Há uma verdade inconveniente presente na vida de qualquer pessoa que atua com tecnologia educacional e, ao mesmo tempo, se preocupa com desigualdade: tecnologias educacionais tendem a ser vetores de desigualdade.
Barreiras de infraestrutura, disponibilidade financeira, cultura, competências técnicas, deficiências, dentre outras, impedem que muitas das pessoas que mais necessitam de suporte, não tenham acesso a esse conteúdo.
E então, a promessa de tecnologia de, por meio de seu poder de escala, atingir quem realmente precisa, fica só na promessa: quem realmente se beneficia é quem já tem acesso.
Isso é tão real que pesquisadores usam o termo “Efeito Mateus” cunhado pelo sociólogo Robert Merton na década de 60 também para o que ocorre em educação: os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres
(pois é, se você também pensou em “bom xi bom xi bombombom”, agora sabe que “As Meninas” eram leitoras de um sociólogo da década de 60…ou da Bíblia pelo menos).
Mas isso não é inevitável. Isso é fruto de escolhas de design.
É mais difícil desenhar soluções para quem mais precisa, pois há mais restrições. Mas é possível.
A conversa de hoje com Ig Ibert Bittencourt vai exatamente nessa linha. Ao longo de sua trajetória, o fundador do NEES, importante centro de pesquisa da UFAL, foi aprendendo como desenhar soluções para quem realmente precisa.
Vale acompanhar a entrevista e depois ler sobre algumas das edtechs ao redor do mundo que estão tomando decisões deliberadas para garantir acesso a quem necessita.
1 – Nos conte sua trajetória como pesquisador, acadêmico e empreendedor
Minha trajetória, na verdade, começa como empreendedor. Quando eu estava na graduação, criei uma startup com o objetivo de desenvolver simuladores educacionais, voltados pra estudantes de direito, pra simular tribunal de júri. A gente começou a desenvolver a tecnologia, chegou a ganhar prêmios de empreendedorismo, mas eu não tinha o background em IA pra desenvolver e fazer a startup prosperar. Então eu hibernei a ideia, fui trabalhar no mercado, e aí decidi fazer mestrado pra conseguir retomar essa empresa. Comecei o mestrado porque precisava mergulhar mais, fui fazer doutorado, e aí me apaixonei pela ciência. Me reapaixonei, na verdade, porque eu sempre tive esse sonho desde criança. E esse reencontro com a ciência me deixou tão apaixonado que eu não quis mais largar. Mas sempre acreditei que a ciência deveria servir a um propósito maior. Então sempre tentei conectar ciência com impacto. E foi aí que, depois do doutorado, virei professor, decidi criar empresas e criar o NEES. E o resto da história você conhece.
2 – Quais são os pontos mais consensuais nas pesquisas sobre IA em educação? E quais são algumas das perguntas mais relevantes em aberto?
Uma coisa que é muito consenso é que a IA veio pra ficar. Mesmo que a gente venha a ter uma bolha, não volta mais. Eu comparo isso com a bolha das pontocom: o que ficou de legado foi toda a infraestrutura da internet, toda a infraestrutura de cabos que passaram pelo mundo. E eu acho que vai ser um pouco parecido caso a gente venha a ter uma bolha de IA. Também é consenso que ainda estamos na infância da IA.
Outra coisa de consenso é que a IA já invadiu a educação. Ainda que não seja consenso que ela já esteja presente nas escolas pelo mundo todo.
Outro é que a generativa tem muito potencial, mas não conseguiu entregar valor como esperado.
Mas ainda temos muitas perguntas em aberto e eu acredito que as mais relevantes, quando a gente fala em IA, estão relacionadas à governança. Não existe hoje um consenso no mundo. Os maiores especialistas, como o Yoshua Bengio ou o Stuart Russell, estão pesquisando muito isso, mas a gente não tem consenso, nem sobre qual é o melhor modelo de governança de IA, nem sobre a melhor forma de implementar.
3 – Como é a experiência de desenvolver tecnologias junto ao governo?
A experiência de desenvolver tecnologia junto ao governo é, primeiro, muito gratificante e conectada a propósito. Me deixa muito feliz ter essa oportunidade. Segundo, tem vários desafios. O fato de a gente desenvolver tecnologia pro governo significa que a gente tem que sempre se adaptar a ele. A gente parte da premissa de que ele não vai mudar. Não estamos querendo mudar nada lá, porque sabemos que esse processo é muito lento. O que a gente quer é contribuir inovando. Então, sempre que a gente se engaja numa discussão sobre uma nova política ou tecnologia, damos o nosso toque de inovação e pesquisa. A gente não é, e não quer ser, uma software house. Pra isso já tem um monte. A gente acredita que esse não é o nosso papel.
