Especialistas defendem mudanças em currículo, avaliação e formação docente para preparar estudantes para uma realidade em que a IA já faz parte da aprendizagem
A inteligência artificial deixou de ser uma tendência futura para se tornar parte da rotina de crianças e adolescentes. Ferramentas capazes de responder perguntas, produzir textos, resumir conteúdos e gerar imagens passaram a integrar o cotidiano dos estudantes, provocando uma transformação que desafia diretamente a escola. Diante desse cenário, cresce a percepção de que o debate não deve se concentrar apenas no uso da tecnologia, mas na necessidade de revisar práticas pedagógicas construídas para uma realidade que já não existe.
O avanço da IA também tem ampliado questionamentos sobre como ensinar e avaliar. Atividades realizadas fora da sala de aula tornaram-se mais difíceis de monitorar, enquanto tarefas baseadas exclusivamente na reprodução de informações perderam parte de sua eficácia. Em resposta, educadores e especialistas defendem a valorização de competências relacionadas à análise crítica, à resolução de problemas, à criatividade e à capacidade de tomar decisões em contextos complexos.
O tema ganhou ainda mais relevância após os movimentos anunciados pelo Programme for International Student Assessment (PISA), que sinalizou a incorporação de competências ligadas ao letramento em inteligência artificial e à alfabetização midiática em futuras avaliações internacionais. A mudança indica que compreender, interpretar e utilizar tecnologias digitais tende a se tornar uma habilidade cada vez mais estratégica para a formação dos estudantes.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial passou a influenciar não apenas a aprendizagem, mas também as formas de relacionamento e interação social dos jovens. Estudos recentes mostram que parte dos estudantes já utiliza essas ferramentas para conversar, buscar companhia e lidar com sentimentos de solidão, ampliando os desafios enfrentados pelas escolas.
Nesse contexto, especialistas defendem que a inteligência artificial no Ensino Fundamental exige uma transformação que envolve currículo, avaliação, formação docente e desenvolvimento socioemocional. O objetivo não é substituir práticas educacionais, mas construir uma escola capaz de preparar os estudantes para compreender criticamente uma tecnologia que já influencia suas vidas.
Inteligência artificial no Ensino Fundamental exige novas competências
A presença crescente da inteligência artificial entre crianças e adolescentes tem acelerado discussões sobre quais competências devem orientar a educação básica nos próximos anos. Dados apresentados pela Arco Educação indicam que 83% dos estudantes já utilizam ferramentas de IA em suas rotinas acadêmicas, cenário que desafia modelos de ensino baseados prioritariamente na memorização de conteúdos.
Para Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações Educacionais da Arco Educação, a principal questão não está na tecnologia em si, mas na permanência de estruturas pedagógicas pouco alinhadas às demandas contemporâneas. “O problema não é a IA, mas continuar usando um modelo de ensino que já não desenvolve as competências que o mundo exige. A escola ainda está muito baseada em repetição, teoria e prova. Porém, habilidades como resolução de problemas, pensamento crítico, criatividade e colaboração só se desenvolvem na prática”, afirmou.
A discussão também aparece nas avaliações internacionais. Segundo Camila Karino, diretora de Avaliação da Arco Educação, o PISA vem sinalizando há anos a necessidade de ampliar o olhar sobre aquilo que as escolas desenvolvem em seus estudantes. “O PISA vem alertando há alguns anos que o mundo exige novas competências. Em 2015, já se falava sobre pensamento criativo. Agora, avançamos para IA e mídia. O Brasil ainda reage de forma muito lenta”, observou.
A especialista defende que a avaliação deixe de funcionar apenas como instrumento de verificação ao final do processo de aprendizagem. “A IA pode ajudar justamente ao gerar feedbacks imediatos, personalizar trilhas e liberar mais tempo para o professor acompanhar o desenvolvimento real dos alunos”, explicou Camila.
Nesse contexto, iniciativas voltadas ao acompanhamento de competências como pensamento crítico, resolução de problemas, letramento digital e letramento em inteligência artificial começam a ganhar espaço. A proposta é ampliar o foco da aprendizagem para além do domínio de conteúdos, acompanhando habilidades consideradas essenciais para a vida acadêmica, profissional e social.
