Lara Crivelaro analisa o desempenho dos sistemas educacionais asiáticos e mostra o que o Brasil pode aprender com suas políticas, práticas e experiências de internacionalização
O Brasil não vai melhorar sua posição no PISA copiando a Finlândia. Também não vai melhorar olhando apenas para dentro de si mesmo. O que os dados internacionais mostram, de forma cada vez mais clara, é que o epicentro da excelência educacional mudou de endereço — e ele agora está na Ásia.
Isso não é uma opinião. É o que os números dizem há mais de uma década.
No PISA 2022, Singapura, China, Japão e Taiwan lideram o ranking global de desempenho educacional. Em matemática, Singapura atingiu a maior pontuação já registrada por qualquer país em qualquer área do PISA — 575 pontos. Segundo a OCDE, estudantes singapurenses de 15 anos estão entre três e cinco anos de escolaridade à frente de seus pares globais.
O dado mais revelador, porém, não é a média. Mesmo os estudantes do quartil socioeconômico mais baixo de Singapura pontuam acima da média geral da OCDE. Nenhum outro país no banco de dados consegue afirmar o mesmo.
Enquanto isso, o Brasil alcançou 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências em 2022 — mantendo-se consistentemente abaixo da média dos países da OCDE nas três disciplinas. A estabilidade dos nossos resultados, repetidamente apresentada como algo positivo, esconde um problema mais sério: estamos estáveis num patamar que não é bom.
Existe uma distância real entre o que os sistemas asiáticos produzem e o que o nosso sistema produz. E enquanto não formos honestos sobre isso, continuaremos tomando decisões pedagógicas com um mapa desatualizado.
A primeira coisa que um educador brasileiro precisa entender sobre a educação asiática de alta performance é que ela não se explica por cultura ou talento inato. Essa leitura é superficial e, pior, paralisante — porque sugere que não há nada a aprender.
Há quatro fatores que explicam o domínio consistente da Ásia Oriental nos rankings: a valorização da educação como princípio cultural, a crença de que o esforço determina o resultado mais do que a capacidade inata, a docência como carreira de alto prestígio social, e a incorporação de pesquisas pedagógicas ocidentais aplicadas de forma sistemática.
Esse último ponto merece atenção. Boa parte da base teórica da educação asiática de alta performance foi desenvolvida no Ocidente — como a teoria de Jerome Bruner sobre representação do conhecimento, que em Singapura se traduziu num currículo de matemática que vai do concreto ao pictórico e ao abstrato de forma estruturada. Eles pegaram o que foi produzido aqui e implementaram com rigor. Nós produzimos muita teoria e implementamos pouco.
A formação e a valorização do professor são outro ponto que não dá para contornar. Em Singapura, os professores são formados no National Institute of Education, com custeio integral do governo em troca de um compromisso de três anos na docência. O resultado é uma carreira atrativa para jovens talentosos — o que retroalimenta o sistema. No Brasil, a situação é praticamente inversa: formamos professores com baixo desempenho na educação básica e esperamos que eles revertam esse cenário na sala de aula.
A Malásia não aparece no topo do PISA, mas ocupa hoje um lugar estratégico diferente: consolidou-se como hub de EdTech para toda a região asiática. A Bett Asia, realizada anualmente em Kuala Lumpur, é o principal evento de tecnologia educacional fora do eixo europeu e norte-americano. É onde as decisões sobre o futuro da sala de aula estão sendo tomadas — com escala, com investimento e com urgência.
Para um educador ou gestor brasileiro que pensa em internacionalização, ignorar o que está acontecendo em Kuala Lumpur é o equivalente a ignorar Silicon Valley nos anos 90. A tecnologia educacional que vai chegar ao Brasil nos próximos cinco anos já está sendo testada lá.
Há um hábito que precisa ser questionado na educação brasileira: a tendência de buscar respostas sempre dentro do próprio sistema. Reformas curriculares que se debatem internamente, formações continuadas que reproduzem o que já existe, eventos que convidam sempre os mesmos nomes.
Não estou dizendo que o Brasil não tem boas práticas — tem. Mas nenhum sistema educacional que se fechou sobre si mesmo melhorou de forma significativa. A Finlândia que virou referência global nos anos 2000 não chegou lá por acidente — chegou por décadas de estudo comparado e decisões políticas baseadas em evidências externas.
Os sistemas asiáticos fazem isso de forma metódica. Enviam educadores para observar outras realidades, importam pesquisas, adaptam metodologias. A pergunta que cada gestor e cada educador brasileiro precisa se fazer é: quando foi a última vez que você saiu do seu próprio sistema para ver como os outros funcionam?
Não estou defendendo que o Brasil copie a Ásia. Contextos são diferentes, histórias são diferentes, e nenhuma transplantação direta funciona em educação.
O que estou defendendo é que um educador que conhece de perto como escolas de alta performance asiáticas funcionam — que entrou nas salas de aula, conversou com gestores, observou a relação entre professores e alunos, entendeu a articulação entre escola e universidade — volta com um repertório que simplesmente não existe em curso nenhum no Brasil.
Esse repertório muda a forma como ele toma decisões. Muda o que ele propõe para sua escola. Muda o teto do que ele consegue imaginar como possível.
É por isso que a imersão direta ainda é insubstituível. Dados e relatórios explicam o quê. Ver com os próprios olhos explica o como — e é o como que transforma prática pedagógica.
A colunista Lara Crivelaro é CEO da Efígie Educação, que em setembro realiza a Missão Educacional Malásia & China, uma imersão exclusiva para educadores e gestores vivenciarem práticas educacionais de referência na Malásia e China.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










