo ele, a velocidade das transformações tecnológicas exige uma formação capaz de integrar conhecimentos acadêmicos, habilidades relacionais e consciência crítica sobre o uso das informações.

“Nossos estudantes precisam estar preparados para os desafios que este século nos impõe. As informações cada vez mais aceleradas e o desenvolvimento tecnológico adentrando a vida pessoal, social e escolar exigem uma formação voltada para a compreensão do letramento humano. A necessidade do desenvolvimento socioemocional ganha ainda mais força neste cenário”, afirmou.

Foto: mindlab

Foto: Paulo Fortunato, Secretário Municipal de Educação de Angra dos Reis

Essa visão sustenta a implementação do Programa Mente Inovadora, desenvolvido pela Mind Lab. A iniciativa atende da Educação Infantil ao Ensino Fundamental II, por meio de atividades que combinam jogos de raciocínio, estratégias metacognitivas e mediação docente.

A continuidade dessa política tem respaldo direto da gestão municipal. Sob o comando do prefeito Claudio Ferreti, Angra dos Reis tem priorizado a educação como eixo estratégico de desenvolvimento do município, garantindo que programas como o Mente Inovadora se mantenham e se ampliem ao longo dos anos.

O objetivo é desenvolver competências como autorregulação emocional, tomada de decisão, pensamento crítico, resolução de problemas e colaboração. Habilidades que ganham relevância justamente em um contexto em que o acesso à informação se torna cada vez mais simples, mas a capacidade de interpretá-la continua sendo um diferencial humano.

Segundo a superintendente de Educação, Fabiane Alves, os resultados aparecem tanto no desempenho acadêmico quanto no fortalecimento das relações dentro da escola. Para ela, o desenvolvimento socioemocional não é um elemento paralelo à aprendizagem, mas parte integrante da qualidade educacional.

Foto: MindLab

Foto: Claudio Ferreti, Prefeito de Angra dos Reis

Formação docente prepara educadores para a era da IA

Se a mediação pedagógica assume papel estratégico diante da inteligência artificial, a formação docente torna-se condição indispensável para que essa mediação aconteça de forma qualificada. Na avaliação da Secretaria Municipal de Educação, a chegada da IA não reduz a importância dos professores. Pelo contrário.

Quanto mais acessíveis se tornam as respostas prontas, maior é a necessidade de profissionais capazes de orientar processos de investigação, análise crítica e construção de conhecimento. A política educacional do município está organizada a partir da chamada Gestão para Resultados Educacionais, que articula aprendizagem dos estudantes, desenvolvimento de lideranças escolares e formação continuada dos docentes.

A premissa é que as transformações efetivas acontecem na sala de aula e dependem da atuação dos educadores. Fortunato defende que o professor continua sendo o principal mediador do processo educativo. Para ele, o desafio contemporâneo não é competir com a tecnologia, mas ensinar os estudantes a utilizá-la de forma consciente e responsável. Essa percepção também aparece no cotidiano das escolas.

Essa visão também é compartilhada pelo prefeito Claudio Ferreti, que sempre reforça publicamente a formação docente como uma das prioridades de sua gestão, entendendo que investir no professor é investir diretamente na qualidade da educação oferecida à população de Angra dos Reis.

A professora Nara Fernandes de Oliveira relata que muitos estudantes utilizam ferramentas de inteligência artificial para buscar respostas rápidas para atividades propostas pelos docentes. Embora o comportamento não seja necessariamente novo, a tecnologia ampliou sua velocidade e alcance. “O que mudou foi a técnica. O estudante percebeu que a IA é uma ferramenta que faz por ele. A busca por respostas prontas sempre existiu, mas agora ela acontece de forma muito mais rápida”, observou a docente.

Diante desse cenário, a rede tem ampliado os processos formativos relacionados à tecnologia. Desde 2025, a computação passou a integrar o currículo municipal, exigindo novas estratégias de capacitação para os professores. Fabiane Alves reconheceu que esse movimento ainda está em construção, especialmente porque muitos educadores não tiveram contato com temas ligados à inteligência artificial durante sua formação inicial. A aposta, portanto, está na formação continuada como instrumento de atualização permanente.

Foto: MindLab

Foto: Fabiane Alves, Superintendente de Educação de Angra dos Reis

A escola segue insubstituível em um mundo digital

Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, a experiência de Angra dos Reis reforça uma convicção que atravessa diferentes correntes pedagógicas: a aprendizagem é, essencialmente, um fenômeno social. O princípio está presente no Documento Orientador Curricular da rede e dialoga com referenciais como Vygotsky e Wallon, que destacam o papel das interações humanas e do afeto na construção do conhecimento.

A compreensão é de que estudantes aprendem não apenas por meio do acesso à informação, mas principalmente pelas relações que estabelecem com colegas, professores e comunidade escolar. Para Fabiane Alves, a interação continua sendo um elemento indispensável para o desenvolvimento integral dos estudantes.

Em um momento histórico marcado pela personalização tecnológica e pelo consumo individualizado de conteúdos, a escola permanece como espaço privilegiado para a convivência com a diversidade, a construção de vínculos e o exercício da cidadania. A experiência da rede municipal não pretende oferecer respostas definitivas para os desafios da inteligência artificial na educação.

O que que fica evidente é que a integração tecnológica tende a produzir melhores resultados quando está apoiada em bases já consolidadas de formação docente, desenvolvimento socioemocional e mediação pedagógica. Em um cenário de transformações aceleradas, Angra dos Reis aposta que o futuro da educação não será definido apenas pelas ferramentas disponíveis, mas pela capacidade das escolas de fortalecer aquilo que continua exclusivamente humano: a construção de sentido, a convivência e a aprendizagem mediada por relações significativas.

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