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Artigo de Bruno Alvarez, da Geekie Educação, analisa como algoritmos, redes sociais e inteligência artificial desafiam a autonomia intelectual e o pensamento crítico nas escolas

Bruno Alvarez*

Embora o tema da agência estudantil jamais tenha sido periférico no debate pedagógico, ele está novamente em alta. Na última SXSW EDU em Austin (EUA), ele emergiu como parte de um eixo central para o futuro da educação: o aluno com agência é aquele que é protagonista de sua trajetória, superando a condição de mero receptor. Ainda que não seja exatamente uma novidade, o desafio de ensinar para a autonomia tornou-se ainda mais complexo nas últimas duas décadas, à medida que o ambiente digital ficou mais hostil à reflexão e eficiente em moldar comportamentos.

As redes sociais e seus algoritmos não foram desenhados para nos tornar mais reflexivos, e sim para nos manterem engajados. O resultado é uma espécie de câmara de eco personalizada que elimina o confronto com o diferente. Com isso, a ‘opinião própria’ torna-se, frequentemente, um reflexo de operações algorítmicas, e não de um pensamento verdadeiramente independente.

Depois do advento da IA generativa, surgiram novos desafios. Ferramentas como o ChatGPT têm a tendência de concordar com o usuário e suavizar discordâncias. Para quem precisa ser desafiado — e é o caso de quem está em formação —, isso pode representar um risco. Mas há ainda outro efeito: quando muita gente usa as mesmas ferramentas para escrever, os textos começam a se parecer. Passa-se a ver por aí, nas redes sociais, nos jornais e nos textos acadêmicos, produções que não são ruins o suficiente para serem reprovadas, mas que perderam qualquer traço de singularidade, polidas até a irrelevância por uma máquina. As opiniões se tornam homogêneas, o estilo se uniformiza e aquilo que poderia se tornar uma voz intelectual contundente vai sendo diluído numa média pouco interessante.

Como John Burn-Murdoch pontuou em ótimo artigo recentemente, enquanto as redes sociais tendem à polarização, a IA talvez leve a uma excessiva convergência de opiniões. Em qualquer um dos casos, o que vemos são máquinas (e as empresas que as produzem) ditando modos de pensar e agir. Nesse caso, se mesmo adultos são levados em manada, qual passa a ser o papel da escola com quem está em formação? Divido a resposta em duas partes.

Por um lado, há anos que se sinaliza que tarefas que se resolvem por memorização tendem a ser automatizadas e, portanto, perdem relevância econômica e social. É o espírito do PISA, que avalia levando isso em consideração. Passam a importar não apenas competências em leitura, matemática e ciências, mas também o que as máquinas não fazem bem: raciocinar em contextos ambíguos, tomar decisões éticas ou colaborar com empatia. Isso exige, antes de qualquer coisa, um sujeito que saiba o que pensa e que chegou a esse lugar por um caminho que foi, ao menos em parte, seu. Daí a necessidade do ensino investigativo e do desenvolvimento de competências socioemocionais, com o uso adequado de práticas e metodologias ativas em sala de aula, algo que nem sempre docentes e materiais didáticos sabem implementar com qualidade.

Por outro lado, existe uma armadilha: tendemos a crer que o desenvolvimento dessas competências nos permitiria abrir mão de conhecimentos um tanto dependentes da memória e de sistematização, como a tabuada e a análise sintática, que escolas há séculos são responsáveis por levar aos estudantes. É um erro: a agência estudantil não dispensa repertório acadêmico consistente; ela o presume.

Sem uma base firme de conhecimento, perdemos a capacidade de questionar discursos manipuladores. Dominar conteúdos fundamentais é o que move o raciocínio avançado, dando-nos as ferramentas necessárias para testar evidências e formular conclusões rigorosas.

A eficácia intelectual não advém do fim de aulas expositivas ou da implementação de conteúdos utilitaristas nos currículos escolares, mas da profundidade que dá substância ao pensar. Ignorar essa premissa produz fragilidades visíveis na interação com a tecnologia: o aluno sem repertório não compreende o que a IA retorna; sem domínio do conteúdo, não percebe erros, correlações falsas ou dados enviesados; sem pensamento crítico, aceita a bajulação algorítmica como validação e deixa-se conduzir pelas redes sociais, confinando-se à bolha que reforça seus vieses.

Por fim, se hoje discutimos a importância de fomentarmos a agência estudantil, muito devemos a autores como Dewey, Piaget, Freire e tantos outros que questionaram, cada um a seu modo, o modelo que se consolidou no século 21 com a universalização do ensino: alunos enfileirados, docente como única fonte de saber, aprendizado como absorção passiva. Embora tal questionamento continue necessário, ele já não basta.

Hoje, garantir o protagonismo do estudante significa entender que o desafio mudou. Não basta apenas romper com a rigidez da sala de aula física; é preciso ensiná-lo a pensar por conta própria em um ambiente digital que tende a ecoar apenas suas próprias opiniões ou a padronizar sua linguagem e suas ideias.

*Head de Ensino e Inovações na** **Geekie Educação

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