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O país asiático amplia indicadores de bem-estar, atividade física e saúde emocional nas escolas e abre uma discussão que desafia a forma como a qualidade educacional é medida em diferentes países

Durante décadas, a China construiu parte de sua reputação educacional apoiada em uma cultura de alta performance acadêmica. Os resultados alcançados por estudantes chineses em avaliações internacionais ajudaram a consolidar a imagem de um sistema altamente exigente, estruturado em torno de metas rigorosas e forte valorização do desempenho escolar. Nos últimos anos, porém, o país passou a enfrentar uma questão que acompanha diversos sistemas educacionais de excelência: como preservar resultados acadêmicos elevados sem ampliar os índices de estresse, ansiedade e adoecimento entre estudantes.

A resposta começou a ganhar contornos mais concretos entre o final de 2025 e o início de 2026. Nesse período, o Ministério da Educação da China lançou a diretriz nacional Healthy Schools, iniciativa que busca incorporar saúde física, saúde mental e qualidade de vida aos mecanismos de gestão e avaliação das instituições de ensino. A proposta estabelece metas de longo prazo para transformar a cultura escolar chinesa, consolidando projetos-piloto até 2027, expandindo o modelo para todo o sistema até 2030 e universalizando as práticas consideradas bem-sucedidas até 2035.

Entre as medidas anunciadas estão a ampliação dos intervalos escolares para 15 minutos, a garantia de pelo menos duas horas diárias de atividades físicas para estudantes da educação obrigatória e a criação de sistemas estruturados de acompanhamento do bem-estar físico e emocional. A iniciativa surge em um contexto de preocupação crescente com problemas como sedentarismo, miopia infantil, esgotamento acadêmico e sofrimento emocional, temas que passaram a ocupar espaço relevante no debate público do país.

A mudança chama atenção porque representa uma revisão importante sobre o próprio conceito de qualidade educacional. Em vez de analisar exclusivamente indicadores de desempenho acadêmico, a política chinesa procura considerar fatores que influenciam diretamente a capacidade de aprender, conviver e se desenvolver ao longo da trajetória escolar. Trata-se de uma discussão que também desperta interesse entre gestores brasileiros, especialmente diante do aumento dos debates sobre saúde mental no ambiente educacional.

Quando a saúde passa a valer tanto quanto a nota

Um dos aspectos mais significativos da transformação em curso é a tentativa de tornar o bem-estar um indicador institucional e não apenas um tema complementar dentro das escolas. Na prática, isso significa que saúde física, qualidade de vida e desenvolvimento socioemocional passam a fazer parte das estratégias de gestão, do acompanhamento das redes de ensino e da avaliação dos resultados educacionais.

Para o educador e pesquisador Mozart Neves Ramos, essa discussão não está restrita à educação e dialoga com uma visão mais ampla sobre desenvolvimento humano. Ao comentar a experiência chinesa, ele relembra uma vivência profissional que transformou sua própria percepção sobre o tema. Durante uma visita ao Japão, quando era reitor da Universidade Federal de Pernambuco, observou funcionários de uma indústria interrompendo suas atividades ao longo do expediente para realizar exercícios físicos. Ao buscar compreender aquela prática, ouviu uma explicação que levaria para sua atuação na gestão universitária.

“Não adianta dar uma formação técnica continuada se os funcionários não estiverem bem mentalmente e fisicamente. Quando voltei ao Brasil e assumi novamente a reitoria, criei a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. Incorporar saúde física e bem-estar na avaliação das instituições é muito importante”, afirmou.

Série Especial: Ásia

O educador destacou que a construção desse modelo exige critérios objetivos para orientar políticas públicas e permitir comparações entre diferentes contextos. Para ele, o avanço da agenda de bem-estar depende menos do discurso e mais da capacidade de transformar saúde física, saúde mental e qualidade de vida em indicadores acompanháveis ao longo do tempo. “É importante estabelecer alguns indicadores comuns para que possamos fazer uma comparabilidade justa entre escolas que atuam em realidades muito diferentes”, observou.

