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Na Bett Brasil 2026, especialistas apontam falhas de governança, critérios frágeis de avaliação e riscos de decisões pedagógicas guiadas pela tecnologia

A inteligência artificial na educação deixou de ser tendência e passou a ocupar o centro das decisões estratégicas das escolas, redes e sistemas de ensino. O Summit de IA na Educação, novidade da Bett Brasil 2026, explicita esse movimento ao reunir especialistas para discutir não apenas o uso da tecnologia, mas seus impactos estruturais sobre aprendizagem, gestão e cultura institucional. Em um cenário de rápida adoção, a questão já não é mais “se” a IA será utilizada, mas “como” ela será incorporada de forma consciente e alinhada ao propósito educacional.

Realizada entre os dias 5 e 8 de maio, no Expo Center Norte, em São Paulo, a Bett Brasil 2026 traz como tema “Inteligências Individuais, Coletivas e Artificiais: todas em nós, agora!”. A criação de um auditório exclusivo para o Summit, com programação concentrada nos dias 5 e 6 de maio, reforça a centralidade do debate. O espaço nasce como resposta à necessidade crescente de aprofundamento, diante de uma tecnologia que já influencia práticas pedagógicas, processos avaliativos e decisões institucionais.

Mais do que apresentar soluções, o Summit propõe uma mudança de abordagem. A inteligência artificial deixa de ser tratada como ferramenta operacional e passa a ser compreendida como uma infraestrutura que reorganiza o próprio conceito de aprendizagem. Essa mudança exige das lideranças educacionais uma revisão mais profunda de critérios, práticas e valores, especialmente em um contexto em que estudantes já utilizam IA de forma intensiva, muitas vezes sem mediação institucional.

Para Sandro Bonás, CEO da Conexia Educação, o desafio central está justamente em trazer intencionalidade para esse uso. “Não se trata apenas de usar IA, mas de formar uma geração capaz de compreendê-la, questioná-la e utilizá-la com ética, consciência e propósito”, afirmou. A fala sintetiza o papel do Summit como espaço de articulação entre tecnologia, pedagogia e responsabilidade institucional.

Nesse cenário, o evento se consolida como um fórum estratégico para gestores e educadores que precisam traduzir transformações tecnológicas em decisões consistentes. A discussão deixa de ser técnica e passa a ser estrutural, envolvendo governança, cultura escolar e definição do que, de fato, significa aprender em um ambiente mediado por inteligência artificial.

IA na educação exige revisão de cultura e governança

Um dos principais consensos entre os especialistas do Summit é que o maior impacto da IA não está na tecnologia em si, mas na forma como ela expõe fragilidades já existentes nas instituições. Para Fred Azevedo, head of School da Escola Concept, a adoção da IA desloca o papel da liderança escolar. “A discussão deixa de ser qual ferramenta usar e passa a ser o que significa aprender quando a resposta está disponível o tempo todo”, disse. Esse deslocamento pressiona escolas a revisarem critérios de avaliação e evidências de aprendizagem.

Na mesma linha, Sandro Bonás alerta que o risco não é tecnológico, mas pedagógico e cultural. Segundo ele, quando a IA entra nas escolas sem integração ao projeto pedagógico, seu uso passa a ser guiado pela conveniência e pela lógica de produtividade. “A escola pode perder a autoria do processo educativo e permitir que critérios externos passem a definir o que é uma boa resposta”, disse. O impacto vai além da execução de tarefas e atinge diretamente a construção do pensamento dos estudantes.

Do ponto de vista da governança, a advogada Alessandra Borelli destaca que muitas instituições ainda operam com modelos fragmentados. “É preciso sair da lógica em que tecnologia, pedagógico e jurídico atuam separadamente e construir uma governança transversal”, apontou a especialista. Isso inclui políticas claras de uso, avaliação de riscos, transparência sobre dados e formação contínua de professores, especialmente quando se trata de decisões que impactam crianças e adolescentes.

Esse conjunto de análises converge para um ponto central: a IA não cria novos problemas, mas amplifica incoerências existentes. Quando não há clareza institucional sobre o que é aprendizagem, quais são os critérios de avaliação e qual o papel do professor, a tecnologia tende a desorganizar ainda mais o sistema. Por outro lado, em contextos onde esses elementos estão bem definidos, a IA pode atuar como catalisadora de inovação e aprofundamento pedagógico.

Entre eficiência, personalização e justiça educacional

Outro eixo central do Summit está na tensão entre eficiência, personalização e justiça educacional. Para Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia na Fundação Lemann, essa não deve ser uma escolha excludente. “Esses elementos não são opostos; quando bem utilizados, podem se complementar e fortalecer o sistema educacional”, afirmou. Segundo ele, tecnologias baseadas em dados podem ampliar a eficiência operacional e, ao mesmo tempo, permitir uma melhor compreensão das necessidades individuais dos estudantes.

No entanto, Cintra reforça que há limites que devem ser preservados. “As relações humanas são o centro do processo educacional e não podem ser substituídas”, destacou. Além disso, ele aponta a criatividade como outro elemento essencial a ser protegido, tanto por seu valor intrínseco quanto por seu papel no desenvolvimento da autonomia e da autoria dos estudantes. A IA pode apoiar esses processos, mas não deve substituir a experiência humana de criação e aprendizagem.

A discussão sobre justiça educacional também ganha força no contexto da IA. Gi Santos, pesquisadora em inovação na humani:a, alerta que algoritmos operam a partir de dados do passado e podem reforçar desigualdades já existentes. “O que não pode ser delegado é a responsabilidade de reconhecer o outro como sujeito de saber”, afirmou. Para ela, a decisão pedagógica continua sendo insubstituível justamente na capacidade de reconhecer trajetórias e conhecimentos que não estão representados nos sistemas.

Esse debate se conecta diretamente à ideia de soberania pedagógica. O uso de plataformas e modelos de IA implica, muitas vezes, a incorporação de visões de mundo específicas, com vieses culturais e sociais embutidos. Nesse contexto, o desafio das instituições é garantir que a tecnologia amplie oportunidades, em vez de padronizar comportamentos ou limitar possibilidades de aprendizagem.

Da ferramenta à estratégia: o papel do Summit IA

Ao estruturar um espaço dedicado exclusivamente à inteligência artificial, a Bett Brasil sinaliza uma mudança importante na agenda educacional. O Summit IA deixa de tratar a tecnologia como tendência e a posiciona como elemento estruturante das decisões pedagógicas e institucionais. Essa abordagem acompanha um movimento global que busca integrar inovação tecnológica a princípios de equidade, ética e desenvolvimento humano.

A curadoria do espaço, realizada em parceria com a AI4School, reforça essa perspectiva ao reunir especialistas de diferentes áreas, como educação, tecnologia, direito digital e políticas públicas. A diversidade de vozes amplia o debate e evita leituras simplificadas, permitindo uma análise mais consistente dos impactos da IA no cotidiano das escolas e redes de ensino.

Além disso, o Summit se conecta a um contexto mais amplo de discussão regulatória e institucional, incluindo avanços no Conselho Nacional de Educação e diretrizes internacionais sobre o uso responsável da tecnologia. Esse alinhamento fortalece o papel do evento como espaço de construção de referências para o setor, especialmente em um momento de rápida transformação.

Nesse cenário, o Summit IA na Educação se consolida como um dos principais ambientes de reflexão da Bett Brasil 2026. Mais do que acompanhar tendências, ele provoca uma revisão profunda das bases do ensino, evidenciando que o futuro da educação depende menos da tecnologia em si e mais das decisões humanas que orientam seu uso.

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