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Debates do palco Future-U discutiram como a inteligência artificial transforma a aprendizagem e por que a capacidade de dialogar se torna uma competência cada vez mais estratégica para estudantes, educadores e profissionais

Em uma edição que reuniu mais de 55 mil participantes de 30 países e consolidou o Rio2C como um dos principais encontros de criatividade, inovação e economia criativa da América Latina, a educação voltou a ocupar espaço de destaque na programação. Sob o tema “Code of Meaning” (Código de Sentido), o evento promoveu reflexões sobre os impactos das transformações tecnológicas, especialmente a inteligência artificial, na forma como as pessoas aprendem, trabalham e constroem significado em um mundo cada vez mais conectado.

No palco Future-U, dedicado às discussões sobre educação, desenvolvimento humano e futuro do trabalho, especialistas de diferentes áreas abordaram desafios que ultrapassam o campo tecnológico. Em vez de concentrar o debate apenas nas ferramentas de inteligência artificial, os encontros colocaram em pauta questões relacionadas à autonomia intelectual, à construção do pensamento crítico e às habilidades humanas necessárias para navegar em um cenário de mudanças aceleradas.

O educador21 foi conferir o evento e acompanhou as discussões dos painéis “O aprendiz e as máquinas companheiras” e “Aprender a conversar: uma habilidade essencial para a educação e o trabalho”. Embora tratassem de temas distintos, ambos convergiram para uma preocupação comum: como preservar capacidades humanas fundamentais em uma sociedade cada vez mais mediada por algoritmos, plataformas digitais e sistemas automatizados.

As discussões evidenciaram que a incorporação da inteligência artificial à educação não pode ser analisada apenas sob a perspectiva da eficiência ou da inovação tecnológica. O desafio passa também pela formação de estudantes capazes de interpretar informações, tomar decisões conscientes, construir conhecimento e estabelecer relações significativas com outras pessoas.

Gi Santos e Luciano Meira no centro (Foto: educador21)

Inteligência artificial exige novas escolhas pedagógicas

Ao discutir os impactos da inteligência artificial na aprendizagem, os participantes do painel “O aprendiz e as máquinas companheiras” defenderam a necessidade de qualificar o debate sobre o tema. Na abertura da conversa, a pesquisadora e mediadora Gi Santos alertou que diferentes tecnologias, modelos de negócio e sistemas de decisão passaram a ser reunidos sob o mesmo rótulo. “As pessoas não conseguem muito diferenciar. O painel também se propõe a qualificar o objeto”, afirmou.

A pesquisadora Fernanda Bruno destacou que a própria definição de inteligência artificial permanece aberta a interpretações e disputas conceituais. Segundo ela, não existe consenso nem mesmo sobre o significado de inteligência, o que torna mais complexa a compreensão dos impactos da IA generativa sobre a educação, a subjetividade e as relações humanas.

Os especialistas também questionaram a ideia das chamadas “máquinas companheiras”, cada vez mais presentes em assistentes virtuais e sistemas conversacionais. Embora simulem interações humanas e ofereçam respostas constantes, essas ferramentas não compartilham responsabilidades éticas ou emocionais sobre as consequências das relações que estabelecem com seus usuários.

Nesse contexto, o pesquisador Luciano Meira chamou atenção para o crescimento do uso dessas tecnologias entre jovens brasileiros. Para ele, o principal desafio está na forma como estudantes e instituições vêm delegando processos cognitivos às plataformas digitais. “Não se está construindo, do ponto de vista de uma prática didática consistente e de uma intencionalidade pedagógica, formas de delegar para a inteligência artificial que sejam estratégicas”, afirmou.

O debate concluiu que o desafio da educação não está em permitir ou proibir a IA, mas em orientar seu uso de forma consciente. Os participantes defenderam o fortalecimento da reflexão, da argumentação e da autonomia intelectual para que a tecnologia funcione como apoio à aprendizagem, e não como substituição de competências essenciais ao desenvolvimento humano.

Adriana Martinelli, mentora e diretora de Conteúdo da Bett Brasil

Escuta ativa ganha espaço no debate educacional

Se a inteligência artificial desafia a educação a preservar a autonomia intelectual, a capacidade de dialogar apareceu como uma das competências humanas mais relevantes para o futuro. Essa foi a principal mensagem da palestra conduzida por Adriana Martinelli, diretora de Conteúdo da Bett Brasil.

Ao longo da apresentação, Adriana provocou o público a refletir sobre uma atividade presente em praticamente todos os momentos da vida cotidiana: a conversa. Embora pessoas conversem constantemente em ambientes familiares, escolares e profissionais, ela observou que raramente param para analisar como essas interações acontecem. “A gente passa a vida inteira conversando, mas nunca aprendeu a conversar”, afirmou.

A especialista argumentou que a sociedade dedica grande atenção ao desenvolvimento da fala e da argumentação, mas investe pouco na aprendizagem da escuta. Para ela, muitos problemas atribuídos às pessoas são, na realidade, problemas relacionados à qualidade das conversas estabelecidas entre elas. “A gente vive numa sociedade da oralidade, do falar e do se posicionar, e não da escuta e do respeito a quem pensa diferente”, destacou.

A reflexão dialoga diretamente com os desafios enfrentados pelas escolas. Em ambientes cada vez mais diversos e marcados pela circulação acelerada de informações, a escuta ativa surge como uma competência essencial para a convivência, a aprendizagem colaborativa e o desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Segundo Adriana, fortalecer o autoconhecimento e a capacidade de compreender diferentes perspectivas pode contribuir para relações mais saudáveis e processos de aprendizagem mais significativos dentro e fora da sala de aula.

A passagem do Rio2C 2026 pelo debate educacional mostrou que os desafios da inteligência artificial não serão resolvidos apenas por novas ferramentas ou plataformas. Embora tratassem de temas distintos, os painéis convergiram para uma mesma conclusão: diante da expansão da inteligência artificial, as competências mais humanas — refletir, interpretar, escutar e dialogar — tornam-se ainda mais relevantes. Para a educação, o desafio não parece ser apenas incorporar novas tecnologias, mas desenvolver capacidades que permitam aos estudantes utilizá-las de forma crítica, consciente e responsável.

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