Na avaliação de Mozart, a discussão proposta pela China não se limita ao reconhecimento da importância do tema. O desafio está em construir métricas capazes de orientar decisões de gestão, avaliar políticas públicas e identificar quais iniciativas efetivamente contribuem para melhorar as condições de aprendizagem dos estudantes.

A discussão ganha relevância porque questiona um paradigma historicamente dominante nos sistemas educacionais. Durante décadas, desempenho em provas, vestibulares e exames padronizados foi tratado como principal referência de sucesso. Para Mozart, esse modelo já não responde às demandas impostas por um mundo marcado por transformações aceleradas e pela crescente influência das tecnologias digitais.

“Precisamos sair daquele modelo tradicional de avaliação baseado apenas em conteúdo. O cenário atual exige criatividade, pensamento crítico, comunicação, colaboração e capacidade de resolver problemas complexos. Conteudismo não casa com esse cenário disruptivo que estamos vivendo”, afirmou o educador.

A escola que tenta identificar o sofrimento antes da crise

Além das mudanças estruturais na rotina escolar, a estratégia chinesa também tem chamado atenção pelo uso de tecnologia para monitorar fatores relacionados ao bem-estar dos estudantes. Em diferentes regiões do país, sistemas digitais vêm sendo utilizados para acompanhar indicadores de saúde física e emocional, permitindo identificar sinais de vulnerabilidade antes que eles evoluam para situações mais graves.

As iniciativas incluem desde programas de acompanhamento da atividade física até sistemas de alerta precoce voltados à saúde mental. Em algumas redes, escalas internacionalmente reconhecidas para avaliação de ansiedade, estresse e depressão são aplicadas periodicamente, permitindo que equipes especializadas acompanhem tendências e intervenham preventivamente quando necessário.

A proposta parte de uma lógica diferente daquela observada em muitos contextos educacionais. Em vez de agir apenas quando o sofrimento já se tornou evidente, o sistema busca identificar sinais iniciais de risco e construir respostas preventivas. Ao mesmo tempo, o avanço dessas ferramentas amplia discussões relacionadas à privacidade, ao uso de dados sensíveis e aos limites éticos do monitoramento de estudantes.

Para a educadora, psicanalista e escritora Janine Rodrigues, a tecnologia pode ampliar a capacidade de cuidado das instituições, mas não deve substituir a interpretação humana das experiências emocionais. “Há uma dimensão da experiência emocional que não é exata nem homogênea. Dados não podem ser lidos nem usados fora do contexto social e emocional. Esse risco de impactar as experiências humanas é e será sempre real”, disse.

A especialista destacou que qualquer sistema de monitoramento precisa considerar fatores culturais, sociais e econômicos que influenciam a vida dos estudantes. Para ela, o uso de indicadores pode contribuir para ampliar a capacidade de cuidado das instituições, mas também corre o risco de reproduzir desigualdades quando os dados são analisados sem contexto.

“Ainda existe uma enorme diferença na forma como saúde mental é percebida e tratada quando observamos questões de raça, classe social e gênero. Todos deveriam ter direito ao bem-viver e ao cuidado, mas há desigualdades profundas nesse acesso”, observou.

Janine argumenta que o desafio não está apenas em coletar informações, mas em compreender as histórias que existem por trás delas. Na sua avaliação, tecnologia, pesquisas e sistemas de acompanhamento só fazem sentido quando ajudam a reduzir desigualdades e ampliar oportunidades de desenvolvimento para todos os estudantes. A educadora defende que o acesso ao cuidado não pode variar conforme raça, classe social ou gênero e resume a questão de forma direta: “Todos deveriam ter direito ao bem-viver e ao cuidado”.

