Na Coluna Transformação Continuada de março, George R. Stein analisa a prontidão escolar para IA generativa a partir da gestão da mudança nas instituições, e discute o papel da liderança, da formação docente e da cultura escolar nesse processo
Um dos ingredientes que influenciaram o nome desta coluna é uma das ideias que Paulo Freire consolidou de maneira sábia em alguns de seus textos. A ideia de que a natureza humana nunca é definitiva, está sempre inacabada: estamos sempre em um eterno vir a ser. Um pensar que não somos seres humanos, estamos sempre “nos tornando mais humanos”.
Se você leu o título da coluna e o parágrafo anterior provavelmente está se questionando: em uma coluna denominada Transformação Continuada, inspirada pela incompletude humana trazida por Paulo Freire, qual o sentido em se falar em “prontidão”?
Como se já não bastasse, a proposta é falar de prontidão da escola! Ora, se a escola é um dos lugares ideal e intencionalmente concebidos para nos desenvolvermos como seres humanos, a ideia fica ainda mais desafiadora.
E para complexificar ainda mais: falar de prontidão para a IA Generativa. Pois é, essa tecnologia que se tornou pública e amplamente disponível somente a pouco mais de 3 anos; já está invadindo escolas, faculdades e organizações no geral de maneira inédita – começando pela iniciativa pessoal e não pela definição e direcionamento da organização, e tem mudanças significativas de aplicativos e funcionalidades a cada mês.
Depois destes parágrafos não tenho outra saída agora senão explicar melhor essa ideia de prontidão:
Se, por um lado, prontidão pode ser entendida como uma condição momentânea, ou ainda um estágio estático, prefiro considerar a prontidão como uma condição dinâmica de estar pronto para realizar algo.
Neste sentido, a condição pode ser comparada a um estágio de equilíbrio dinâmico — como o ato de andar de bicicleta. Quem pedala sabe: não existe equilíbrio estático sobre duas rodas. O ciclista está o tempo todo fazendo micro ajustes, respondendo ao terreno, ao vento, à própria velocidade. Estar “pronto” para pedalar não significa ter chegado a um ponto fixo de domínio — significa ter desenvolvido a capacidade de se reequilibrar continuamente. É exatamente assim que precisamos pensar a prontidão escolar para a IA Generativa.
A armadilha da tecnologia
Quando o tema é tecnologia na escola, o debate frequentemente começa — e às vezes termina — na disponibilidade e adequação de equipamentos e infraestrututa: qualidade da rede Wi-Fi, quantidade de dispositivos, adoção de plataformas digitais, aplicativos de redação com IA, ferramentas adaptativas de matemática. Tudo isso importa, sem dúvida. Mas tratar a prontidão como um checklist tecnológico é o mesmo que acreditar que uma bicicleta de última geração garante que alguém saiba pedalar.
A tecnologia é condição necessária, mas não suficiente. O que realmente define se uma escola está pronta — ou melhor, se está se tornando pronta — são os processos humanos e os relacionamentos que sustentam a mudança.
A gestão da mudança como um modelo indicativo de prontidão
Se entendermos a prontidão como um “equilíbrio dinâmico” que está sempre se adequando às realidades do contexto, é fundamental pensarmos na capacidade de organizações e indivíduos planejarem e efetivarem a transformação necessária percebida. E isto tem um nome, gestão da mudança.
Uma abordagem simples, porém, poderosa para organizar a abordagem e propiciar um modelo para a gestão da mudança é o modelo ADKAR, desenvolvido por Jeff Hiatt na década de 90.
O modelo surgiu como resultado de uma pesquisa com mais de 700 organizações que passaram por grandes processos de mudança. Hiatt percebeu que o sucesso não dependia apenas da tecnologia ou da estratégia, mas de como as pessoas absorviam a novidade.
O acrônimo ADKAR surgiu em função das cinco dimensões que Hiatt consolidou para que uma mudança seja bem sucedida: Awareness (consciência), Desire (desejo), Knowledge (conhecimento), Ability (habilidade) e Reinforcement (reforço).
Ao pensar no ADKAR e os desafios de IA Generativa na escola, obtém-se um “mapa valioso” para que se tenha um processo bem sucedido.
A liderança como fator de sucesso
As duas primeiras dimensões — Awareness e Desire — são, antes de tudo, responsabilidades da liderança. Um diretor ou gestor que não compreende o impacto real da IA Generativa no ensino e na aprendizagem dificilmente criará as condições para que sua equipe se mova. E mais do que entender, é preciso querer — ter o desejo genuíno de transformar, não apenas de se adaptar à pressão externa.
