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No LIV Conecta, debates sobre relações, conflitos e tecnologia mostram que os desafios da escola passam por escuta, mediação e formação para um mundo em transformação

A escola está sendo pressionada por mudanças que não cabem mais em departamentos separados. Saúde mental dos profissionais, conflitos entre estudantes, relações familiares e inteligência artificial já atravessam a mesma rotina escolar. No LIV Conecta 2026, realizado no dia 6 de agosto, essas questões apareceram em discussões diferentes, mas produziram uma conclusão comum: os desafios da escola estão menos relacionados à falta de regras do que à capacidade de interpretá-las diante de situações novas.

Ao longo de cerca de nove horas de programação, aproximadamente 700 participantes acompanharam debates sobre saúde mental, convivência e inteligência artificial. A diversidade dos temas poderia produzir uma agenda fragmentada. O que ocorreu foi o contrário. As discussões mostraram que a escola precisa ampliar sua capacidade de mediação justamente porque os problemas chegam misturados, envolvendo estudantes, educadores, famílias e decisões de gestão.

Essa mudança também aparece no próprio crescimento do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), que hoje está presente em mais de 1.000 escolas e alcança mais de 1 milhão de estudantes. Na abertura do encontro, Caio Lo Bianco, CEO do LIV, situou essa transformação a partir do papel da escola diante de um cotidiano cada vez mais complexo. A fala ajudou a colocar no centro da programação uma questão que atravessaria os debates: como preparar adultos e estudantes para lidar com mudanças que já chegaram à vida escolar.

Na abertura do encontro, essa perspectiva apareceu como pano de fundo para as discussões que viriam a seguir. A questão deixou de ser apenas como ensinar conteúdos ou responder a ocorrências pontuais. Passou a envolver como a instituição cria condições para que estudantes e profissionais desenvolvam recursos para lidar com um cotidiano marcado por mudanças rápidas, excesso de estímulos e novas formas de relação.

É nesse ponto que as três discussões se encontram. A atualização da NR-1 coloca a saúde mental dos trabalhadores no campo da gestão. Os debates sobre convivência mostram que conflitos não podem ser tratados apenas como infrações. E a inteligência artificial desloca a discussão de acesso para mediação. Em comum, os temas recolocam uma pergunta que interessa diretamente ao gestor: que tipo de escola é necessária quando os problemas mudam antes que os protocolos consigam acompanhá-los?

Saúde mental muda a resposta da escola

A discussão sobre a atualização da NR-1 levou para o ambiente educacional uma questão que durante muito tempo ficou restrita ao campo das relações trabalhistas: a responsabilidade da organização sobre os riscos psicossociais. Ediane Ribeiro, psicóloga, e Renata Ishida, gerente pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), discutiram o impacto dessa mudança para escolas que precisam cuidar de quem cuida diariamente dos estudantes.

O tema ganha peso diante de um cenário em que o desgaste dos profissionais interfere diretamente na experiência escolar. Dados apresentados no encontro apontam que 53% dos afastamentos de educadores estão relacionados à saúde mental, enquanto 67,6% se sentem inseguros, desanimados ou frustrados em relação ao futuro profissional. Para Ediane, porém, a questão não pode ser tratada como responsabilidade individual. “A saúde mental é uma questão de todo mundo. Não é só do professor, só do aluno, só da família. Ela é uma questão que tem que ser coletiva.”

A fala desloca o debate para as condições em que o trabalho escolar acontece. Na apresentação, Ediane explicou que a atualização da NR-1 incorpora os riscos psicossociais justamente porque o mundo do trabalho mudou e os impactos sobre a saúde mental se tornaram mais evidentes. Já Renata Ishida chamou atenção para a dimensão relacional desse processo: “Não existe saúde mental no trabalho sem relacionamento saudável e seguro.”

A mesma lógica apareceu na roda “Solte sua voz! Isso aconteceu na minha escola, e agora?”, que reuniu Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e Juventude e embaixadora do LIV, Alexandre Coimbra, psicólogo e terapeuta familiar, Paloma Bastos, gerente pedagógica do LIV, e Daniel Moraes, consultor pedagógico do LIV e mestre em Filosofia. Um caso envolvendo um estudante do 9º ano que utilizava vape dentro da escola colocou em discussão os limites entre disciplina, proteção e cuidado.

A situação poderia terminar em uma decisão sobre a infração. Mas a conversa mostrou por que essa resposta, isoladamente, pode ser insuficiente. Ao olhar para a trajetória daquele estudante, o gestor encontrou sinais de vulnerabilidade que ajudavam a compreender o comportamento. Para Alexandre Coimbra, o ponto de virada acontece quando o adulto deixa de enxergar apenas a conduta e passa a buscar conexão com quem está diante dele: “Um dos nossos objetivos diante das conversas difíceis é encontrar um lugar de conexão com essa pessoa.”