Letramento em inteligência artificial entra na rotina escolar
Se a inteligência artificial já faz parte do cotidiano dos estudantes, cresce entre especialistas a avaliação de que proibir seu uso tende a produzir resultados limitados. O desafio passa a ser ensinar crianças e adolescentes a compreender como essas ferramentas funcionam, quais são seus limites e de que forma podem ser utilizadas de maneira ética e responsável.
Essa perspectiva orienta experiências como a da rede Anglo Alante, que incorporou ao currículo uma disciplina voltada ao letramento digital e ao estudo da inteligência artificial. A proposta busca desenvolver não apenas habilidades técnicas, mas também capacidade crítica para analisar informações, identificar riscos e compreender os impactos sociais da tecnologia.
Na opinião de Yan Luz, coordenador de segmento da rede, a escola tem papel decisivo nesse processo. “Nosso papel, enquanto educadores, é capacitar as crianças e os jovens para a realidade que irão vivenciar na vida adulta. O boom das IAs trouxe à tona a necessidade não apenas de ensinar na prática a forma de utilização, mas também as regras e a criticidade dos seus possíveis usos”, afirmou.
Ainda segundo o educador, a ausência de orientação pode favorecer comportamentos relacionados à dependência tecnológica, ao plágio, à reprodução de desinformação e ao enfraquecimento da autonomia intelectual. “Mais do que controlar, cabe à escola educar para o uso consciente. A inteligência artificial já faz parte da realidade dos estudantes. Portanto, o objetivo não é impedir seu contato, mas desenvolver neles repertório, autonomia intelectual e criticidade”, destacou.
A iniciativa também envolveu formação específica para professores, reconhecendo que a incorporação da IA ao ambiente escolar depende da preparação dos educadores. A estratégia reflete uma compreensão crescente de que a tecnologia precisa ser acompanhada por processos permanentes de atualização pedagógica.
Inteligência artificial amplia desafios socioemocionais
O avanço da inteligência artificial também vem despertando atenção para seus impactos nas relações humanas. Pesquisa recente, realizada pela Arco Educação com 936 estudantes de escolas privadas brasileiras, revelou que 19% dos alunos recorrem regularmente a ferramentas de IA quando se sentem sozinhos ou precisam conversar com alguém.
O levantamento identificou ainda que 52% dos jovens relatam dificuldades para fazer novos amigos e 17% afirmam sentir solidão de forma frequente. Os resultados sugerem que o uso da tecnologia pode estar relacionado a questões mais amplas ligadas ao pertencimento e à construção de vínculos sociais.
Francila Novaes, gerente de Soluções Educacionais da Arco Educação e líder da pesquisa, afirmou que os dados revelam um desafio que vai além do ambiente digital. “Os dados indicam que a solidão vai além de ter ou não amigos em redes sociais. Trata-se da dificuldade em iniciar interações na vida real e também de manter esses vínculos. O sentimento de pertencimento e amizade são especialmente importantes na adolescência e não tê-las causa prejuízo na formação socioemocional, moral e cognitiva dos jovens”, avaliou.
O estudo também identificou diferenças importantes entre grupos de estudantes, apontando maiores índices de vulnerabilidade emocional entre meninas e jovens que optaram por não declarar gênero. Além disso, a transição para o Ensino Médio aparece como um período de maior risco para o aumento da sensação de isolamento.
Já Rodolpho Meschgrahw, diretor de Produto e Estratégia da Arco Educação e coordenador do estudo, defende que as escolas precisam incorporar a saúde socioemocional como parte estruturante de suas estratégias educacionais. “O estudo reforça que os aspectos emocionais não podem mais ser tratados de forma secundária ou apenas quando uma crise surge. Promover espaços onde o estudante tenha voz ativa e se sinta seguro para interagir de forma real é urgente para reverter o avanço do isolamento na era digital”, afirmou.
A presença crescente da inteligência artificial na vida dos estudantes indica que o debate educacional já não se limita ao acesso à tecnologia. A questão central passa a ser como formar crianças e adolescentes capazes de utilizar essas ferramentas com autonomia, pensamento crítico, responsabilidade e equilíbrio emocional. Nesse cenário, a inteligência artificial no Ensino Fundamental surge como um dos temas mais relevantes para as escolas que buscam preparar seus alunos para um futuro cada vez mais conectado e complexo.










