Skip to main content

Na coluna de junho, Amábile Pácios defende que a qualidade da formação docente depende da integração entre teoria acadêmica, prática escolar e saberes construídos no cotidiano da profissão

A formação de professores sempre esteve cercada por uma tensão que, embora não seja nova, ganha contornos cada vez mais relevantes diante dos desafios contemporâneos da educação: como equilibrar o conhecimento teórico acumulado pelas universidades com os saberes construídos na prática cotidiana da docência?

Essa não é uma discussão sobre escolher entre teoria e prática. Trata-se, na verdade, de compreender que a qualidade da formação docente depende justamente da articulação entre essas duas dimensões.

Por muito tempo, prevaleceu a ideia de que o professor seria um aplicador de conhecimentos produzidos por especialistas externos à escola. Nessa lógica, caberia às instituições formadoras transmitir conteúdos teóricos, metodologias e fundamentos pedagógicos que, posteriormente, seriam colocados em prática na sala de aula.

A experiência tem mostrado, no entanto, que ensinar é uma atividade muito mais complexa.

A docência exige conhecimento científico, domínio dos conteúdos e compreensão das teorias educacionais. Mas exige também a capacidade de interpretar contextos, lidar com a diversidade, tomar decisões em situações imprevisíveis e construir estratégias de ensino adequadas às necessidades reais dos estudantes.

Esses conhecimentos, construídos no cotidiano escolar, são os chamados saberes docentes.

São saberes que nascem da experiência, da observação, da reflexão sobre a prática e do diálogo permanente com outros profissionais. Não substituem a teoria, mas tampouco podem ser considerados secundários. Ao contrário: são eles que permitem transformar conceitos abstratos em experiências concretas de aprendizagem.

Nesse sentido, um dos maiores desafios da formação inicial de professores é superar a fragmentação entre universidade e escola.

Ainda é comum que os cursos de licenciatura concentrem grande parte da carga horária em disciplinas teóricas, deixando as experiências práticas para os momentos finais da formação. Como consequência, muitos estudantes chegam ao estágio supervisionado sem conhecer a realidade das redes de ensino, a dinâmica da sala de aula ou as múltiplas dimensões que envolvem o trabalho docente.

Essa distância contribui para uma percepção equivocada de que a teoria pertence à universidade e a prática à escola, quando, na verdade, ambas deveriam constituir um processo formativo integrado.

Fortalecer a residência pedagógica, ampliar as experiências de observação e participação nas escolas desde os primeiros períodos da graduação e valorizar os professores da educação básica como coformadores são caminhos importantes para reduzir essa distância.

Também é fundamental reconhecer que a formação docente não se encerra com a conclusão da licenciatura. Os saberes da docência são construídos ao longo da carreira, em um processo contínuo de estudo, troca de experiências e aperfeiçoamento profissional.

Em um contexto marcado pelo avanço das tecnologias digitais, pela diversidade dos estudantes e pelas constantes transformações sociais, o professor precisa ser, cada vez mais, um profissional reflexivo, capaz de aprender com a própria prática e de transformar experiências em conhecimento.

Isso exige que as instituições formadoras revisitem seus currículos e promovam modelos mais integrados, em que teoria e prática deixem de ser vistas como polos opostos.

A formação de professores não pode se limitar à transmissão de conteúdos, mas também não deve abrir mão do rigor acadêmico. O desafio está em construir percursos formativos que reconheçam o valor dos saberes produzidos na escola e, ao mesmo tempo, fortaleçam a base científica da profissão docente.

Mais do que escolher entre teoria ou prática, a educação brasileira precisa compreender que o professor se forma na interação entre ambas. É nesse encontro que surgem os saberes docentes — e é nele que reside a possibilidade de construir uma formação mais conectada à realidade e mais comprometida com a aprendizagem.

Compartilhe:

Leave a Reply