Foto: Magnific / Gerada com IA

O que o Brasil pode aprender com a virada chinesa

Embora a experiência chinesa esteja inserida em um contexto social, político e cultural muito diferente do brasileiro, ela oferece reflexões importantes para lideranças educacionais. A principal delas talvez seja a tentativa de tratar bem-estar como tema de gestão e não apenas como uma ação pontual de acolhimento ou uma campanha institucional esporádica.

Na visão de Mozart Neves Ramos, qualquer agenda consistente nessa área precisa estar apoiada em estruturas próprias e em uma articulação permanente entre educação e saúde. O educador alerta que uma das maiores armadilhas seria transformar o professor no principal responsável pela execução dessas políticas.

“Não é papel do professor implementar políticas de saúde mental, qualidade de vida e bem-estar. Isso precisa ser desenvolvido por profissionais da área da saúde, vinculados à escola e à rede de ensino. Se essa responsabilidade for colocada exclusivamente sobre os docentes, será um grande equívoco”, afirmou.

A observação dialoga com uma preocupação recorrente das redes brasileiras. Em um contexto de múltiplas demandas pedagógicas, administrativas e burocráticas, ampliar a agenda de bem-estar sem criar estruturas de apoio pode produzir o efeito contrário ao desejado, aumentando a sobrecarga dos próprios educadores.

Mozart também ponderou que algumas iniciativas adotadas pela China dependem de condições estruturais que ainda não fazem parte da realidade da maioria das escolas brasileiras. A ampliação dos períodos de atividade física, por exemplo, exige avanços na oferta de educação em tempo integral e uma reorganização mais ampla das jornadas escolares.

“Tenho dúvidas se a questão central é simplesmente ampliar o recreio. Talvez seja mais importante qualificar melhor esse tempo. A recente restrição ao uso de celulares nas escolas já tem mostrado efeitos positivos na interação entre os estudantes e no desenvolvimento da empatia”, observou.

Mozart ainda destacou que qualquer estratégia de promoção do bem-estar precisa envolver as famílias. Segundo ele, saúde emocional, aprendizagem e desenvolvimento humano dependem de uma atuação articulada entre escola, estudantes e responsáveis. “A família, a escola e o aluno formam um tripé muito importante para o sucesso não apenas escolar, mas para o sucesso de vida desse estudante”, afirmou.

Para Janine Rodrigues, uma das lições mais relevantes está na necessidade de construir políticas de bem-estar ouvindo aqueles que vivem a escola diariamente. Ela acredita que professores e estudantes devem participar ativamente da formulação de estratégias relacionadas à saúde mental e à qualidade de vida.

“Será que professores e alunos estão participando dessa construção? O que eles pensam? Quais são seus medos? Que escuta estamos oferecendo a essas pessoas? Professores e estudantes precisam participar da construção dessas questões. O saber precisa ser circular”, defendeu.

A experiência chinesa ainda está em construção e seus resultados serão observados ao longo da próxima década. Independentemente dos desdobramentos, a discussão já ultrapassa as fronteiras do país. Ao transformar saúde física, saúde mental e qualidade de vida em temas de gestão, a China amplia o debate sobre o que realmente deve ser medido quando se fala em qualidade educacional. Para lideranças brasileiras, a principal provocação talvez não seja tecnológica, mas conceitual: quais indicadores definem o sucesso de uma escola no século 21?

A pergunta que emerge dessa transformação não é apenas como melhorar resultados acadêmicos. É preciso entender quais condições precisam existir para que eles sejam sustentáveis ao longo do tempo. Esta reportagem integra a série especial “Ásia: o futuro da educação em operação”, produzida pelo educador21 sobre tendências educacionais na Ásia. O tema vem sendo explorado editorialmente em preparação para a Missão Ásia 2026, iniciativa da Efígie Academy que levará lideranças brasileiras para uma imersão em um dos sistemas de ensino mais influentes do mundo.

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