IV Encontro de Educadores do Século XXI reuniu especialistas na Casa Firjan para discutir os impactos da IA sobre aprendizagem, formação docente e práticas pedagógicas
A inteligência artificial já integra o cotidiano de professores e estudantes, mas sua presença nas escolas amplia questões que vão além da escolha de ferramentas. Como esses sistemas interferem na aprendizagem? O que muda na atuação docente? E quais decisões precisam continuar sob responsabilidade das instituições e dos educadores?
Foi nesse contexto que o IV Encontro de Educadores do Século XXI – Inteligência Artificial e o Futuro da Educação reuniu educadores, pesquisadores, gestores e especialistas nos dias 14 e 15 de agosto, na Casa Firjan, no Rio de Janeiro. Promovido em parceria com a Firjan Sesi, o evento discutiu os impactos pedagógicos, éticos e institucionais da inteligência artificial na Educação Básica.
Ao longo da programação, temas como formação docente, personalização da aprendizagem, avaliação e uso pedagógico das tecnologias apareceram associados a uma questão central para as escolas: como lidar com uma tecnologia que já está sendo utilizada por alunos e professores enquanto seus efeitos sobre as formas de ensinar e aprender ainda estão em construção?
O educador21 acompanhou duas palestras do encontro, realizadas em momentos distintos da programação. Na sexta-feira, Claudio Pinhanez, professor visitante do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina (CIAAM) da Universidade de São Paulo, abordou o aluno como sujeito da aprendizagem com agentes de IA, ao lado da convidada Camila Leporace, do Instituto de Computação da Unicamp. No sábado, George Stein apresentou o conceito de mediação docente aumentada, colocando o professor no centro da discussão sobre personalização da aprendizagem com o apoio da inteligência artificial.


IA na escola exige mais do que adoção de ferramentas
A entrada da inteligência artificial nas escolas não deveria começar pela escolha de plataformas, mas pela compreensão do que esses sistemas são capazes de fazer — e, principalmente, de onde falham. Durante o encontro, Pinhanez chamou atenção para problemas como falta de acurácia, inconsistência e produção de informações incorretas pelos modelos de linguagem. Para o pesquisador, reconhecer essas limitações é parte da própria formação para o uso da tecnologia.
A perspectiva também questiona uma lógica recorrente na história da tecnologia educacional: a expectativa de que uma nova ferramenta possa resolver problemas de aprendizagem ou substituir o professor. Pinhanez retomou experiências das décadas de 1970 e 1980 associadas a uma perspectiva instrucionista e defendeu uma mudança de direção, inspirada no construcionismo de Seymour Papert. “Não é a tecnologia que controla o estudante, mas é o estudante que controla a tecnologia. Essa inversão é fundamental no processo”, afirmou.
Na prática, isso significa transformar a IA também em objeto de investigação. Em vez de utilizar os modelos apenas para obter respostas, os estudantes podem criar, testar e modificar sistemas, observando como dados e configurações interferem nos resultados. A proposta apresentada por Pinhanez inclui experiências de letramento em IA nas quais os alunos aprendem justamente ao identificar erros, vieses e limitações das ferramentas.
A discussão sobre o uso da tecnologia também envolve as decisões tomadas pelas próprias instituições. Camila Leporace, doutora em Educação e convidada da palestra, questionou a adoção de soluções sem uma análise prévia das necessidades pedagógicas. “A tecnologia tem que fazer coisas que realmente solucionem problemas e tem que primeiro entender que problemas são esses, em vez de criar problemas novos e depois oferecer a solução”, afirmou.
Para as escolas, essa perspectiva coloca a inteligência artificial no campo das decisões pedagógicas e institucionais. Antes de escolher ferramentas, é necessário definir problemas, objetivos e critérios de uso, criando condições para que professores e estudantes experimentem a tecnologia de forma crítica e alinhada às necessidades de aprendizagem.

IA amplia possibilidades, mas não substitui a mediação docente
A inteligência artificial generativa pode ampliar a personalização da aprendizagem, mas não substitui o professor na definição de caminhos, objetivos e intervenções pedagógicas. Essa é a premissa apresentada por George Stein, fundador da PedagogIA, Faculdade de Educação da PUC-SP, mentor do SXSW e autor de A escola com inteligência artificial generativa, ao desenvolver o conceito de mediação docente aumentada.
Para Stein, que mensalmente escreve para o educador21 na coluna Transformação Continuada, ua tecnologia deve fortalecer — e não deslocar — o protagonismo docente. “A IA não sabe. A gente tem que saber usar a IA. Se a gente não souber, a gente cobra isso”, afirmou. A proposta parte de uma questão anterior à própria tecnologia: onde está o estudante em seu processo de aprendizagem?
Durante a apresentação, Stein utilizou uma experiência em que pediu ao público que apontasse para o Norte de olhos fechados. As diferentes direções reveladas depois serviram para demonstrar que não é possível indicar um caminho sem conhecer o ponto de partida. “O mediador não consegue ser um bom mediador se ele não souber onde você está”, explicou. Para o professor, essa leitura do contexto é justamente uma das dimensões que diferenciam a mediação humana da capacidade de uma ferramenta de gerar respostas.
Nesse cenário, personalizar não significa apenas adaptar conteúdos ou produzir respostas diferentes para cada aluno. A mediação envolve criar significado, oferecer oportunidades de prática e desenvolver condições para que o estudante avance. Stein relaciona essa perspectiva à Zona de Desenvolvimento Proximal, de Vygotsky: há momentos em que o aprendiz precisa de apoio para realizar aquilo que ainda não consegue fazer sozinho. A IA pode participar desse percurso, mas cabe ao professor identificar quando, como e para quem determinada ferramenta pode contribuir.
Essa responsabilidade começa antes do uso da inteligência artificial. Segundo Stein, o professor precisa definir as expectativas de aprendizagem, considerando quais conhecimentos, habilidades e atitudes pretende desenvolver e quais evidências demonstrarão que isso aconteceu. “A nossa responsabilidade como educadores é muito maior”, afirmou. A avaliação, nessa perspectiva, deixa de ser apenas uma fotografia produzida por uma prova e passa a integrar o acompanhamento do processo de aprendizagem.
A mediação docente aumentada reúne, segundo Stein, competências como identificar e atualizar o contexto do estudante, definir a função da aprendizagem, planejar práticas com IA generativa e acompanhar as evidências produzidas ao longo do percurso. O professor também precisa evitar rótulos que reduzam estudantes ou turmas a determinados comportamentos. “Não rotule, entenda”, destacou. Nesse cenário, a inteligência artificial pode ampliar as possibilidades de personalização, mas continua sendo o professor quem define o norte, atribui significado ao percurso e decide como cada estudante pode avançar.










