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Leandro Holanda discute como projetos investigativos, cultura maker e aprendizagem baseada em projetos podem fortalecer a recomposição das aprendizagens sem reduzir o currículo às disciplinas tradicionais

Leandro Holanda

Recentemente, li uma pesquisa sobre os impactos da educação em tempo integral que me deixou um pouco incomodado. O estudo mostrava resultados em diferentes dimensões do desenvolvimento dos estudantes, algumas reportagens com títulos sensacionalistas carregaram uma mensagem um tanto quanto equivocada, que me fizeram retomar alguns textos que tinha estudado nas disciplinas de avaliação de programas: muitas aprendizagens simplesmente não aparecem nos indicadores que utilizamos para avaliar o sucesso de uma política pública, e inflizmente, nossos indicadores não são os melhores.  

Essa leitura me levou a uma pergunta que vai muito além da educação integral: será que estamos medindo tudo aquilo que realmente importa? E, se valorizamos principalmente aquilo que conseguimos medir, como isso influencia as escolhas que fazemos sobre o que ensinar?

A recomposição das aprendizagens consolidou-se, recentemente, como uma das metas centrais das redes públicas de ensino. Esse movimento mostra-se indispensável para o fortalecimento da leitura, da escrita e do raciocínio matemático, pilares para a redução de desigualdades e a garantia do direito à educação. Os resultados positivos de projetos que pude acompanhar de perto confirmam a eficácia e o sentido dessa abordagem dentro de seus propósitos. Minha reflexão, no entanto, não questiona a relevância essencial da recomposição, mas coloca em foco a maneira como ela vem sendo interpretada em certos contextos.

Existe o risco de reduzirmos a recomposição ao “arroz com feijão” da escola: mais tempo para Língua Portuguesa e Matemática, mais simulados, mais avaliações diagnósticas e mais atividades de reforço. Tudo isso tem seu valor. O problema surge quando outras agendas passam a ser vistas como secundárias, como se pudessem esperar até que a recomposição estivesse concluída (o que não deve acontecer em um curto prazo).

Será que podemos colocar em pausa projetos de investigação científica, experiências STEAM, educação ambiental, cultura maker, Computação ou outras propostas que desenvolvem curiosidade, criatividade, pensamento crítico e resolução de problemas? Ou essas experiências também fazem parte do direito de aprender?

Essa pergunta é especialmente relevante porque, muitas vezes, tratamos o STEAM como um complemento ao currículo. É interessante, inovador, mas que só acontece quando sobra tempo. Na prática, isso faz com que seja uma das primeiras iniciativas a perder espaço quando as prioridades se reorganizam.

O STEAM não precisa competir com a recomposição das aprendizagens. Pelo contrário: ele pode ser uma das formas mais potentes de realizá-la. Imagine estudantes investigando o consumo de água da escola para aprender porcentagem e proporcionalidade. Ou analisando dados sobre resíduos sólidos da comunidade para construir gráficos e interpretar informações. Ou ainda entrevistando moradores para produzir relatórios, argumentar com base em evidências e comunicar propostas de intervenção.

Nesses exemplos, Língua Portuguesa e Matemática não desaparecem. Elas ganham contexto, propósito e significado. Ao mesmo tempo, os estudantes desenvolvem alfabetização científica, pensamento investigativo, colaboração e capacidade de compreender problemas reais do território onde vivem.

Talvez essa seja uma das maiores contribuições do STEAM para a educação contemporânea: mostrar que não precisamos escolher entre recuperar aprendizagens e promover experiências investigativas. É possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mais do que perguntar se há espaço para o STEAM em tempos de recomposição das aprendizagens, talvez devêssemos inverter a lógica da questão.

Essa mudança de perspectiva nos convida a abandonar a ideia de que algumas agendas educacionais precisam esperar enquanto outras acontecem. Afinal, uma escola que deseja formar estudantes capazes de ler, escrever, resolver problemas e compreender o mundo dificilmente conseguirá atingir esse objetivo deixando de lado justamente as experiências que conectam esses conhecimentos à vida, à comunidade e aos desafios do nosso tempo. Talvez o verdadeiro desafio não seja recompor sem inovar, mas recompor sem reduzir o currículo.

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