É muito gratificante, mas também muito desafiador. O desafio grande é que, em alguns períodos do ano, o ritmo fica extremo, então essa capacidade de adaptação é muito importante. Por exemplo, a gente tem o que chama de salas de guerra: infraestrutura e equipes preparadas pra atuar 24 por 7, caso haja necessidade.
4 – Você traz uma contribuição rara para o setor de edtechs: um grande foco em trazer tecnologia para aqueles que têm menos acesso. Conte alguns dos aprendizados sobre como alcançar esse objetivo
Olha, tem muitos aprendizados. O que eu posso dizer é que é muito gratificante, Guilherme, receber um depoimento de uma pessoa que mudou de trajetória com nosso apoio. Por exemplo, a gente fez o Meu Tutor e disponibilizou pra todo mundo, de graça. Recebemos o relato de uma pessoa que estudou exclusivamente pela nossa plataforma, porque ela não tinha outros meios, e conseguiu passar numa universidade pública no curso que ela queria, de direito. É muito gratificante. Você sente que está deixando algo.
E são muitos aprendizados mesmo. Um princípio que eu levo comigo é: não dá pra gente aceitar o status quo. Se o status quo, da forma como está posto, fosse uma boa solução, a gente não teria o problema que a gente tem. Então, o que está posto é pra ser desafiado, e a gente precisa pensar criativamente em alternativas. Por isso, em qualquer ambiente em que eu esteja, eu sempre desafio quem está falando comigo, sempre com a mente curiosa pra entender e muito crítica pra questionar.
Outro princípio fundamental, mas que é muito difícil comunicar na minha opinião no dia a dia, principalmente quando a equipe é júnior, é que não existe solução pronta, muito provavelmente qualquer solução que a gente fizer, ela vai mudar e, é muito difícil a gente conseguir desenhar uma boa teoria da mudança, para problemas muito complexos. E aí consequentemente, precisa de clareza de que nos depararemos com muitas coisas desconhecidas no caminho. É algo que me ajuda, relembrar disso continuamente.
5 – Existe alguma crença forte sua que a experiência prática mostrou estar errada?
São duas. A primeira é que eu acreditava mais em tecnologia. Eu continuo acreditandoem tecnologia, mas hoje eu acredito mais em pessoas. No seguinte sentido: me interessa resolver problemas com muita ou com pouca tecnologia. Mas se a gente não consegue orquestrar pessoas nesse processo, a gente nunca vai conseguir implementar nada, qualquer que seja a tecnologia, entendeu? Então, esse é um primeiro ponto. O primeiro olhar, ele é sempre pras pessoas e pro contexto em que essas pessoas estão. E depois a gente olha pra tecnologia.
E a segunda, é que eu acreditava mais no valor da evidência. Veja, a evidência tem muitas fragilidades. Primeiro, são muitos contextos totalmente diferentes, a maior parte da pesquisa não é replicável em todos esses. Segundo, muitos problemas que a gente enfrenta não necessariamente temos ainda evidência forte pra embasar. Então eu parto da melhor evidência possível, e como ela pode ser útil, e quando a gente deve descartar e tentar algo diferente. A ciência é importante, mas tem suas limitações.
EdTechs
NEES (Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais, UFAL)
Centro de pesquisa em tecnologias educacionais voltado à equidade
Brasil
O NEES nasceu em 2011 dentro do Instituto de Computação da UFAL, fundado pelos pesquisadores Alan Pedro da Silva, Ig Ibert Bittencourt e Seiji Isotani. A origem da ideia foi um encontro em 2007 na International Conference on Artificial Intelligence in Education, em Los Angeles, onde os três pesquisadores eram os únicos brasileiros, e perceberam a necessidade de adensar a pesquisa em informática aplicada à educação para impactar a rede pública brasileira.
Inicialmente chamado de Núcleo de Excelência em Empreendedorismo Social, mudou de nome em 2022 para refletir um propósito mais explícito: a promoção da equidade educacional como caminho para a transformação social. Hoje reúne mais de 1.200 pesquisadores, técnicos e estudantes de graduação e pós-graduação, vindos de várias universidades brasileiras e internacionais.
Entre os projetos de maior alcance está o Meu Tutor, plataforma adaptativa que chegou a contar com 300 mil usuários ativos, com o NEES atuando em parceria com o Ministério da Educação desde 2016. Em abril de 2025, a UFAL deu um passo institucional importante: lançou o Instituto de Inteligência Artificial na Educação Desplugada (IA.Edu) e a primeira Cátedra Unesco voltada ao uso de IA em contextos educacionais com pouco ou nenhum acesso a recursos tecnológicos, sediada na estrutura do NEES. É o exemplo mais consolidado no Brasil de pesquisa acadêmica em IA educacional que atravessa produto, política pública e infraestrutura, os três planos que o Ig habita.
