Com a inteligência artificial incorporada ao cotidiano dos estudantes e às futuras avaliações internacionais, especialistas defendem que o desafio da educação básica passa a ser formar pensamento crítico, autonomia e responsabilidade no uso da tecnologia
A inteligência artificial deixou de representar uma novidade para se tornar parte da rotina de milhões de estudantes brasileiros. Ferramentas capazes de responder perguntas, organizar pesquisas, produzir textos e apoiar a resolução de problemas já fazem parte do cotidiano escolar, muitas vezes antes mesmo de serem incorporadas ao planejamento pedagógico das instituições de ensino. Diante desse cenário, especialistas avaliam que o uso da inteligência artificial na educação entra em uma nova fase, marcada menos pela experimentação e mais pela necessidade de desenvolver competências que permitam aos estudantes utilizar essas tecnologias de forma consciente e responsável.
O movimento acompanha uma mudança que também começa a ganhar espaço nas principais referências internacionais da educação. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) deverá incorporar, nas próximas edições, competências relacionadas ao letramento em inteligência artificial e à capacidade de atuar de forma crítica em ambientes digitais. A proposta sinaliza que o domínio de conteúdos continuará importante, mas deixa claro que interpretar informações, avaliar evidências e tomar decisões diante dos algoritmos passa a integrar o conjunto de aprendizagens consideradas essenciais para as novas gerações.
Os dados mostram que essa transformação já acontece dentro e fora das escolas. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, metade dos brasileiros entre 16 e 24 anos utiliza ferramentas de inteligência artificial em atividades do cotidiano. Outro levantamento, realizado pela Nexus em parceria com a Demà, revela que mais de 80% dos jovens consideram o conhecimento sobre inteligência artificial um diferencial para conquistar espaço no mercado de trabalho. A velocidade dessa adoção amplia a pressão para que a escola acompanhe uma realidade que os estudantes já vivenciam.
Ao mesmo tempo, educadores alertam que o avanço tecnológico não elimina a necessidade de desenvolver capacidades humanas. Pelo contrário. Quanto mais presentes se tornam os algoritmos, maior passa a ser a importância de competências como pensamento crítico, criatividade, argumentação, autonomia intelectual e responsabilidade ética. Essas habilidades ajudam os estudantes a compreender os limites das ferramentas, analisar a qualidade das informações recebidas e tomar decisões fundamentadas em diferentes contextos.
Nesse novo cenário, o debate sobre inteligência artificial deixa de se concentrar apenas no acesso às plataformas digitais. A discussão passa a envolver currículo, avaliação, formação docente e o próprio papel da escola na preparação de cidadãos capazes de compreender, questionar e direcionar tecnologias que influenciarão decisões econômicas, sociais e ambientais ao longo das próximas décadas.
Pensamento crítico torna-se prioridade na era da IA
A possibilidade de o Pisa incorporar competências relacionadas ao uso crítico da inteligência artificial reforça uma transformação que já alcança currículos, metodologias e formas de avaliar a aprendizagem. Para a educadora e psicanalista Silmara Casadei, mestre e doutora em Educação, o movimento demonstra que a formação dos estudantes passa a exigir um conjunto mais amplo de competências, capaz de integrar conhecimento técnico, desenvolvimento humano e uso consciente das tecnologias digitais.
Segundo a especialista, as chamadas IA Skills não substituem as competências tradicionais nem as habilidades socioemocionais. Elas ampliam o repertório necessário para viver e atuar em uma sociedade fortemente mediada por algoritmos. “Estamos falando das hard skills, das soft skills e, agora, das IA Skills. Essas novas competências não substituem as anteriores. Elas ampliam as possibilidades de formação e exigem que professores e estudantes desenvolvam novas formas de compreender o mundo”, afirmou.
