Especialistas discutem como inteligência artificial, criatividade e relações humanas devem transformar a aprendizagem e a gestão escolar nos próximos anos
O pensamento crítico esteve no centro das discussões do primeiro dia do Arco Day 2026, realizado em São Paulo. Reunindo cerca de 2 mil gestores escolares, o evento promoveu reflexões sobre inteligência artificial, criatividade, personalização da aprendizagem e desenvolvimento humano, reforçando que os desafios da educação contemporânea vão muito além da adoção de novas tecnologias.
Embora a inteligência artificial tenha aparecido de forma recorrente ao longo da programação, a principal mensagem dos palestrantes foi que o futuro da educação dependerá da capacidade das escolas de fortalecer competências essencialmente humanas. Criatividade, pensamento crítico, comunicação, repertório cultural e construção de relações significativas surgiram como elementos centrais para preparar estudantes para um cenário de rápidas transformações.
A programação reuniu especialistas nacionais e internacionais, entre eles Charles Duhigg, Esther Wojcicki, Renata Vichi, Luciano Meira, Celso Camilo e Ademar Celedônio. Apesar de abordarem temas distintos, os convidados convergiram em um ponto comum: a tecnologia pode ampliar possibilidades de aprendizagem, mas não substitui a capacidade humana de interpretar, questionar e construir significado.
As discussões ocorreram em um contexto de crescente incorporação da inteligência artificial ao cotidiano das escolas. Para os participantes, a questão central não está em permitir ou proibir o uso dessas ferramentas, mas em desenvolver estratégias pedagógicas capazes de orientar sua utilização de forma crítica, ética e intencional.

Inteligência artificial exige uma nova pedagogia
O painel sobre o futuro da educação com inteligência artificial reuniu Luciano Meira, Celso Camilo e lideranças do ecossistema educacional para discutir os impactos das novas tecnologias na aprendizagem e na gestão escolar. Ao analisar o momento vivido pelas instituições de ensino, Luciano Meira defendeu que a transformação necessária é mais profunda do que a simples adoção de ferramentas digitais.
Segundo Meira, as escolas ainda não reorganizaram seus modelos de funcionamento para capturar o verdadeiro potencial das tecnologias emergentes. “Não nos reorganizamos radicalmente para capturar valor da transformação digital e não apenas da digitalização de processos”, afirmou.
Para o pesquisador, a inteligência artificial deve ser incorporada a uma nova proposta pedagógica centrada na construção de conhecimento, no fortalecimento das relações entre professores e estudantes e no desenvolvimento da autonomia intelectual. “Você vai transformar sua pedagogia e alimentar essa pedagogia com cenários e ambientes de inteligência artificial para tornar as tarefas não mais rápidas, mas mais potentes, mais robustas e mais significativas”, destacou.
A preocupação dos especialistas está relacionada ao risco de transferir processos cognitivos para as máquinas sem promover aprendizagem efetiva. “Se você transferir o raciocínio do estudante e do professor para a inteligência artificial, vai estar tudo perdido”, alertou Meira.
Celso Camilo reforçou que o debate não deve ser reduzido à tecnologia. Para ele, o principal desafio está na transformação cultural necessária para que escolas e profissionais consigam responder às mudanças em curso. “Transformação digital é muito mais sobre transformação do que digital”, afirmou.
Ao discutir o futuro do trabalho e da educação, o especialista defendeu que a inteligência artificial pode liberar pessoas de atividades repetitivas e ampliar o espaço para competências humanas mais sofisticadas. “A máquina tem uma chance de nos tirar da robotização”, observou. Segundo ele, o desafio será construir instituições que combinem inovação tecnológica e desenvolvimento humano. “O futuro não é só high-tech. O futuro é high-tech e high-human.”



Criatividade e boas perguntas ganham valor
Se a inteligência artificial desafia escolas a repensarem seus modelos de ensino, a criatividade apareceu como uma das competências mais estratégicas para o futuro. Em sua palestra, Ademar Celedônio apresentou reflexões sobre pensamento crítico, repertório cultural e os resultados de pesquisas internacionais relacionadas à criatividade.
Ao analisar os impactos das novas tecnologias sobre a aprendizagem, o educador chamou atenção para fenômenos como a automação do pensamento e a crescente dependência de sistemas digitais para tarefas cognitivas cotidianas. Para ele, a resposta da educação passa pelo fortalecimento da capacidade de questionar, analisar e construir argumentos. “Quem faz perguntas sabe pensar melhor. Quem pensa melhor escreve melhor”, afirmou.
Celedônio também destacou dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) relacionados à criatividade, defendendo que essa competência pode ser desenvolvida e ensinada pelas escolas. Em sua avaliação, o pensamento crítico precisa deixar de ser apenas um conceito presente nos discursos educacionais para se transformar em prática cotidiana. “Pensamento crítico é observação cuidadosa, coragem de questionar e vontade de repensar.”
A importância das perguntas também esteve presente na palestra do jornalista e escritor Charles Duhigg. Ao abordar hábitos, aprendizagem e comunicação, o autor destacou que perguntas profundas ajudam estudantes a construir conexões mais significativas com o conhecimento. “Quando ensinamos os alunos a fazerem questões profundas, ensinamos a pensar, a se sentir conectados a essa nova era”, afirmou.
Duhigg também destacou que processos de mudança exigem clareza sobre aquilo que permanece essencial. “Os hábitos mudam, os valores ficam. Se sabemos quais são os nossos valores e quais são mais importantes, distinguimos valores de hábitos.”
A discussão dialogou com a apresentação de Renata Vichi, que abordou liderança, cultura organizacional e tomada de decisões. Embora direcionada ao universo empresarial, sua reflexão encontra paralelos diretos na gestão educacional. “Nada é mais poderoso do que ter disciplina na execução quando a meta é clara”, afirmou. Para ela, organizações que desejam permanecer relevantes precisam cultivar uma cultura permanente de adaptação. “A inovação para uma empresa precursora é imperativa.”

Relações humanas permanecem no centro da aprendizagem
As competências humanas também apareceram como eixo central da palestra da educadora Esther Wojcicki, criadora do método TRICK, que defende a construção de ambientes de aprendizagem baseados em confiança, respeito e autonomia.
Ao abordar a formação das novas gerações, Esther destacou que relações saudáveis continuam sendo a base para qualquer processo educacional consistente. “Respeito é a fundação da educação equitativa”, afirmou. A educadora também defendeu modelos de desenvolvimento profissional mais colaborativos dentro das escolas. “O desenvolvimento do professor deve ser colaborativo, não top down”, ressaltou.
Ao longo do primeiro dia do Arco Day 2026, as discussões mostraram que a inteligência artificial continuará acelerando transformações importantes na educação. No entanto, os especialistas reforçaram que a capacidade de pensar criticamente, fazer perguntas relevantes, criar soluções, colaborar e construir relações significativas seguirá sendo um diferencial decisivo para estudantes, professores e gestores.
Em um cenário marcado pela automação crescente, o pensamento crítico surge como uma das competências mais estratégicas para orientar o uso consciente da tecnologia e ampliar as possibilidades de aprendizagem.










