Bett Brasil 2026 mostra que inteligência artificial deixa de ser apoio e passa a influenciar escolhas, ampliando desafios de equidade e uso nas escolas
Débora Thomé
A inteligência artificial deixou de ocupar um papel secundário nas escolas e passa, cada vez mais, a influenciar decisões pedagógicas, de gestão e de aprendizagem. Esse movimento ficou evidente nos debates do primeiro dia da Bett Brasil 2026, que apontam para uma mudança mais profunda: não se trata apenas de adotar tecnologia, mas de entender como ela redefine prioridades, critérios e caminhos dentro da educação.
No Fórum de Gestores, a discussão sobre o chamado “mix de inteligências” — que articula dimensões humanas, coletivas e artificiais — trouxe uma camada mais concreta ao debate. Ao conectar o avanço tecnológico aos desafios estruturais da educação brasileira, especialistas reforçaram que inovação, por si só, não garante transformação.
Luciano Meira, head de Educação da Proz Educação, destacou que o impacto da inteligência artificial depende diretamente das condições de acesso e uso. “Não adianta a inteligência artificial avançar se não criarmos condições para que todos tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolver competências e habilidades. A tecnologia pode reduzir custos, mas, sem equidade, ela também pode ampliar desigualdades”, afirmou.
A leitura evidencia uma tensão central: ao mesmo tempo em que a IA amplia possibilidades, também expõe fragilidades históricas do sistema educacional. Sem estratégia e intencionalidade, o risco é que a tecnologia reforce assimetrias já existentes, em vez de contribuir para sua redução.
Inteligência artificial na educação exige integração real
A provocação de Silvio Meira, cientista-chefe da TDS.company, amplia esse debate ao deslocar a discussão para o modo como a escola interpreta o mundo contemporâneo. Ao apresentar o conceito de mundo “fígital” — que integra o físico, o digital e o social —, ele aponta para um descompasso entre a experiência cotidiana das pessoas e a lógica ainda predominante nas instituições de ensino.
“Hoje, vivemos experiências completamente integradas, mas a escola ainda não conseguiu interpretar isso dentro da sua lógica. O desafio é reconstruir práticas pedagógicas para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem”, afirmou.
Sua fala evidencia que o desafio não está apenas na adoção de ferramentas, mas na revisão de modelos. Incorporar inteligência artificial sem repensar práticas tende a gerar pouco impacto, mantendo a tecnologia como um elemento periférico dentro da dinâmica escolar.
Outro ponto que emerge do debate é que a tecnologia só produz valor quando combinada à inteligência humana e à capacidade de articulação entre diferentes atores do ecossistema educacional. Isso inclui gestores, professores, desenvolvedores e formuladores de políticas públicas, que passam a compartilhar a responsabilidade sobre o uso e os efeitos dessas soluções.

Quem decide na era da IA e quais são os limites
No Summit de IA, a discussão avançou para um dos pontos mais sensíveis da atualidade: quem toma as decisões na era da inteligência artificial. O painel abordou temas como ética, vieses algorítmicos e o risco de delegar decisões pedagógicas à tecnologia — um debate que acompanha o avanço acelerado da IA no mundo todo.
Participaram da conversa Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, Gi Santos, pesquisadora e gestora de Inovação no humani:a, e Americo Amorim, pesquisador afiliado e fundador do Escribo. O trio discutiu caminhos para manter o professor no centro da mediação do aprendizado, evitando a transferência excessiva de decisões para sistemas automatizados.
Para Cintra, o potencial da IA passa menos pela substituição e mais pela ampliação das interações. “O que a IA pode permitir são bons diálogos, boas conversas. Não tem nada mais ancestral que a tecnologia do diálogo. E a IA ainda não se provou ser maior que o professor”, afirmou o educador, que está à frente da Coluna Tecnologia que Humaniza, no educador21.
A discussão também avançou para a necessidade de formar alunos e professores capazes de compreender o funcionamento da tecnologia. Gi Santos destacou que esse processo exige ir além do uso e explorar os fundamentos da IA no ambiente educacional. “A gente precisa abrir o capô e dizer o que está por trás da inteligência artificial. Quem faz bem isso não foge do básico, da matemática, das linguagens”, afirmou.

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