Silmara também explicou que esse processo começa pelo letramento em inteligência artificial. Os estudantes precisam compreender como essas ferramentas funcionam, aprender a elaborar boas perguntas, reconhecer limitações, identificar vieses e refletir sobre os impactos sociais das decisões tomadas com apoio dos algoritmos. “Quatro competências tornam-se fundamentais: compreender conceitos básicos de IA, utilizar essas ferramentas para resolver problemas, avaliar seus limites e vieses e refletir sobre seus impactos sociais. É assim que se desenvolvem senso crítico, responsabilidade e ética”, destacou.
Na avaliação da educadora, o maior desafio pedagógico já não consiste em permitir ou impedir o acesso à inteligência artificial. A questão central passa a ser reorganizar as experiências de aprendizagem para que os estudantes utilizem essas tecnologias sem abrir mão da autonomia intelectual. “Precisamos ajudar os alunos a formular mais perguntas do que decorar respostas. A escola deve ensinar a analisar, questionar, complementar informações e compreender qual continua sendo o papel do ser humano diante da inteligência artificial”, observou.
Esse novo contexto também modifica a relação entre escola, família e tecnologia. Para Silmara, crianças e adolescentes precisam aprender desde cedo que algoritmos organizam informações a partir de seus próprios comportamentos digitais e, por isso, não podem ser tratados como fontes absolutas de verdade. “Questionar a resposta da própria inteligência artificial, verificar as fontes sugeridas e buscar outras referências são exercícios fundamentais para desenvolver autonomia intelectual. O benefício da dúvida continua sendo uma das competências mais importantes da educação.”

Escolas avançam do uso para a maturidade da inteligência artificial
A consolidação da inteligência artificial no cotidiano escolar também amplia o debate sobre a qualidade desse uso. Se, há poucos anos, a principal preocupação era incorporar novas tecnologias às práticas pedagógicas, agora especialistas defendem que o desafio consiste em utilizá-las de forma planejada, ética e alinhada aos objetivos de aprendizagem.
Para Victor Haony, assessor pedagógico da Mind Makers, solução educacional da SOMOS Educação voltada ao ensino de pensamento computacional, o amadurecimento acontece quando a inteligência artificial deixa de ser tratada como novidade e passa a integrar o projeto pedagógico da escola. “O uso da IA precisa estar conectado aos objetivos de aprendizagem e não ser apenas uma experiência pontual ou uma ferramenta de produtividade. Quando isso acontece, a tecnologia passa a contribuir efetivamente para o desenvolvimento dos estudantes”, afirmou.
Na prática, esse processo modifica também o papel do professor. Segundo Haony, a inteligência artificial permite elaborar planos de aula, criar atividades adaptadas, produzir materiais de revisão e acompanhar indicadores de aprendizagem com maior rapidez. O ganho de eficiência libera tempo para aquilo que continua sendo exclusivamente humano: acompanhar o desenvolvimento dos estudantes, interpretar suas necessidades e promover experiências significativas de aprendizagem. “O professor não perde espaço. Pelo contrário, torna-se ainda mais importante como mediador, curador de conteúdo e responsável por desenvolver o pensamento crítico dos alunos”, ressaltou.
Para os estudantes, a tecnologia também amplia possibilidades quando utilizada com intencionalidade pedagógica. Ferramentas de IA podem oferecer diferentes explicações para um mesmo conteúdo, adaptar níveis de dificuldade, fornecer feedbacks imediatos e sugerir trilhas personalizadas de estudo. Segundo o especialista, escolas que estruturam esse processo relatam aumento do engajamento, melhor acompanhamento individual da aprendizagem e fortalecimento de competências como criatividade, resolução de problemas, colaboração e pensamento analítico.
Esse avanço, porém, exige preparo institucional. Haony alerta que a adoção indiscriminada da inteligência artificial pode ampliar desigualdades de acesso, comprometer a proteção de dados e estimular comportamentos de dependência intelectual. “Quando o estudante deixa de confiar na própria capacidade de argumentar e passa apenas a reproduzir respostas prontas, a tecnologia deixa de potencializar a aprendizagem e passa a limitar o desenvolvimento do pensamento crítico”, observou.
