Congresso reúne gestores e especialistas para discutir atenção, tecnologia, inteligência artificial e mudanças nas práticas escolares
Manter a atenção dos estudantes tornou-se um dos desafios estratégicos das escolas em meio ao avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial. A questão deixou de ser apenas uma questão de comportamento dos estudantes e passou a interferir diretamente na gestão das escolas. É um problema que ultrapassa o comportamento em sala de aula e já alcança decisões sobre currículo, formação docente, uso de tecnologia e organização das próprias instituições de ensino.
Foi nesse cenário que o Congresso SinepeRio retomou, nos dias 21 e 22 de agosto, seu principal encontro após sete anos sem edição, reunindo representantes da educação privada e da gestão pública no Rio de Janeiro. Realizado no Hotel Windsor Oceânico, na Barra da Tijuca, o congresso reuniu 1.158 educadores e teve como tema central “Educação na Era da Distração Digital”.
A programação colocou atenção, aprendizagem e tecnologia no centro das discussões, mas também avançou sobre currículo, gestão, convivência, inclusão, inteligência artificial e formação dos estudantes. A retomada ocorre em um momento diferente daquele da última edição, realizada em 2019. Nesse intervalo, a tecnologia passou a ocupar ainda mais espaço na rotina escolar, a inteligência artificial entrou no debate sobre ensino e aprendizagem e as escolas passaram a enfrentar novas pressões sobre concentração, relações sociais e papel docente.
No painel de abertura, o presidente do SinepeRio, Frederico Venturini, o vice-presidente Pedro Flexa, Bruna Bahiense, Diretora de Eventos do SinepeRio, e o ex-secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro Renan Ferreirinha discutiram as prioridades para a educação brasileira nos próximos cinco anos. O debate mostrou que a resposta à distração digital não passa apenas por limitar tecnologias, mas envolve repensar estruturas, práticas e objetivos da própria escola.
Para Venturini, a mudança precisa preservar a centralidade do professor ao mesmo tempo que incorpora novas ferramentas. “O professor precisa continuar sendo a autoridade máxima em sala de aula, mas a escola precisa se reinventar usando a inteligência artificial para customizar trilhas de aprendizagem”, afirmou o presidente do SinepeRio. Flexa, por sua vez, relacionou o avanço tecnológico diretamente à perda de atenção e ao papel do projeto pedagógico. “A tecnologia abduziu a atenção de alunos, famílias e professores. Para não perdermos o rumo nesse mar de transformações, o projeto educativo da escola precisa ser sua âncora de propósito”, disse o vice-presidente do SinepeRio.
A discussão também trouxe para o palco questões estruturais da educação brasileira. Renan Ferreirinha destacou a expansão do ensino integral no Rio de Janeiro, que passou de cerca de 30% para quase 60% da rede municipal, e defendeu a ampliação da jornada escolar como uma das prioridades para os próximos anos. Essa combinação entre atenção, tecnologia e organização da escola deu o tom da retomada do Congresso SinepeRio. O encontro voltou ao calendário educacional do Rio não apenas sete anos depois de sua última edição, mas em um contexto no qual as escolas precisam decidir como incorporar novas tecnologias sem perder de vista as condições que sustentam a aprendizagem.


Atenção vira desafio central diante do avanço da tecnologia
O tema central do Congresso SinepeRio também atravessou as palestras de nomes como José Moran, Ana Beatriz Barbosa e Ayla Patricia Huovi. Por diferentes caminhos, os especialistas discutiram como a escola pode lidar com a disputa pela atenção dos estudantes sem reduzir o debate ao uso de telas. Na palestra “Educar na Era da Distração: como reconquistar a atenção dos alunos”, o professor, escritor e pesquisador José Moran usou o ChatGPT ao vivo para demonstrar como a tecnologia pode disputar espaço com a escola pela atenção dos estudantes. A ferramenta interagiu com Moran e com a plateia, transformando a própria apresentação em parte da discussão. Para o pesquisador, a resposta não está em competir com a tecnologia, mas em tornar a experiência escolar mais significativa e capaz de despertar o interesse dos alunos.
