Queda do abandono escolar no Ensino Médio amplia debate sobre qualidade, equidade e desenvolvimento integral nas políticas públicas de educação
A redução da taxa de abandono no Ensino Médio registrada pelo Censo Escolar 2025 marca uma mudança importante na educação brasileira. O indicador mostra que mais estudantes permanecem na escola, mas amplia um desafio ainda maior para gestores públicos: garantir que essa permanência esteja acompanhada de aprendizagem e desenvolvimento.
No primeiro ano do Ensino Médio, a taxa de abandono caiu de 3,7%, em 2024, para 2,2%, em 2025, uma redução superior a 40%. O resultado representa o menor índice da última década e reflete avanços de políticas voltadas à permanência escolar, como o programa Pé-de-Meia e a expansão da educação integral.
Embora os números revelem uma evolução positiva, especialistas alertam que a redução da evasão representa apenas uma etapa do processo. O desafio agora está em assegurar que os estudantes encontrem na escola experiências capazes de ampliar conhecimentos, fortalecer vínculos e construir perspectivas de futuro.
Para o cientista social e mestre em Filosofia da Educação pela USP, Denis Plapler, coordenador pedagógico do Instituto Anchieta Grajaú e ex-consultor da Unesco para o MEC, os indicadores precisam ser analisados dentro da complexidade da educação brasileira.
Plapler afirma que a escola pública brasileira reúne diferentes territórios, culturas e trajetórias sociais. Por isso, compreender os avanços e desafios da educação exige considerar a diversidade das redes de ensino e as condições que influenciam a aprendizagem dos estudantes.
Permanência escolar precisa avançar para aprendizagem significativa
A queda do abandono escolar está relacionada a um conjunto de políticas públicas que buscam enfrentar obstáculos históricos à permanência dos estudantes. Programas de transferência de renda, ampliação da jornada escolar e estratégias de acompanhamento das trajetórias educacionais passaram a ocupar espaço central nas redes de ensino.
Para Denis Plapler, essas iniciativas são fundamentais porque enfrentam fatores que interferem diretamente na continuidade dos estudos. “A insegurança alimentar, as dificuldades de transporte, a precariedade da moradia e outras desigualdades históricas ainda comprometem o direito à educação”, disse.
O especialista destacou que políticas como o programa Pé-de-Meia contribuem para reduzir barreiras materiais, mas precisam estar associadas a uma proposta pedagógica capaz de envolver os estudantes. A permanência, segundo ele, precisa caminhar junto com experiências educativas que tenham significado para crianças, adolescentes e jovens.
Nesse cenário, a educação integral amplia a compreensão sobre aprendizagem ao considerar diferentes dimensões do desenvolvimento humano. A proposta envolve conhecimentos acadêmicos, cultura, esporte, arte, participação e relação com o território.
“A aprendizagem se torna verdadeiramente significativa quando parte da realidade de cada pessoa, da escuta, do diálogo e da valorização de suas experiências”, explicou Plapler, completando que a escola precisa superar uma visão fragmentada do conhecimento e criar condições para que os estudantes estabeleçam relações entre diferentes áreas e compreendam a complexidade do mundo em que vivem.
Qualidade e equidade definem próximos desafios das redes
A redução do abandono escolar muda o foco das políticas educacionais. Além de acompanhar indicadores de fluxo, como aprovação, reprovação e evasão, as redes precisam observar aspectos relacionados ao engajamento, pertencimento e desenvolvimento dos estudantes.
Segundo Denis Plapler, a educação pública brasileira precisa ser analisada considerando sua diversidade. “A escola pública brasileira é, antes de tudo, a escola da diversidade”, disse, ao destacar os diferentes contextos sociais e territoriais presentes no país.
Essa diversidade exige políticas capazes de combinar diretrizes nacionais com estratégias adaptadas às realidades locais. Para o especialista, cada território apresenta desafios específicos, que precisam ser considerados na construção das políticas educacionais.
O desenvolvimento integral também depende de uma mudança na relação entre ensino e aprendizagem. O estudante deixa de ser visto apenas como receptor de conteúdos e passa a participar de uma comunidade de aprendizagem baseada no diálogo, na autonomia e na construção coletiva do conhecimento. Perspectiva que amplia o papel da gestão educacional: gestores precisam criar ambientes escolares capazes de promover aprendizagem, participação e oportunidades para todos os estudantes.
ECA amplia debate sobre equidade e desenvolvimento das crianças
Os 36 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também convidam a uma reflexão sobre os desafios que permanecem para transformar direitos garantidos em oportunidades concretas de desenvolvimento. Na educação, isso significa reconhecer que cada trajetória escolar é influenciada pelas condições sociais, econômicas e culturais dos estudantes.
Para Denis Plapler, garantir direitos exige compreender crianças e adolescentes como sujeitos históricos, inseridos em diferentes realidades. “A democracia não se resume ao direito ao voto. Ela se concretiza também na garantia dos direitos sociais, de acesso à cultura, à escola, ao desenvolvimento, ao cuidado e às oportunidades reais”, afirmou.
Segundo o especialista, as desigualdades começam antes mesmo da entrada na escola e se manifestam no acesso à alimentação, saúde, cultura, lazer e conhecimento. Por isso, políticas educacionais precisam atuar de forma articulada com outras áreas, fortalecendo redes de proteção e ampliando as possibilidades de aprendizagem.
Nesse contexto, a nova agenda educacional passa a exigir mais do que reduzir indicadores de evasão. O desafio das redes públicas é construir condições para que todos os estudantes desenvolvam suas capacidades, participem da sociedade e tenham oportunidades semelhantes de construir seus projetos de vida.