Vanessa Cavalieri levou a reflexão para a dimensão da proteção. Ao discutir o uso de vape entre adolescentes, a juíza defendeu que a expulsão não deveria ser automaticamente a primeira resposta e chamou atenção para o que existe por trás da ocorrência. “Aquele momento daquela violência, daquela atitude que é inaceitável e que não é admissível, aquilo é uma fotografia de um momento na vida daquele jovem, mas a vida dele não se resume a uma fotografia. A vida dele é um filme.”

Essa distinção muda a gestão do conflito. Escutar não significa retirar autoridade do adulto, relativizar regras ou deixar de proteger a comunidade escolar. Significa criar uma “ambiência do diálogo”, como definiu Alexandre, em que a escola possa compreender o que está acontecendo sem transformar uma ocorrência em identidade. Para os gestores, a questão passa a ser como combinar limite, responsabilização e cuidado sem perder de vista a trajetória do estudante.

Foto: educador21

Inteligência artificial já faz parte da infância

A discussão ganhou outra dimensão na palestra “Geração IA: o que já sabemos sobre ela”, apresentada por Tiago Belotte, especialista em educação e inteligência artificial, autor de currículo e diretor educacional do Dia Lab. A provocação central não era descobrir quando os estudantes começariam a usar essas ferramentas. Eles já usam.

Segundo os dados apresentados, 86% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos utilizam IA conversacional, e cerca de um quarto faz uso diário. Entre estudantes brasileiros do ensino médio, Belotte citou ainda um levantamento segundo o qual 70% usam IA generativa, enquanto apenas 22% recebem orientação.

“A questão, então, não é acesso. Não é saber operacionalmente usar ou não usar. A questão tem a ver com mediação”, afirmou Belotte. Para o especialista, a familiaridade tecnológica também não sustenta a ideia de que os estudantes sejam naturalmente preparados para lidar com essas ferramentas. “Eles sabem melhor operacionalmente. Mas isso não significa que saibam usar melhor”, disse.

Um dos exemplos apresentados foi o “Turing invertido”. Em vez de fazer uma produção de IA parecer humana, estudantes passam a modificar a própria escrita para evitar suspeitas. “Eles escrevem pior. Eles pioram o que produzem para não parecer com a IA”, relatou Belotte. O fenômeno revela um efeito colateral de políticas centradas apenas na fiscalização: o estudante pode aprender a esconder o uso da ferramenta, sem necessariamente aprender a utilizá-la de forma responsável.

Essa diferença aparece também nos dados apresentados pelo educador: 73% das escolas trabalham regras de uso da IA, enquanto 51% ensinam procedimentos de verificação. A distância sugere que a regulação avança mais rapidamente do que o letramento necessário para acompanhar a tecnologia. Por isso, Belotte defende que a escola discuta autoria, checagem, proteção de dados, pensamento crítico e dependência cognitiva, além de estabelecer critérios para decidir quando a IA ajuda e quando substitui uma etapa essencial da aprendizagem.

O ponto central, segundo ele, é evitar que o estudante delegue à tecnologia aquilo que precisa aprender a fazer. Uma tarefa pode melhorar com o auxílio da IA sem que a aprendizagem avance na mesma proporção. “Eu não estou ensinando a usar o ChatGPT. Eu estou ensinando a viver na era da inteligência artificial”, sintetizou Belotte. A formulação amplia o debate: mais do que ensinar ferramentas, a escola precisa preparar os estudantes para tomar decisões em uma sociedade atravessada por elas.

Essa perspectiva dialoga diretamente com os debates sobre convivência que atravessaram o LIV Conecta 2026. Tanto nos conflitos escolares quanto na relação com a IA, regras são necessárias, mas não bastam. Em ambos os casos, a escola precisa compreender contextos, orientar escolhas e criar condições para que os estudantes desenvolvam autonomia sem serem deixados sozinhos diante de situações complexas.

A inteligência artificial não aparece como mais um conteúdo a ser acrescentado à escola. Mas expõe uma transformação mais ampla na formação dos estudantes: aprender a viver em um ambiente no qual tecnologia, informação e relações estão cada vez mais entrelaçadas. Para a gestão, o desafio é transformar essa realidade em objeto de formação, combinando limites claros, mediação adulta, pensamento crítico e preservação da autoria.


Nota da Redação: As coberturas especiais do educador21 contam com o apoio da Samsung, que disponibilizou para nossa equipe o uso de tablets nas reportagens em campo. A parceria envolve exclusivamente a cessão de equipamentos, e não interfere na independência editorial do portal.

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