A discussão sobre atenção também apareceu associada às condições de trabalho e convivência na escola. Na palestra “Saúde e Bem-estar de Educadores e Estudantes”, a psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa relacionou o adoecimento dos professores às condições estruturais do trabalho educativo. “Burnout não revela apenas o limite de uma pessoa; ele revela o limite de uma estrutura de trabalho”, afirmou. A médica também defendeu que o professor não deve assumir sozinho a fiscalização do uso de celulares, atribuição que precisa estar contemplada nos protocolos e na cultura institucional.
No primeiro dia, a brasileira e finlandesa Ayla Patricia Huovi acrescentou outra perspectiva ao debate ao apresentar a revisão de práticas adotadas pelo sistema educacional da Finlândia. Na palestra “O Sistema Educacional Finlandês: uma história de sucesso e humildade”, ela destacou a necessidade de equilibrar tecnologia, ensino estruturado e autonomia dos estudantes. “Você não precisa de uma tela para ensinar lógica ou pensamento crítico; você pode ensinar robótica com Lego, papel e lápis”, disse. A fala reforçou uma questão recorrente no congresso: a tecnologia pode integrar a aprendizagem, mas não deve determinar sozinha como ela acontece.
No sábado, Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira de Políticas Públicas de Educação do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto, levou a discussão para as transformações na formação. Na palestra “Como Formar Pessoas em Tempos Disruptivos?”, defendeu novos formatos para reconhecer competências diante das mudanças no mundo do trabalho. “Se o cenário é disruptivo, ao longo do processo formativo teremos que ter microcertificações”, afirmou. A discussão ampliou o debate sobre atenção para uma questão igualmente estratégica: como preparar estudantes para um cenário em que aprender continuamente passa a ser parte da própria trajetória profissional.




Diferentes respostas para uma escola em transformação
Ao longo da programação, o Congresso SinepeRio colocou em debate outras questões que hoje pressionam a escola: diversidade, liderança, criatividade e a própria relação dos estudantes com o conhecimento. Emilly Fidelix aprofundou o diagnóstico sobre a economia da atenção ao mostrar como a exposição contínua a notificações, vídeos curtos e conteúdos personalizados interfere na capacidade de concentração. Na palestra “Atenção Construída: o papel do professor na era da distração”, a historiadora e especialista em tecnologia educacional chamou atenção para o chamado switching cost, custo cognitivo provocado pela alternância constante entre tarefas. “Não existe cérebro multitarefa”, afirmou.
A provocação se encontrou com a palestra de Rique Nitzsche, professor e especialista em Design Thinking, que apresentou a criatividade como uma competência que precisa ser exercitada pela escola. Em “A Aprendizagem Criativa na Era da Distração”, ele defendeu experiências baseadas em investigação, prototipagem e resolução de problemas. A proposta desloca o estudante de uma posição predominantemente receptiva e cria situações em que errar, testar e reformular fazem parte do processo de aprendizagem.
Outros debates ampliaram o olhar para as relações que sustentam esse processo. Joana Figueira de Mello, pedagoga, terapeuta de família e consultora em inclusão, defendeu maior aproximação entre escola e famílias na palestra “O Olhar Êmico sobre Diversidade nas Escolas”. “A família precisa sentar do mesmo lado da mesa que a escola”, afirmou. A liderança também entrou nessa equação com Cris Soares, fundadora da Magno Mentoria Educacional e CEO do VIVA Sistema de Aprendizagem, que discutiu formação de equipes e autoconhecimento na condução das escolas.
Juntos, esses debates mostram uma programação que tratou a transformação educacional por diferentes ângulos. A atenção dos estudantes apareceu ligada ao desenho das experiências de aprendizagem; a criatividade, à capacidade de lidar com problemas novos; e a diversidade e a liderança, às condições necessárias para que essas mudanças aconteçam dentro das escolas. A retomada do Congresso SinepeRio marca uma agenda que ultrapassa a adoção de novas tecnologias e alcança decisões sobre como ensinar, como conviver e que escola construir diante das mudanças em curso.
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