Formação tecnológica amplia o debate sobre o futuro da educação
O amadurecimento do uso da inteligência artificial também amplia o debate sobre a formação tecnológica das novas gerações. Para especialistas, ensinar crianças e adolescentes a utilizar plataformas digitais representa apenas uma etapa do processo. O desafio mais amplo consiste em formar estudantes capazes de compreender como essas tecnologias funcionam, avaliar seus impactos e participar das decisões que moldarão a sociedade nas próximas décadas. Nesse contexto, programação, pensamento computacional e alfabetização digital passam a integrar um conjunto de competências estratégicas para a educação básica.
Essa necessidade ganha ainda mais relevância diante do crescimento acelerado da infraestrutura digital. Sistemas de inteligência artificial já apoiam atividades ligadas ao monitoramento ambiental, à gestão de energia, ao planejamento urbano e à análise de grandes volumes de dados. Ao mesmo tempo, a expansão dos data centers e das tecnologias digitais abre discussões sobre consumo energético, sustentabilidade e soberania tecnológica. Para a escola, isso significa preparar estudantes para compreender desafios que ultrapassam o universo da informática e alcançam dimensões econômicas, sociais e ambientais.
Segundo Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, rede especializada no ensino de programação, robótica e inteligência artificial, a tecnologia não pode ser apresentada apenas como ferramenta de produtividade. “A tecnologia não é o problema. O problema é desenvolver e utilizar essas ferramentas sem preparo e sem compreender os impactos das decisões tomadas a partir delas.” Para ele, a formação tecnológica precisa desenvolver repertório suficiente para que os jovens compreendam as consequências de escolhas realizadas com apoio da inteligência artificial.
Giroto destacou ainda que aprender lógica, programação e pensamento computacional produz benefícios que vão além do domínio técnico. Essas experiências fortalecem a capacidade de investigar problemas, estabelecer relações, construir soluções e avaliar diferentes cenários antes de tomar decisões. “Quem aprende lógica, programação e pensamento computacional desenvolve muito mais do que habilidades técnicas. Desenvolve capacidade de questionar, criar e avaliar consequências.” Na avaliação do especialista, essas competências influenciarão diretamente a atuação profissional e cidadã das próximas gerações.
O avanço da inteligência artificial indica que a escola precisará equilibrar inovação tecnológica e desenvolvimento humano. Livros, projetos colaborativos, investigação científica, experiências culturais e debates continuam essenciais para ampliar repertórios e fortalecer a autonomia intelectual. Ao mesmo tempo, compreender como funcionam os algoritmos torna-se parte da formação cidadã. Nesse cenário, o uso da inteligência artificial na educação amadurece à medida que deixa de priorizar apenas o domínio das ferramentas e passa a valorizar a capacidade de pensar criticamente sobre elas, preparando estudantes para participar de uma sociedade cada vez mais conectada e orientada por decisões mediadas pela tecnologia.
A incorporação da inteligência artificial ao cotidiano escolar deixou de ser uma tendência para se tornar parte da realidade da educação básica. O desafio que se impõe agora não está em ampliar o acesso às plataformas, mas em transformar esse acesso em oportunidades de aprendizagem que desenvolvam autonomia, pensamento crítico e responsabilidade. À medida que avaliações internacionais, currículos e demandas do mercado passam a valorizar essas competências, cresce também a necessidade de que escolas e educadores avancem da simples utilização das ferramentas para uma compreensão mais ampla de seus impactos.
Nesse cenário, formar estudantes capazes de dialogar com a inteligência artificial sem abrir mão da capacidade de questionar, investigar e criar torna-se uma das principais missões da escola contemporânea. Como resume Silmara Casadei, a reflexão que deve acompanhar toda proposta pedagógica permanece atual diante do avanço tecnológico: “O que a inteligência artificial será capaz de fazer? O que continuaremos esperando dos seres humanos?”. A resposta para essa pergunta tende a orientar boa parte das transformações da educação nos próximos anos.