Eidu
Plataforma de aprendizagem digital para sistemas públicos de baixa renda
Alemanha
A Eidu é uma organização de origem berlinense fundada em 2016 que oferece uma plataforma de aprendizagem digital desenhada para sistemas públicos de educação em países de baixa e média renda. Começou no Quênia, em parceria com governos locais, e hoje reporta parcerias com 31 dos 47 condados quenianos, atendendo mais de 750 mil alunos entre Quênia e Nigéria, com pilotos em Ruanda e Paquistão.
O modelo é desenhado para sobreviver às condições reais do contexto. As salas recebem um número mínimo de smartphones, usados pelos professores para o plano de aula diário e pelos alunos em sessões curtas e lúdicas. A plataforma funciona offline, sincroniza quando há conectividade, e roda em dispositivos Android baratos. O custo declarado é de US$ 11 por aluno por ano, viabilizado pela digitalização integral de materiais que antes seriam impressos. A Eidu integra à plataforma o conteúdo de matemática e alfabetização da onebillion, e a versão digital da pedagogia estruturada Tayari, originalmente desenvolvida pela RTI International com o governo queniano.
Em 2022, todos os 47 condados quenianos aprovaram resolução incluindo a Eidu em seus planos de desenvolvimento, e a solução foi homologada pelo instituto curricular do país. A Eidu mobilizou cerca de US$ 15 milhões em parceria com governo alemão, Google, Fundação Jacobs e Save the Children. Em setembro de 2024, abriu o código de sua plataforma. Estudos independentes citados pela organização apontam ganho equivalente a 0,8 ano adicional de aprendizagem, colocando a intervenção entre as 10% de maior impacto em países de baixa e média renda. É talvez o caso mais limpo no mundo de edtech construída de origem para o setor público em contexto de baixa renda, com modelo de transição para sustentabilidade pelo próprio governo.
onebillion (onecourse)
Software autônomo de leitura, escrita e numeracia em tablet para crianças em contextos de baixíssimo acesso
Reino Unido
A onebillion é uma organização sem fins lucrativos britânica que desenvolveu o onecourse, software estruturado de leitura, escrita e matemática projetado para que crianças aprendam por conta própria em tablet, mesmo sem supervisão adulta. Em 2019, o onecourse foi anunciado cowinner do Global Learning XPRIZE, com prêmio de US$ 10 milhões, em uma competição que envolveu um ensaio de campo de 15 meses na Tanzânia, conduzido pelo governo tanzaniano, Unesco e Programa Mundial de Alimentos, com milhares de crianças sem escolarização formal usando os softwares finalistas em tablet.
Hoje o software roda em 17 países, com versões completas em Chichewa (Malaui), Suaíli (Tanzânia), Inglês internacional, Francês (África Ocidental e Central) e Português (Moçambique). Uma guia digital chamada Alefa conduz cada criança passo a passo. As duas plataformas vencedoras do XPRIZE foram disponibilizadas em código aberto, permitindo que governos, ONGs e desenvolvedores adaptem e escalem.
A trajetória mais ambiciosa hoje é no Malaui. O governo iniciou, em parceria com a Imagine Worldwide, o programa BEFIT (Building Education Foundations through Innovation & Technology), que pretende alcançar 3,8 milhões de crianças por ano até 2029 com o onetab, tablet dedicado, para todos os alunos do 1º ao 4º ano. Ensaios randomizados conduzidos pela Imagine Worldwide indicaram ganho adicional de 4,2 meses de aprendizagem em leitura após 13 meses, em período afetado pela Covid, e ganhos similares entre meninas e meninos. O conteúdo da onebillion também alimenta a plataforma da Eidu, alcançando mais de 230 mil crianças no Quênia.
M-Shule
Plataforma de aprendizagem adaptativa via SMS em celular básico
Quênia
A M-Shule, cujo nome significa “escola móvel” em suaíli, foi fundada em 2017 no Quênia para oferecer aprendizagem personalizada por mobile, projetada para chegar onde o smartphone e o dado móvel não chegam. O ponto de partida é uma observação simples: enquanto cerca de 23% dos quenianos têm acesso à internet, 80% dos domicílios têm acesso a algum celular. A plataforma combina IA e aprendizagem adaptativa com a acessibilidade do SMS para chegar ao maior número possível de usuários.
