Ideb 2025 mostra desempenho superior nas escolas de jornada ampliada, mas dados e estudos indicam que o resultado depende de infraestrutura e qualidade da implementação
O tempo integral ganhou peso na educação brasileira justamente quando as redes ampliam a jornada escolar e o país redefine suas metas para os próximos anos. Os resultados do Ideb 2025 mostram desempenho superior entre escolas com jornadas de sete horas diárias ou mais nas três etapas da educação básica. A diferença foi de 6,2 para 6,0 nos anos iniciais, de 5,2 para 4,9 nos anos finais e de 4,7 para 4,3 no ensino médio. O dado reforça a presença do modelo na agenda educacional, mas não permite concluir que a jornada ampliada, isoladamente, produz melhores resultados.
A cautela é necessária porque as médias de 2025 representam um retrato de um único ano. Redes com mais recursos, melhor capacidade de gestão ou condições pedagógicas mais favoráveis podem ter maior facilidade para adotar o tempo integral e também apresentar Ideb mais elevado. Uma análise do Insper, que acompanhou escolas estaduais, urbanas e propedêuticas de ensino médio entre 2019 e 2023, encontrou uma dinâmica diferente. Nas escolas que passaram a adotar a jornada ampliada, o Ideb caiu cerca de 0,07 ponto, enquanto nas demais houve crescimento próximo de 0,08.
A diferença entre os resultados não invalida o modelo, mas muda a pergunta que gestores precisam fazer. O desafio não está apenas em ampliar o número de horas que o estudante permanece na escola, mas em definir o que acontece durante esse período. Formação dos professores, organização curricular, infraestrutura, acompanhamento pedagógico e integração com outras políticas públicas passam a ter peso maior quando a jornada se estende. O tempo adicional pode ampliar oportunidades de aprendizagem, mas também pode reproduzir problemas existentes se a expansão ocorrer sem capacidade de execução.
A questão ganhou urgência porque o país vive a maior expansão do modelo desde a criação do Ideb. Segundo o Censo Escolar 2025, a proporção de matrículas em tempo integral no ensino médio público passou de 16,7%, em 2022, para 26,8%, em 2025. Na educação básica pública, o percentual subiu de 15,1% para 25,8% no mesmo período. O Programa Escola em Tempo Integral, criado pela Lei nº 14.640/2023, já recebeu R$ 4 bilhões em investimentos federais, segundo os dados apresentados pelo MEC.
A expansão também ganhou uma régua nacional mais definida. A Resolução CNE/CEB nº 7/2025 estabeleceu jornada mínima de sete horas diárias ou 35 horas semanais para a oferta de educação em tempo integral, da educação infantil ao ensino médio. O novo Plano Nacional de Educação, ainda em tramitação, propõe ampliar a oferta para entre 50% e 55% das escolas públicas e atender entre 25% e 40% dos estudantes até o fim do período. Para as redes, a discussão deixa de ser apenas sobre adesão ao modelo e passa a envolver a capacidade de sustentá-lo com qualidade.
Ideb 2025 mostra avanço, mas não prova causalidade
Os resultados divulgados pelo Ministério da Educação e pelo Inep colocam o tempo integral em uma posição favorável na fotografia de 2025. Nas escolas com jornada ampliada, o Ideb foi superior em todas as etapas avaliadas, com diferença mais expressiva no ensino médio. A distância chegou a 0,4 ponto nessa etapa, justamente onde os indicadores de aprendizagem historicamente apresentam maior fragilidade. O resultado chama atenção porque ocorre durante uma expansão acelerada da modalidade, mas precisa ser interpretado dentro das condições específicas de cada rede.
O caso do Piauí ajuda a ilustrar essa associação, embora não permita atribuir todo o avanço ao modelo. O estado tinha Ideb de 2,3 no ensino médio duas décadas atrás e alcançou 4,9 em 2025, segundo os dados apresentados no material. No mesmo período recente, a proporção de matrículas estaduais em tempo integral passou de 21% para 81%. A experiência sugere uma relação entre a expansão da jornada e uma política educacional mais ampla, mas também envolve gestão, currículo, acompanhamento e outras decisões tomadas pela rede estadual.
Pernambuco oferece outro contraponto. O estado adota escolas de tempo integral desde 2004 e mantém cerca de 61% das matrículas do ensino médio público no modelo. Ainda assim, perdeu neste ciclo a liderança que mantinha entre os estados nordestinos no Ideb. A experiência mostra por que a duração da jornada não pode funcionar como indicador isolado de qualidade. Mesmo redes com longa experiência podem apresentar oscilações, porque aprendizagem depende de múltiplas condições que variam entre ciclos e territórios.