Um caso ilustrativo: uma escola de porte médio em uma capital brasileira tinha professores entusiasmados com a IA, realizava experimentos interessantes em sala e até contava com boa infraestrutura tecnológica. No entanto, a liderança, embora não fosse contrária à tecnologia, nunca havia declarado a IA como prioridade estratégica. Não havia tempo protegido para formação, não havia diretrizes claras, não havia orçamento intencional. O resultado? Ilhas de inovação sem impacto sistêmico. Havia vontade nos professores, mas faltava o desejo organizado vindo de quem tem o papel de dar direção. O desequilíbrio na bicicleta era visível — e ninguém estava pedalando de fato.
Docentes: do conhecimento à prática
Se a liderança acende a chama, são os professores — e toda a equipe pedagógica — que a sustentam. As dimensões de Desire, Knowledge e Ability precisam ser vividas coletivamente, com especial atenção ao corpo docente.
Desire, aqui, não é entusiasmo superficial. É a disposição de rever práticas consolidadas, de aceitar que um aluno pode chegar à aula tendo interagido com uma IA mais sofisticada do que qualquer recurso didático disponível na escola.
Knowledge, por sua vez, é o letramento em IA — não apenas saber usar ferramentas, mas compreender seus limites, vieses e possibilidades pedagógicas.
E Ability é a capacidade instalada: professores que conseguem, concretamente, redesenhar uma sequência didática, propor um projeto integrando IA ou avaliar produções mediadas por ela.
Essa tríade não se desenvolve em um único workshop. Ela exige formação continuada, espaços de troca, tempo para errar com segurança. Como na bicicleta: ninguém aprende a pedalar assistindo a uma palestra.
Cultura: o reforço que sustenta o movimento
A última dimensão do ADKAR — Reinforcement — é, talvez, a mais negligenciada. De nada adianta formar professores, sensibilizar lideranças e investir em tecnologia se os novos comportamentos não são reconhecidos, celebrados e incorporados à cultura da instituição.
Reforço não é cobrar resultados. É criar os rituais, os espaços e os símbolos que tornam a inovação parte da identidade da escola. É o professor que compartilha na reunião pedagógica uma experiência bem-sucedida com IA. É a gestão que reconhece publicamente quem está experimentando. É a escola que inclui competências digitais e pedagógicas relacionadas à IA em seus critérios de desenvolvimento profissional.
Quando o Reinforcement está presente, a prontidão deixa de ser um projeto e passa a ser uma postura. O equilíbrio dinâmico se consolida — não porque o terreno ficou mais fácil, mas porque “os ciclistas ficaram mais hábeis e mais confiantes para enfrentar o próximo trecho.”
Prontidão é um verbo
Volto a Freire para encerrar. Se estamos sempre nos tornando, então prontidão não é um destino — é um compromisso de movimento. A escola pronta para a IA Generativa não é aquela que resolveu todas as questões tecnológicas, dominou todos os aplicativos ou formou todos os professores de uma vez. É a escola que construiu a capacidade coletiva de aprender, desaprender e reaprender — continuamente.
Como na bicicleta: o equilíbrio se dá com o movimento, com a percepção das variações e pequenos desequilíbrios que merecem ajustes antes que venham a se tornar desequilíbrios maiores e causar uma queda. E, na ocorrência de um desequilíbrio maior, que seja possível apoiar o pé no chão e não cair de maneira brusca e irreparável.
Devemos estar prontos para continuamente perceber o entorno, ajustar a rota e definir novas iniciativas que valorizem ainda mais o objetivo traçado.
Mesmo sendo um processo e não um momento, é possível e necessário definirmos com clareza algumas especificidades da prontidão. Pois, na próxima Bett Brasil haverá uma oportunidade para tal: trarei uma atividade dinâmica de diálogo, atividade em grupos e processos de cocriação conjunta de uma primeira versão do indicador de: Prontidão escolar para a IA Generativa – como identificar e direcionar a prontidão da escola para lidar com IA Generativa
Mas enquanto não chega o momento, aproveite para rever quais dos elementos do ADKAR você já pode iniciar a sua mudança!

George R. Stein é diretor-fundador da Pedagog.IA – Inovação em Aprendizagem, mentor, palestrante internacional (SXSWEDU e innovationhub.school) e professor visitante da Faculdade de Educação da PUC-SP. Além de autor do livro “A Escola com Inteligência Artificial Generativa: uma jornada transformadora para um futuro que já chegou”, ainda atua como conselheiro da Labor Educacional e do doutorado em Liderança Educacional – MUST University.