A tecnologia ajusta a dificuldade do conteúdo conforme o desempenho do aluno, em micro-lições alinhadas ao currículo nacional. O conteúdo cobre literacia, numeracia, educação financeira e formação profissional. O aluno não precisa de nada além de um celular capaz de enviar e receber SMS e um chip, sem necessidade de crédito, plano de dados, conectividade, smartphone ou computador. Os dados de desempenho são compartilhados com pais, escolas e organizações parceiras.
A M-Shule já articulou parcerias com programas como Tusome e Keep Kenya Learning, e vem dialogando com o governo queniano para alinhar suas estratégias de aprendizagem às expectativas curriculares. Foi vencedora do Google Impact Challenge Kenya em 2018. Pesquisas conduzidas pelo EdTech Hub estudaram especificamente equidade no modelo SMS, com indícios de benefício relevante para meninas. É o exemplo mais extremo do princípio que sustenta a Cátedra Unesco sobre IA na educação desplugada coordenada pelo Ig: IA adaptativa entregue por SMS em celular básico, sem smartphone, sem dado, sem aplicativo.
CENTURY Tech
Plataforma de aprendizagem adaptativa baseada em IA para sistemas escolares
Reino Unido
A CENTURY Tech foi fundada em Londres em 2015 e oferece uma plataforma que combina IA, neurociência e ciências da aprendizagem para gerar trilhas personalizadas em disciplinas centrais como inglês, matemática e ciências, com conteúdo alinhado a currículos nacionais e exames. Para professores, entrega relatórios de diagnóstico, identificação de lacunas e acompanhamento de progresso em tempo real.
A diferença em relação a plataformas adaptativas mais antigas é a abordagem: enquanto outras adaptativas são baseadas em regras inseridas manualmente por programadores, a CENTURY usa aprendizado de máquina sobre os dados de interação dos alunos para ajustar dinamicamente o caminho. Também incorpora princípios de neurociência para avaliar foco, dificuldade, ritmo de aprendizagem e tempo necessário para a informação migrar da memória de curto para a de longo prazo.
Em 2019, fechou um contrato significativo com a comunidade flamenga da Bélgica: a tecnologia seria implementada em todas as 700 escolas regionais ao longo de cinco anos. Foi, segundo a empresa, a primeira vez que um governo aplicaria IA em tal número de salas de aula. Hoje declara presença em mais de 70 países. Captou ao longo da trajetória cerca de £22 milhões, somando rodadas de equity, aportes da Innovate UK (agência pública de inovação britânica) e investidores estratégicos, incluindo o fundo filantrópico do MIT Solve. Funciona como contraponto útil aos casos de IA desplugada: mostra como uma adaptativa baseada em IA escala dentro de sistemas públicos quando há infraestrutura digital instalada. É importante ter visão desses casos para, sim, trabalhar em casos que permitem acesso imediato independentemente da infra, mas que não se pare de buscar evoluir para que essa possa ser acessível a todos.
Sunbird (EkStep Foundation)
Infraestrutura digital pública de código aberto para educação em escala nacional
Índia
A Sunbird é uma infraestrutura digital de código aberto mantida pela EkStep Foundation, organização indiana cofundada em 2015 por Nandan Nilekani, conhecido por cofundar a Infosys e arquitetar o sistema Aadhaar de identidade digital indiana, e Rohini Nilekani. A lógica é diferente da edtech tradicional: em vez de construir uma plataforma fechada, a EkStep desenvolveu um conjunto modular de mais de 100 blocos de construção sob licença aberta que governos podem combinar para montar suas próprias soluções educacionais.
Sunbird é a infraestrutura que sustenta a DIKSHA (Digital Infrastructure for Knowledge Sharing), plataforma nacional de educação básica do Ministério da Educação da Índia lançada em 2017. A DIKSHA opera em todos os 35 estados e Territórios da União, suporta 1,48 milhão de escolas, está disponível em 36 idiomas indianos, e foi acessada para mais de 5 bilhões de sessões de aprendizagem. Cada estado configura a plataforma conforme suas necessidades, mantendo autonomia sobre conteúdo e operação. Atende mais de 200 milhões de alunos e 7 milhões de professores, com mais de 11 mil contribuidores de conteúdo.
Há mais de 50 outras implementações de Sunbird ao redor do mundo, em educação, saúde pública e mercado de trabalho. Em 2023, o Ministério da Educação indiano fechou acordo de sete anos com a Oracle para modernização da DIKSHA sobre sua infraestrutura em nuvem. É a referência mundial mais ambiciosa de infraestrutura pública digital aplicada à educação, modelo que vem ganhando tração em discussões globais e que dialoga direto com a experiência do NEES junto ao MEC e com a tese de IA aplicada que atravesse políticas públicas em escala.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










