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Na Coluna Formação de Professores de maio, Amábile Pácios analisa os limites da Prova Nacional Docente 2026 e discute por que valorizar professores exige mais do que avaliações e processos seletivos

A Prova Nacional Docente (PND) chega à edição de 2026 cercada de expectativas e de desafios importantes. Criada pelo Ministério da Educação (MEC) e aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a avaliação busca apoiar estados e municípios nos processos seletivos para contratação de professores da educação básica pública. A proposta é que a nota possa ser utilizada como etapa classificatória, eliminatória ou complementar em concursos e seleções locais.

A iniciativa nasce de uma necessidade real: melhorar os mecanismos de ingresso na carreira docente e estimular maior qualificação na formação inicial. Os números da primeira edição ajudam a explicar essa preocupação. Em 2025, cerca de 97% das vagas preenchidas foram temporárias, mostrando que ainda há enorme dificuldade de transformar processos seletivos em oportunidades efetivas de carreira. O próprio calendário apertado acabou levando muitas redes a optarem por contratos rápidos, sem tempo hábil para organizar concursos públicos estruturados.

Nesse contexto, a decisão do MEC de antecipar a prova de 2026 para setembro e tornar permanente a adesão de estados e municípios é positiva. Isso dá mais previsibilidade às redes de ensino e permite um planejamento mais consistente. Ainda assim, é importante compreender que nenhuma avaliação isolada resolverá, por si só, os problemas históricos da profissão docente no Brasil.

Existe um risco de acreditar que a qualidade da educação será garantida apenas por mecanismos de prova e seleção. A realidade das escolas mostra algo muito mais complexo. O professor brasileiro enfrenta múltiplas jornadas, desgaste emocional crescente, excesso de burocracia e, muitas vezes, baixa perspectiva de carreira. É impossível discutir valorização docente sem considerar condições reais de trabalho e permanência na profissão.

A PND pode contribuir para organizar melhor os processos seletivos e criar referências nacionais mínimas de competência docente. Isso é relevante. Mas ela precisa caminhar junto com políticas permanentes de formação continuada, remuneração adequada e fortalecimento institucional das escolas. Caso contrário, corremos o risco de criar apenas mais uma etapa avaliativa sem enfrentar o problema central: a dificuldade de atrair e manter bons profissionais na carreira.

Outro aspecto importante é que a formação docente não pode se limitar à dimensão teórica medida em uma prova. O cotidiano escolar exige competências humanas, emocionais e relacionais que nem sempre aparecem em avaliações padronizadas. Saber lidar com diversidade, conflitos, inclusão, tecnologia e mudanças constantes exige acompanhamento contínuo e apoio institucional.

A própria expansão da inteligência artificial na educação reforça esse desafio. Em vez de diminuir a importância do professor, as novas tecnologias tornam ainda mais essencial a presença de profissionais bem preparados, capazes de mediar conhecimento, desenvolver pensamento crítico e construir vínculos humanos dentro da escola. O professor continuará sendo o principal elemento de transformação educacional.

A discussão sobre a PND, portanto, precisa ir além da aplicação da prova. O debate central deve ser como transformar a docência em uma carreira desejada, respeitada e sustentável. Isso passa por concursos bem estruturados, segurança profissional, valorização salarial, formação continuada e condições dignas de trabalho.

Se a Prova Nacional Docente conseguir ser parte desse movimento mais amplo, poderá cumprir um papel importante para o futuro da educação brasileira. Mas é preciso cuidado para que ela não seja vista como solução única para desafios que são estruturais e históricos. Afinal, valorizar professores nunca dependeu apenas de exames. Depende, sobretudo, de reconhecer que nenhuma sociedade se desenvolve sem educação de qualidade — e nenhuma educação de qualidade existe sem professores valorizados.

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