A ressalva aparece também em estudos que acompanharam mudanças ao longo do tempo. Giovani Rocha, economista e cofundador da Iniciativa Equidade pra Aprender, analisou resultados de uma pesquisa do Insper e defendeu que a educação integral não seja avaliada por um único número. A observação ajuda a separar associação de causalidade no debate sobre o Ideb 2025. Para gestores, a questão prática é acompanhar diferentes indicadores e verificar se a ampliação da jornada melhora aprendizagem, equidade, permanência e experiência escolar na realidade específica da rede.
Expansão do tempo integral pressiona infraestrutura e formação
A qualidade da implementação ganha ainda mais importância diante do ritmo de expansão. Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna, ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-secretário de Educação de Pernambuco, defende que a escola trabalhe intencionalmente competências socioemocionais durante a jornada ampliada. A perspectiva desloca o debate de uma lógica quantitativa para uma discussão sobre uso pedagógico do tempo. Para as redes, isso significa revisar currículo, planejamento, práticas docentes e formas de acompanhamento antes de simplesmente acrescentar horas à rotina escolar.
A formação dos professores aparece como uma das condições para essa mudança. Thiago Zola, diretor de Soluções Educacionais da Mind Lab, defende que tecnologias e metodologias devem apoiar o trabalho docente, e não substituí-lo. A empresa atua com soluções voltadas ao desenvolvimento socioemocional e mantém programas implementados em redes públicas. Uma avaliação do Insper acompanhou um programa da Mind Lab em mais de 60 escolas de cinco redes municipais e encontrou ganhos em raciocínio lógico-matemático e metacognição, mas também identificou variações entre redes associadas à formação e ao engajamento dos professores.
Esse resultado é relevante para a discussão sobre tempo integral porque mostra que a mesma proposta pode produzir efeitos diferentes conforme as condições de implementação. A análise não autoriza concluir que uma metodologia específica resolve os desafios da jornada ampliada, mas reforça a importância da preparação docente. Para Thiago Zola, a formação inicial é o momento em que a metodologia ganha vida. Na perspectiva da gestão, isso significa considerar capacitação, acompanhamento e tempo de planejamento como parte do investimento necessário para ampliar a jornada.
A infraestrutura representa outro limite para a expansão. O Anuário Todos pela Educação 2025, com dados do Censo Escolar de 2024, aponta que 95,4% das escolas públicas têm algum acesso à internet, mas apenas 44,5% contam com conexão adequada para uso pedagógico. A desigualdade também aparece nos espaços físicos: bibliotecas ou salas de leitura estão presentes em 86,5% das escolas de ensino médio, mas em apenas 47,2% das unidades que atendem aos anos iniciais. Ampliar a permanência sem ampliar as condições de uso desses espaços cria uma pressão adicional sobre redes que já enfrentam restrições estruturais.
A Resolução CNE/CEB nº 7/2025 procura vincular a expansão a critérios de vulnerabilidade social e educacional e prevê articulação com áreas como saúde, assistência social e cultura. A norma ajuda a orientar a política, mas não elimina o desafio financeiro de adequar prédios, formar professores e reorganizar a rotina escolar. O Ideb 2025 mostra que escolas de tempo integral apresentam médias superiores, mas a evidência disponível ainda não permite tratar a jornada como causa isolada desse desempenho. Para gestores, a decisão mais importante está em saber se a rede consegue transformar horas adicionais em melhores oportunidades de aprendizagem.
A expansão do tempo integral entra, portanto, em uma fase diferente. O desafio deixou de ser apenas aumentar matrículas e passou a envolver a capacidade de oferecer uma jornada que produza aprendizagem, equidade e permanência com qualidade. O resultado do Ideb 2025 oferece um sinal favorável, mas também coloca uma condição: ampliar a escala sem garantir infraestrutura e formação pode fazer a política crescer mais rápido que sua capacidade de execução.
Com as metas do novo Plano Nacional de Educação apontando para uma presença ainda maior do modelo, a próxima etapa exigirá decisões sobre financiamento, espaços escolares e desenvolvimento profissional. O debate sobre tempo integral deixa de ser, então, se a jornada ampliada é melhor ou pior e passa a perguntar em quais condições ela consegue cumprir sua promessa educacional.










