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Lena Cypriano, diretora pedagógica do Progresso Bilíngue Campinas, compartilha aprendizados sobre investimento educacional, valorização docente e políticas de longo prazo a partir de visitas à China e à Malásia

Lena Cypriano*

Estar do “outro lado do mundo” é uma vivência de impacto profundo para qualquer educador. Durante 12 dias intensos de muita aprendizagem, tive a oportunidade de imergir no funcionamento da educação de dois países com trajetórias históricas, econômicas, políticas, sociais e religiosas completamente distintas do Brasil. A escolha inicial desse destino foi especialmente em razão dos excelentes índices atingidos pela China nas provas do PISA internacional, mas a jornada acabou se desmembrando também pela Malásia, país com crescente melhora na educação.

Passamos por metrópoles como Kuala Lumpur, Pequim e Shanghai. Foi impactante observar ambientes urbanos que alinham espaços limpos, preservação cultural, desenvolvimento econômico acelerado e alta qualidade de vida para a população. Todo um ecossistema que olha para a população e para a qualidade de vida. No entanto, o maior aprendizado ultrapassou as paisagens urbanas e esteve no coração de cada sala de aula visitada. Nada do “outro mundo”. Há robôs sim, mas há muitas pessoas. Há tecnologia e muita, mas são as pessoas que estão no centro de tudo: alunos e professores. Pudemos visitar escolas e vimos salas de aula organizadas, planejamento ocupando o tempo valioso do professor com os estudantes e escolas comprometidas com a formação integral dos alunos. Tempo para cuidar do corpo e da mente, incentivo aos esportes, ao conhecimento e à organização do tempo. 

Então para que ir tão longe para ver mais do mesmo?  Porque não vimos mais do mesmo, porque em cada visita pudemos perceber como o investimento em educação pode transformar positivamente um país inteiro.

O Impacto do Investimento Educacional nos Últimos 20 Anos

A transformação observada em campo na China e na Malásia não ocorreu por acaso; é o resultado de escolhas estratégicas e investimentos maciços em capital humano nas últimas duas décadas. O foco rigoroso no ensino de STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) permitiu que a China se tornasse uma potência global em alta tecnologia, inteligência artificial e energias renováveis. A qualificação de base abasteceu indústrias de ponta e centros de pesquisa avançados que levaram o país a deter o poder de inovação e autonomia tecnológica. Ao mesmo tempo, o acesso universal a uma educação pública forte criou um canal direto de mobilidade social, correlacionando-se diretamente à melhoria dos índices de saúde, segurança pública, cidadania e bem-estar geral, diretamente conectados a toda a tecnologia que é também gerada para a população. 

Na Malásia um país ainda em desenvolvimento, os índices locais revelam que o investimento em educação tem produzido excelentes resultados e uma trilha de caminho para resolução de problemas de desigualdade social. Com diretrizes educacionais de longo prazo (como o Malaysian Education Blueprint- o Plano Educacional da Malásia ), nos últimos vinte anos o país elevou sua taxa de alfabetização juvenil para mais de 98% e reduziu drasticamente a disparidade de aprendizado entre zonas urbanas e rurais. O investimento em tecnologia e educação potencializa a transformação desse país em ritmo acelerado. 

Nesse cenário, a convergência que se observa é o poder transformador da educação. Porque para além do olhar para as políticas públicas de saúde, mobilidade e qualidade de vida, esses dois países focaram na redução ou extinção do analfabetismo. E um fator fundamental para esse trabalho se mostra no reconhecimento financeiro e estrutural oferecido ao docente em ambos os locais visitados.  Esse é um dos pontos onde as diferenças entre os modelos asiático e brasileiro se tornam mais evidentes. O contraste entre a Ásia e o Brasil no tratamento dessa questão traz mais uma reflexão importante para a estrutura de um modelo que funciona.  Enquanto na Ásia (especificamente China e Malásia) os salários dos docentes que cumprem regime de 40 horas semanais, variam R$ 8.000 a R$ 24.000, situando-se significativamente acima da média salarial nacional e equiparando-se a carreiras corporativas ou de engenharia, no Brasil o Piso Salarial Nacional do Magistério para as mesmas 40 horas semanais gira na faixa dos R$ 4.800 a R$ 5.500, enquanto na rede privada a média salarial varia entre R$ 3.500 e R$ 5.500, ainda abaixo de outras profissões com a mesma exigência de formação superior. Muito distante dos salários corporativos. Além disso, o “Pacote Asiático” tem um contrato docente que costuma incluir auxílio-moradia (ou acomodação própria), seguro de saúde integral, bônus anuais, passagens aéreas e custeio de pós-graduações. Muito distante  do cenário brasileiro onde os benefícios restringem-se majoritariamente a vale-transporte e alimentação, com poucos incentivos diretos à capacitação contínua e moradia. 

Esse reconhecimento financeiro e investimento tecnológico na China e na Malásia reforça a posição do docente na sociedade. Segundo o Global Teacher Status Index, a China lidera o ranking mundial de prestígio conferido ao professor, acompanhada de perto pela Malásia. As famílias reconhecem a figura do professor como importante, aproximadamente 50% dos pais chineses e malaios incentivam ativamente seus filhos a seguirem a carreira do magistério. No Brasil, esse indicador permanece abaixo de 20%, evidenciando a necessidade de se resgatar a valorização da profissão.

Um dos pontos mais marcantes dessa vivência foi observar na prática o engajamento profundo dos professores e a altíssima valorização que a sociedade atribui à educação e à figura docente. Esse respeito cultural reflete-se diretamente no comprometimento dos alunos e das famílias. Fica evidente como uma educação de qualidade não transforma apenas o indivíduo, mas se projeta como uma alavanca para o desenvolvimento e o benefício de toda uma nação. 

Oportunidades como essa mostram a importância de rompermos com as fronteiras do nosso dia a dia. Sair do lugar comum, olhar além e expandir o repertório pedagógico me fez voltar para o Brasil com a certeza reforçada de que a educação pode mudar muitas vidas e um país inteiro. Valorizar a educação é o primeiro passo.

*_Diretora Pedagógica do _Progresso Bilíngue Campinas

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