Bett Brasil 2026 reúne lideranças, edtechs e redes de ensino em São Paulo, destacando IA, inovação pedagógica e gestão no principal encontro do setor
Começa com uma provocação central o maior encontro educacional da América Latina, que reúne milhares de educadores no Expo Center Norte, em São Paulo. Logo na abertura, a Bett Brasil 2026 sinaliza o tom que deve atravessar toda a programação: a inteligência artificial já está presente na educação — a questão agora não é mais se, mas como e com que intenção ela será utilizada nas escolas.
A cerimônia de abertura do Congresso de Educação Básica reuniu representantes do poder público, iniciativa privada e terceiro setor em torno de um ponto comum: a tecnologia, por si só, não transforma a educação. A presença da robô humanoide Eugênia reforçou o simbolismo dessa discussão ao provocar o público: “O futuro da educação já começou e é mais sobre o que os humanos estão dispostos a mudar. O verdadeiro desafio talvez não seja tecnológico, e sim humano”.
Esse mesmo eixo foi reforçado por Claudia Valério, diretora-geral da Bett Brasil, que destacou o papel da tecnologia como meio, e não como fim. “A tecnologia só faz sentido quando está a serviço das pessoas. Quando ajuda a resolver desafios diários das escolas e libera tempo para o que é insubstituível: a relação humana. Se não for assim, a tecnologia vira ruído”, afirmou.
A fala sintetiza uma preocupação recorrente no evento: o risco de soluções que prometem eficiência, mas não necessariamente impacto educacional. Ao mesmo tempo, a abertura do Summit de Inteligência Artificial amplia o debate ao propor uma mudança de postura das lideranças educacionais.
A provocação inicial — sobre quantos já percebem a IA impactando a educação — estabelece um consenso imediato: a tecnologia já chegou às escolas. A partir daí, a discussão se desloca para um ponto mais complexo: quem lidera esse processo e com quais critérios. E esse deverá ser o tom das discussões pelos próximos três dias.

IA na educação exige protagonismo das lideranças
A abertura do Summit IA, a grande novidade desta edição da Bett, reforça que a presença da inteligência artificial nas escolas deixou de ser tendência para se tornar realidade consolidada. A defesa de que o setor educacional precisa assumir o controle desse processo aparece de forma direta na solenidade de abertura.
Sandro Bonás, CEO Conexia e anfitrião do espaço ao lado de Claudia Valério, defendeu que a discussão sobre IA precisa partir da realidade escolar. “Vocês, líderes educacionais, são as pessoas que, na última fronteira, defendem a sociedade deste futuro. O avanço da inteligência artificial precisa estar em suas mãos”, afirmou. A declaração evidencia uma tensão crescente entre inovação tecnológica e autonomia pedagógica.
Outro ponto recorrente foi a necessidade de transformar discurso em prática. A promessa de ganhos de produtividade e personalização ainda esbarra em dúvidas sobre implementação. Como integrar a IA ao currículo? Como apoiar professores? Como evitar usos superficiais? Essas perguntas indicam que o desafio atual não é mais de acesso, mas de intencionalidade e aplicação.
Ao propor o Summit como um espaço de formação contínua, a Bett sinaliza que a construção desse repertório ainda está em curso. Dessa forma, o evento afasta de vez a percepção de ser uma vitrine de tend^Çencias para convidar os educadores a desenvolver critérios e assumirem um papel ativo na definição do uso da tecnologia nas escolas.


Aprendizagem, tecnologia e os limites do digital
Na abertura do Congresso, as falas convergiram para um ponto sensível: a relação entre tecnologia e aprendizagem não é automática. A premiada educadora Débora Garofalo alertou para o risco de uma visão limitada sobre o tema. “A tecnologia ainda é tratada apenas como ferramenta, quando deveria também ser objeto de conhecimento”, disse Débora, que é referência internacional em educação, reconhecida como a educadora mais influente do mundo.
A perspectiva de políticas públicas também aparece nas falas de Juliana Velho, que destacou o impacto humano das decisões tecnológicas. “Quando falamos em tecnologia, pensamos em números e dados, mas o mais relevante é o que estamos proporcionando a uma criança que antes não tinha acesso e hoje tem”, afirmou a chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, reforçando a dimensão social do debate.
Já Ana Úngari Dal Fabbro, coordenadora-geral de Tecnologia e Inovação da Educação Básica no MEC, defendeu uma mudança de paradigma. “É preciso ir além da tecnologia como ferramenta de aprendizagem e avançar para a educação sobre tecnologia e inteligência artificial”, disse, ao enfatizar a formação de estudantes críticos, criadores e eticamente preparados para lidar com as transformações.
Já Marlene Schneider, presidente do Sieeesp, reforçou que acredita na educação pública e privada brasileira. “Os desafios são grandes, mas acredito que vamos alcançar cada vez mais um nível alto de educação para nossos alunos”.
A crítica mais direta ao papel da tecnologia na aprendizagem veio de Priscila Cruz, presidente e cofundadora do Todos pela Educação. “Aprendizagem é relacional. Aprendemos nos relacionando com outros humanos. Qualquer atalho que não respeite essa forma como a gente aprende acaba prejudicando o processo educativo”, afirmou. A fala recoloca o professor no centro do processo e questiona a ideia de que a tecnologia pode simplificar o aprendizado.
Ao reunir essas diferentes perspectivas, a Bett Brasil 2026 inicia sua programação com uma mensagem clara: o futuro da educação não será definido apenas pela velocidade da tecnologia, mas pela capacidade do setor de fazer escolhas conscientes. Entre possibilidades e limites, o que está em jogo não é apenas o uso de ferramentas, mas o próprio sentido da escola em um mundo cada vez mais mediado por inteligências artificiais.

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










